Pensamentos mais-que-imperfeitos!


13/06/2009


O pastor e o farmacêutico ou estamos todos ferrados!

Eu não gosto de ser chato e tampouco acredito em conspirações internacionais, mas algumas coisas são no mínimo coincidências daquelas que nem o amor traz.

 

No dia 11 de junho a Organização Mundial de Saúde decretou o nível máximo de alerta contra a gripe suína, colocando-a na fase 6. Pandemia na área! A primeira, por sinal, decretada desde 1968.

 

No dia 12 de junho, eis que o laboratório suíço Novartis, que sofria com os efeitos da crise econômica, anuncia que produziu o primeiro lote de vacina contra a gripe vinda dos porquinhos.

 

Em meus devaneios tolos, imaginei o quanto, quase que de forma imperceptível,  a fórmula "Eu te convenço que você está ferrado + Eu tenho a solução= Me dê seu dinheiro" é aplicada, desde a casos como este, aos mais corriqueiros como o do pastor que fala que você vai pro inferno, mas que tem a salvação, bastando abrir o bolso (em alguns casos, como na moderna Universal, já dá pra se salvar parcelando no cartão de crédito).

 

Mas é claro, nos exemplos citados, uma coisa não tem nada a ver com outra, afinal ignorantes são os favelados que dão dinheiro para o bispo enriquecer. As pessoas de classe média que vão desesperadamente atrás da vacina, enchendo os bolsos do doutor-gênio-farmacêutico-salvador-da-humanidade, apenas vão estar cuidando da sua saúde, por serem muito bem informadas e saberem do perigo que é a tal gripe suína. Não é mesmo?

 

 

Escrito por Dostuc às 15h17
[ envie esta mensagem ]

02/06/2009


Ainda Mais

(Eduardo Gudin e Paulinho da Viola)

 

Foi como tudo na vida que o tempo desfaz
Quando menos se quer
Uma desilusão assim
Faz a gente perder a fé
E ninguém é feliz, viu
Se o amor não lhe quer
Mas enfim, como posso fingir
E pensar em você como um caso qualquer
Se entre nós tudo terminou
Eu ainda não sei mulher
E por mim não irei renunciar
Antes de ver o que eu não vi em seu olhar
Antes que a derradeira chama que ficou
Não queira mais queimar


Vai, que toda verdade de um amor
O tempo traz
Quem sabe um dia você volta para mim
E amando ainda mais

Escrito por Dostuc às 19h50
[ envie esta mensagem ]

12/05/2009


Gullar

Continuando a série "Liberdade é só pra quem pode", uma linda poesia de Ferreira Gullar:

 

 

A alegria

 

 

O sofrimento não tem
nenhum valor
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria). 

 

Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer? 

 

            A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos 

 

espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
                       querem estar contentes.

Escrito por Dostuc às 23h32
[ envie esta mensagem ]

09/05/2009


Versos de Bandeira

Faz um certo tempo que não posto poesias aqui. Nesses tempos em que qualquer um, julgando-se liberto da "forma", escreve poesias sem métrica, sem rima, sem sentido e sem nada, é bom lembrar o que os modernistas queriam dizer quando criticavam o parnasianismo. Leiam Bandeira abaixo e comparem com os "poetas" que vemos por aí. É por isso que eu digo que liberdade não é para todos.

 

QUANDO PERDERES O GOSTO HUMILDE DA TRISTEZA

 

Quando perderes a gosto humilde da tristeza,
Quando nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;

 

Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
- A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;

 

Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,
E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:

 

Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Cristar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:

 

Então sorri pela última vez, tristemente,
A tudo o que outrora
Amaste. Sorri tristemente...
Sorri mansamente...em um sorriso pálido...pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe...Sobre a tua fronte morta...

 

Escrito por Dostuc às 17h13
[ envie esta mensagem ]

O jogador ignorante, a torcedora sábia, o torcedor burro e o Corinthians

Minha namorada diz que não entende nada de futebol. O futebol é soporífero para ela.

 

Sábado, conversava com ela o absurdo de alimentar este esporte, embasado por um fato específico me deixou revoltado. André Santos, lateral esquerdo do Corinthians, tinha sido inquirido pela reportagem do "Globo Esporte" sobre o Timão. Ele não sabia nada. Desde o mascote, ao hino do clube, ele errou tudo. E eu, já revoltado pela derrota do meio da semana, contra o Atlético-PR, vaticinei: não iria mais acompanhar futebol. Esse bando de jogadores vagabundos, mercenários, que sabem muito menos do clube que eu, ganham em um ano o que eu não vou ganhar durante a vida e, como um trouxa, sirvo de platéia para esses boçais, biltres, ignorantes.

 

Ouvindo meu desabafo ela, que já me conhece muito bem, simplesmente disse: "Amor, qual é o nome desse jogador mesmo?" "André Santos" "Que posição que ele joga?" "Lateral-esquerdo, por que?" "Não, só queria saber. É que amanhã ele vai fazer um gol, o Corinthians vai ser campeão e ele vai se tornar seu ídolo!" "Ha-ha, até parece. Minha decisão é definitiva!".

 

Como poderia minha namorada, que não sabia nem o nome do jogador, especular sobre minhas decisões no futebol? Eu que acompanho há anos, vivo e respiro este esporte inútil, não saberia que estava falando sério? E ainda ela me fala que André Santos ia fazer gol? Justo ele, que estava jogando mal há jogos e jogos? Só rindo mesmo.

 

Chegou o domingo. A tarde passando e eu assistindo filmes: "Não vou mais assistir futebol, que se dane!". 16h era a hora marcada do jogo. Às 15:40, timidamente coloquei no canal que iria transmitir: "Vou só dar uma olhadinha", me justifiquei. Às 15:50, já estava colocando a camisa do Corinthians: "Estou sem camisa e está frio". 16h já estava gritando: "Vai, Corinthians!".

 

Após muita pressão, aos 26 minutos do primeiro tempo, o Santos fez 1x0, de pênalti. O desespero tomou conta de mim. Na seqüência, uma oportunidade fatal para o Santos ampliar o placar. Parecia ser questão de tempo o Santos fazer os três gols de diferença que precisava para ser campeão e reverter a vantagem do Corinthians. A torcida do Santos cantava "O Santos é o time da virada" em um Pacaembu de corintianos assustados. A irritação com aqueles jogadores vagabundos, boçais, preguiçosos novamente subia à minha cabeça.

 

Porém, aos 33 minutos, Dentinho passou a bola para André Santos fuzilar a rede de Fábio Costa. Gol do Corinthians! Berros aliviados da minha parte. Foi um balde de água fria sobre eles, o Santos estava morto. Não conseguiria mais a reação. Era só esperar o segundo tempo passar e o Corinthians ser campeão. E foi o que aconteceu.

 

"Como o gol de André Santos foi providencial! André Santos merece ir para a seleção! É um craque da lateral-esquerda! Corinthians campeão! Corinthians minha vida, minha história, meu Amor!". E, por falar em Amor, lembrei do diálogo do dia anterior.

 

Talvez por isso o Corinthians seja tão apaixonante. É o time que acabou de subir da série B, se classificou em terceiro lugar no campeonato Paulista e termina o mesmo campeonato campeão invicto. É o time que o jogador pode até não saber nada de nada, ser um ignorante e estar fazendo partidas ruins, mas na final cresce e entra pra história (Quem se esquece de Dinei, Tupãzinho, Basílio?). É o time que a torcedora que não troca ouvir uma boa música por qualquer final de campeonato ser capaz de fazer comentários mais lúcidos e precisos do que o pretenso fanatico que sabe nome até dos seguranças do time e que foge de tudo o que é verde como o vampiro de alho.

 

É que o Corinthians, na verdade, tem razões particulares, desconexas, com a estrutura lógica da paixão. Ou seja, não adianta procurar entender, compreender, calcular. Nunca fará sentido. E é por isso que é Corinthians.

Escrito por Dostuc às 16h47
[ envie esta mensagem ]

30/11/2008


Sem Ilusão

A foto acima, em que Marrone, Latino, sua namorada, a "modelo" (?!?) Mirella Santos e Dudu Nobre, estão na área VIP da quadra da Estácio de Sá, ladeados pelo presidente de honra da escola, mostra bem no que se transformaram as escolas de samba.

 

Estácio de Sá, que outrora foi escola de Ismael Silva, dando tratamento de Rei a autores de clássicos do samba como "Festa no Apê", "Cátia Cachaça", "Seu guarda eu não sou vagabundo, eu não sou deliqüente".

 

Não foi sem motivo que Elton Medeiros disse em "Sem Ilusão":

 

No Carnaval não vou querer me fantasiar
Não vou querer me vestir de Rei
Não quero mais colorir a dor
E se alguém quiser me aplaudir
Vai ter que ser assim como eu sou
Não quer dizer que não vou nem brincar
Só não quero enganar o meu coração

 

No Carnaval não vou mais sair fingindo
Que passo a minha vida inteira a cantar
Eu vou me divertir, na certa eu vou sambar
Mas dessa vez a ilusão não vai me pegar

 

No Carnaval eu sempre saí sorrindo
Me divertindo só pra desabafar
Três dias pra sorrir
Um ano pra chorar
Mas dessa vez a ilusão não vai me pegar

Escrito por Dostuc às 12h43
[ envie esta mensagem ]

16/11/2008


Reportagem em homenagem a Candeia

Abaixo, um vídeo muito bonito de uma reportagem que a Rede Globo transmitiu no início do ano:

 

http://www.youtube.com/watch?v=idZk1oDbRzs 

Escrito por Dostuc às 12h24
[ envie esta mensagem ]

15/11/2008


30 anos sem Candeia

Foto: Candeia, muito bem acompanhado por Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito

 

 

Amanhã serão 30 anos sem Candeia. 30 anos, quando se trata de Candeia, possui um significado muito especial.

 

Com 30 anos, exercendo sua profissão de policial dotado de uma certa dose de abuso de autoridade, em uma briga de trânsito ele viu sua vida mudar completamente. Após ter descarregado a arma nos pneus de um caminhão, Candeia sofreu uma retaliação brutal do motorista deste mesmo caminhão que também estava armado e descarregou a arma no seu corpo. Ninguém poderia prever que aquelas balas que por milagre não foram mortais, mas que que prenderiam Candeia a uma cadeira de rodas pelo resto da vida, iriam fazer surgir não só o um bom sambista que ele sempre foi, mas um gênio. Gênio muitas vezes ilustramente desconhecido, esquecido. Mas um gênio.

 

Hoje, dentre diversas obras-primas, a que eu escolho para homenageá-lo é justamente o "Testamento" que ele deixou.

 

Axé, Candeia!

 

 

Testamento de Partideiro
(Candeia)

 

Pra minha mulher deixo amor, sentimento, na paz do Senhor
E para os meus filhos deixo um bom exemplo, na paz do Senhor
Deixo como herança, força de vontade, na paz do Senhor
Quem semeia amor, deixa sempre saudade, na paz do Senhor
Pros meus amigos deixo meu pandeiro, na paz do Senhor
Honrei meus pais e amei meus irmãos, na paz do Senhor
Ao fariseu não deixarei dinheiro, na paz do Senhor
É mas pros falsos amigos deixo o meu perdão, na paz do Senhor


 

O sambista não precisa ser membro da academia
Ao ser natural em sua poesia o povo lhe faz imortal
O sambista não precisa ser membro da academia
Ao ser natural em sua poesia o povo lhe faz imortal


 

E se houver tristeza que seja bonita, na paz do Senhor
Pois tristeza feia o poeta não gosta, na paz do Senhor
Um surdo marcando choro de cuíca, na paz do Senhor
Viola pergunta mas não tem resposta, na paz do Senhor
Quem rezar por mim que o faça sambando, na paz do Senhor
Porque um bom samba é forma de oração, na paz do Senhor
Um bom partideiro só chora versando, na paz do Senhor
Tomando com amor batida de limão, na paz do Senhor

Escrito por Dostuc às 20h55
[ envie esta mensagem ]

Cláudia Leitte, Berlusconi e um pouquinho de Machado também

O politicamente correto consegue combinações incríveis. Nos últimos dias, esse monstrego moderno conseguiu colocar no mesmo balaio a axezeira Cláudia Leitte e o primeiro ministro italiano, Silvio Berlusconi.

 

A primeira, que está grávida, quando perguntada se queria ter um filho gay, disse que "adora gays, mas prefere que o filho seja macho." Bastou esta declaração para várias associações de orgulho GLBT se manisfestarem, chamando a axezeira de preconceituosa e despreparada para criar uma criança.

 

Tudo bem, eu particularmente acho que uma axezeira não tinha nada que colocar filhos no mundo para aumentar o legado de nossa miséria, já que dificilmente dali sairia alguém que acrescentasse algo para a humanidade. Possivelmente, na onda de "filho de não sei quem", no futuro, o filho de Cládia Leitte comande um trio como "O Filho da lendária Cláudia Leitte", perpetuando a praga. Mas a questão levantada não foi essa. Cláudia foi taxada de despreparada, preconceituosa por cometer o "crime" de dizer que queria um filho heterossexual.

 

Oras bolas, por que nenhuma grávida é taxada de preconceituosa e despreparada se dissesse, por exemplo, que queria uma menina? E por que, indo para o caso específico, nenhuma grávida seria taxada de preconceituosa e despreparada se dissesse que queria sim, um filho gay?

 

Pelo contrário, seria uma pessoa altamente "descolada" aquela que dissesse: "Eu queria ter um filho gay, odeio heterossexuais!". E ai de quem falasse que era preconceito contra os heterossexuais! Acho que ninguém consegue explicar essa lógica.

 

A outra vítima foi Silvio Berlusconi. Ao comentar a eleição de Barack Obama, Berlusconi disse: "Vou tentar ajudar as relações entre a Rússia e os Estados Unidos, onde uma nova geração chegou ao poder. Eu não vejo nada que impeça Medvedev de travar boas relações com Obama, que também é bonito, jovem e bronzeado."

 

Bastou essa declaração para Berlusconi ser taxado de porco, racista, preconceituoso. Por ter cometido a "ofensa" de chamar o próximo presidente estadunidense de "bronzeado" em um contexto totalmente elogioso.

 

Na insanidade de procurar preconceito e discriminação em tudo, os paladinos do politicamente correto esquecem de ver que muitas vezes nada disso está presente, senão neles mesmos. É um velho ditado árabe (que nem sei se realmente é árabe, mas é muito pertinente): Ter merda no bigode e dizer que os outros que estão fedendo.

 

Na verdade, esses paladinos associados são os filhos do doutor Bacamarte, o pitoresco médico de "O alienista", de Machado de Assis, que via loucura em tudo, quando na verdade era ele quem estava louco.

 

Só o politicamente correto para conseguir unir Machado, Berlusconi e Cláudia Leitte. Isso que eu chamo de sinal dos tempos.

Escrito por Dostuc às 20h18
[ envie esta mensagem ]

Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!

15 de novembro, Proclamação da República. Independente das críticas que sejam pertinentes ao real legado desta Proclamação, ao menos para uma coisa serviu: deixar o Hino mais belo que o Brasil tem.

 

Eu acho uma extrema injustiça este Hino além de ser quase desconhecido, não ser o Hino Nacional. Não que o Nacional não seja, porém a música vibrante, os versos fortes e vivos do Hino da Proclamação ao menos dão uma sensação boa, dentre tantas ruins, de ser brasileiro. 

 

É realmente uma pena que vários brasileiros quando ouçam os versos "Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!", só se lembrem do samba-enredo da Imperatriz, no Carnaval de 1989. Coisas da vida.

 


 

Hino da Proclamação da República

 

(Letra: Medeiros e Albuquerque/ Música: Leopoldo Miguez)

 

Seja um pálio de luz desdobrado,
Sob a larga amplidão destes céus
Este canto rebel que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus.
Seja um hino de glória que fale,
De esperança de um novo porvir,
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir.
 

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas, na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.

 

Nós nem cremos que escravos outrora,
Tenha havido em tão nobre país
Hoje o rubro lampejo da aurora,
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais, ao futuro
Saberemos unidos levar,
Nosso augusto estandarte, que puro,
Brilha ovante, da Pátria no altar.

 

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas, na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.

 

Se é mister que de peitos valentes,
Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes,
Batizou este audaz pavilhão.
Mensageiro de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder
Mas da guerra nos transes supremos,
Heis de ver-nos lutar e vencer.

 

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas, na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.

 

Do Ipiranga é preciso que o brado,
Seja um grito soberbo de fé,
O Brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia pois, brasileiros, avante!
Verde louros colhamos louçãos,
Seja o nosso país triunfante,
Livre terra de livres irmãos!

 

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas, na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.

 

Link para ouvir o Hino da Proclamação da República, cantado pelo Exército:

http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraDownload.do?select_action=&co_obra=2215&co_midia=3

Escrito por Dostuc às 11h49
[ envie esta mensagem ]

28/10/2008


Mas o Nelson vive eternamente no coração da gente

Nelson Cavaquinho vivia cantarolando "Depois que o tempo passar, sei que ninguém vai se lembrar que eu fui embora". Com todo respeito ao Mestre, mas foi certamente a maior bobagem que ele poderia dizer.

 

Não só a sua saída do mundo é lembrada, mas também a sua chegada. Hoje, Nelson faria 97 anos.

 

Raramente se via um sorriso em seu rosto sempre sisudo, ou uma alegria pura em suas letras. Porém, acredito que hoje Nelson está no raramente.

 

Hoje, Nelson deve estar bem risonho e cantando uma música bem feliz como "Sempre Mangueira". Hoje é dia de festa.

 

Um feliz aniversário para esse Rei Vadio que, com a imaginação, transformava barracos em castelos!

 

E eu também quero cantar:

 

Sempre Mangueira

(Nelson Cavaquinho e Geraldo Queirós)

 

Mangueira é celeiro, de bambas como eu
Portela também teve, o Paulo que morreu
Mas o sambista vive eternamente, no coração da gente

 

Os versos de Mangueira são modestos
Mas há sempre força de expressão
Nossos barracos são castelos
Em nossa imaginação

 

Ôôôô, foi Mangueira que chegou...

Escrito por Dostuc às 19h56
[ envie esta mensagem ]

26/09/2008


Candeia e Cartola

2008 está longe, longe, de acabar. Felizmente. Existem muitas datas importantes para serem lembradas. E o samba diz que é tempo de sentir saudade de dois dos seus mais diletos filhos. No dia 11 de outubro será comemorado o centenário de Cartola. No dia 16 de novembro, serão completados 30 anos sem Candeia.

 

Independente de, lamentavelmente, não existir nenhuma lembrança significativa por parte dos meios de comunicação, eu pelo menos não deixarei estas datas significativas passarem em branco.

 

Para iniciar as homenagens, nada como citar uma música de cada. Contudo, uma do Cartola que foi imortalizada na voz do Candeia e outra do Candeia que foi imortalizada na voz do Cartola. Sendo assim, deixo as belíssimas letras de "Preciso me encontrar", música do Candeia, que Cartola cantou no seu álbum "Cartola", de 1976, e a letra de "Pelo nosso Amor", música do Cartola, que Candeia cantou no disco "Luz da inspiração", de 1977.

 

Duas parcerias indiretas entre dois gênios do nosso Samba.
 

 

 

Preciso Me Encontrar
(Candeia)

 

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...

 

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

 

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar...

 

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer
Quero viver...

 

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...

 

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar

 

Deixe-me ir preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar...

 

 

Pelo Nosso Amor
(Cartola)

 

Desperta, querida,
E vem ouvir meus ais
Procura ouvir agora
Ou não ouvirás jamais

 

Vem ouvir a voz
deste teu trovador
Desperta, querida,
pelo nosso Amor

 

E se despertares
vem trazer conforto
Para um pobre peito
Triste, semimorto
As frases saídas
Com tanto fervor
No espaço perdida
Não deixes, querida
Pelo nosso Amor

 

Desperta, querida,
E vem ouvir meus ais
Procura ouvir agora
Ou não ouvirás jamais

 

Vem ouvir a voz
deste teu trovador
Desperta, querida,
pelo nosso Amor

 

E se despertares
vem trazer conforto
Para um pobre peito
Triste, semimorto
As frases saídas
Com tanto fervor
No espaço perdida
Não deixes, querida
Pelo nosso Amor

Escrito por Dostuc às 22h58
[ envie esta mensagem ]

17/08/2008


Até os imortais morrem

Ultimamente este blog mais está parecendo um obituário. Mais pela minha falta de regularidade do que pelo meu anseio de falar de mortes. Não tenho anseio nenhum em falar desses momentos tristes. Ainda mais no caso desta perda que serei obrigado a retratar.

 

Poucas coisas na vida são eternas e uma das coisas que eu considerava eternas era a vida de Dorival Caymmi. A obra obviamente eu não preciso ser redundante em falar que sempre será. Porém a vida no plano terreno, talvez nutrido por uma daquelas poucas fantasias infantis que existem em nossa vida adulta, eu nunca acreditei que poderia se findar.

 

O que reforçava essa minha idéia era ver todos os seus amigos na música brasileira envelhecendo, perdendo a vida, e só Caymmi vivo, saudável. Os seus cabelos brancos, quase sempre presentes nos seus principais registros, pareciam o sinal da sua eternidade.

 

Sem contar, é claro, a sua impressionante capacidade de perpetuar suas músicas. Calcula-se que Caymmi teve, ao todo, 120 composições durante a sua vida de 94 anos. É uma média baixa, considerando-se que vários biltres profissionais (dessa vez não irei citar nomes em respeito à postagem sobre Caymmi) em pouco tempo fazem diversas porcarias para diversos outros biltres maiores ainda que os primeiros interpretarem e outros biltres, maiores ainda que todos os anteriores, consumirem.

 

Porém essa aparente lentidão no processo de composição, na verdade mostrava a espontaneidade da arte de Caymmi. Não poderiam existir prazos, tempo estipulado. Simplesmente as músicas tinham que surgir com o decorrer do tempo. Daí a sua longevidade. O tempo (ou o excesso dele) era um fator fundamental para a obra de Caymmi nascer. O tempo era sempre o seu criado. 

 

Justificando a sua eternidade terrena que o tempo lhe dava, as canções que Caymmi compunha, mais do que sucessos, tornaram-se parte do folclore brasileiro. Afinal, quem nunca ouviu os versos "Eu vou pra Maracangalha, eu vou...", "O que é que a baiana tem?", "Ai, ah que saudade eu tenho da Bahia...", "Quem não gosta do samba bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça ou doente do pé...", "Há tanta mulher no mundo, só não casa quem não quer, por que é que eu vim de longe pra gostar dessa mulher?", "Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá!", "Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar meu bem querer..." e diversos outros versos que dariam uma postagem quilométrica caso fossem citados.

 

Nas minhas indagações, me perguntei o que poderia ter feito Caymmi morrer. Os jornais noticiaram insuficiência renal, em decorrência de um câncer que Caymmi descobriu ter desde 1999. Contudo, eu considero que outra informação explicaria adequadamente a sua morte. A sua companheira Adelaide Tostes, que outrora foi a cantora Stella Maris, com quem Caymmi era casado há quase 70 anos, encontrava-se em um estado grave de saúde, internada desde 29 de abril, estando atualmente em coma. A filha do casal, Nana, assim descreveu os últimos dias de Caymmi:

 

“Nós passamos esta semana toda tentando melhorar o moral dele, mas ele estava em uma grande melancolia, numa tristeza muito grande. Desistiu de comer, desistiu de tudo. É mais ou menos como dizia minha cunhada: um caso de Romeu e Julieta. A ausência de minha mãe desde 29 de abril, com ele sendo obrigado a completar os seus 94 anos de idade sem ela, foi terrível. Até quarta-feira passada, ele estava ouvindo música com a gente, mas depois a vela apagou”.

 

Não foi o câncer. Foi o Amor que tirou a vida de Caymmi. Contra o Amor, o tempo não poderia fazer nada.

 

 

Escrito por Dostuc às 13h55
[ envie esta mensagem ]

15/06/2008


O dono da voz

A mesma estrondosa voz abrigava a alegria e a tristeza. Dos sambas alegres que interpretava na Sapucaí aos sambas melancólicos como os de Lupicínio Rodrigues, aquela voz mostrava que mesmo diante de sentimentos tão grandes, como são a alegria e tristeza, ela era ainda maior. Essa era a voz de Jamelão.

 

Um intérprete, na perfeita acepção da palavra. Palavra que hoje é vulgarizada com cantores que mostram que sabem fazer malabarismos com a voz, mas não sabem causar uma mínima pulsação em quem os ouve. Com Jamelão, o coração nem precisaria de sangue. Bastaria o ecoar da sua voz para o mesmo pulsar.

 

Jamelão fazia tudo o que queria um compositor ao entregar sua filha querida, sua composição, ao intérprete. Lupicínio Rodrigues, assim dizia: "O cantor que eu admiro, que eu gosto que intérprete as minhas músicas, é o Jamelão.  Porque ele tem uma preocupação de cantar as músicas como eu faço. Não é por ele estar presente.  A gente faz uma música e o cantor vai cantar.  Ele acha que tem que fazer uma coisa diferente, mudar a melodia, ele acha que a letra tem que ser como ele quer.  O Jamelão é autêntico.  Ele procura aprender a música como a gente ensina pra ele a cantar a música como a gente faz."

 

Na sua escola querida, a Estação Primeira de Mangueira, o levantar do público era um impulso natural quando, já no aquecimento, aquela voz cruzava a avenida cantando "Exaltação à Mangueira". Presente em todos os 16 títulos conquistados pela escola, chamar Jamelão de puxador de escola de samba era pedir para ser ofendido. Como um bom policial civil aposentado que era, falava no mesmo linguajar dos seus tempos de escrivão: "Não sou puxador de samba, sou intérprete. Puxador é quem fuma maconha ou rouba carro".

 

Um país racista, discriminatório e elitizado se curvava solenemente diante daquele negro e favelado. Jamelão dormiu em uma cerimônia feita em sua homenagem no Palácio do Planalto diante do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Jamelão foi aplaudido em pé ao passar perante uma passarela em um desfile de moda na São Paulo Fashion Week. Jamelão rechaçou uma fã que quis beijá-lo na mão dizendo "Sai pra lá minha filha, que negócio é esse? Tá pensando que eu sou pai-de-santo?". Ou dizendo para uma que quis beijar seu rosto: "Não! Não sei onde você andou com essa boca!".

 

Jamelão já sabia que seria assim. Nenhum preconceito é capaz de suplantar a arte. Ele mesmo já tinha dito certa vez: "Para ser estrela (o negro) não serve, tem de ser branco e de preferência boa pinta. Não grito contra isso porque sei que as pessoas que hoje me desprezam amanhã vão me amar."

 

O semblante sempre fechado de uma certa forma servia até para diferenciar Jamelão, o verdadeiro sambista, da imagem caricatural de pagodeiros risonhos como Neguinho da Beija-Flor.

 

O mau-humor de Jamelão, aliás, se tornou folclórico entre o meio jornalístico. Todo o jornalista que se prezasse tinha que tomar uma pancada como uma espécie de batismo. Um exemplo hilário foi o do jornalista Tom Cardoso relatando em uma reportagem que ingenuamente tentou ligar para Jamelão para marcar uma entrevista. Como se falar com Jamelão dependesse da vontade dos meios de comunicação...  

 

O jornalista relatou que  assim foi a conversa:

 

"— Alô, Jamelão, tudo bem? Aqui é Tom Cardoso, repórter...
— Entrevista? Cobro dez mil reais. É o meu preço para aturar jornalistas como você.
— Mas Jamelão... está um pouco caro isso, não?
— Já apanhei muito da vida, meu filho...
— Mas eu só quero uma entrevista! E se eu ligar mais tarde?
— Mais tarde eu já morri... Quem sabe você pode me entrevistar depois disso?
- Risos.
— Tá rindo da minha cara?
— É que o senhor disse que só vai dar entrevista depois de morrer...
— Isso mesmo!
— Só se for psicografado...
— Você tá querendo briga, rapaz?
— Não, imagine...
— Então não enche o meu saco! Tu, tu, tu, tu..."

 

Jamelão fugia à lógica torpe de hoje. Nesses tempos que sambistas fazem pagodes, escritores fazem folhetins, e mulheres mostram o útero, cada um querendo aparecer de alguma forma, ter fama a qualquer custo, ele não fazia questão nenhuma de aparecer. Mas todos queriam ouví-lo de qualquer maneira. Seja cantando, seja falando. Eis um grande.

 

Nos últimos anos, os problemas de saúde devido à sua idade avançada, o fizeram ter que se afastar da sua querida escola. Capricho do destino ou não, desde então a Mangueira enfrentou uma derrocada vertiginosa. As pessoas ainda tinham uma esperança que Jamelão voltasse, mas ele disse: “Não sei quando volto, mas não estou triste.” Por que não estaria triste de estar longe da sua maior paixão? Seria porque ela, a sua escola, já não teria mais aquele encanto de outrora?

 

Na madrugada de ontem, a eternidade achou por bem que 95 anos da presença de Jamelão na Terra já foi um presente imenso para a humanidade. Mas é óbvio que ele nunca vai nos deixar completamente. A sua voz sempre estará habitando o som de quem tenha amor pela arte.

 

Pois ele mesmo já canta: "Sei que tu vais chorar, mas minha ausência não será o fim..."

Escrito por Dostuc às 13h51
[ envie esta mensagem ]

11/05/2008


Velho Nelson

Para finalizar esta seqüência de postagens, deixo o trecho de um documentário sobre o grande Nelson Cavaquinho, disponibilizado no Youtube.

 

http://www.youtube.com/watch?v=eaH9wTLhpAk

 

Vida longa a Nelson Cavaquinho, ao Samba e à Boemia!

 

E ao Youtube também, claro.

 

Escrito por Dostuc às 03h29
[ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Histórico