
Ultimamente este blog mais está parecendo um obituário. Mais pela minha falta de regularidade do que pelo meu anseio de falar de mortes. Não tenho anseio nenhum em falar desses momentos tristes. Ainda mais no caso desta perda que serei obrigado a retratar.
Poucas coisas na vida são eternas e uma das coisas que eu considerava eternas era a vida de Dorival Caymmi. A obra obviamente eu não preciso ser redundante em falar que sempre será. Porém a vida no plano terreno, talvez nutrido por uma daquelas poucas fantasias infantis que existem em nossa vida adulta, eu nunca acreditei que poderia se findar.
O que reforçava essa minha idéia era ver todos os seus amigos na música brasileira envelhecendo, perdendo a vida, e só Caymmi vivo, saudável. Os seus cabelos brancos, quase sempre presentes nos seus principais registros, pareciam o sinal da sua eternidade.
Sem contar, é claro, a sua impressionante capacidade de perpetuar suas músicas. Calcula-se que Caymmi teve, ao todo, 120 composições durante a sua vida de 94 anos. É uma média baixa, considerando-se que vários biltres profissionais (dessa vez não irei citar nomes em respeito à postagem sobre Caymmi) em pouco tempo fazem diversas porcarias para diversos outros biltres maiores ainda que os primeiros interpretarem e outros biltres, maiores ainda que todos os anteriores, consumirem.
Porém essa aparente lentidão no processo de composição, na verdade mostrava a espontaneidade da arte de Caymmi. Não poderiam existir prazos, tempo estipulado. Simplesmente as músicas tinham que surgir com o decorrer do tempo. Daí a sua longevidade. O tempo (ou o excesso dele) era um fator fundamental para a obra de Caymmi nascer. O tempo era sempre o seu criado.
Justificando a sua eternidade terrena que o tempo lhe dava, as canções que Caymmi compunha, mais do que sucessos, tornaram-se parte do folclore brasileiro. Afinal, quem nunca ouviu os versos "Eu vou pra Maracangalha, eu vou...", "O que é que a baiana tem?", "Ai, ah que saudade eu tenho da Bahia...", "Quem não gosta do samba bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça ou doente do pé...", "Há tanta mulher no mundo, só não casa quem não quer, por que é que eu vim de longe pra gostar dessa mulher?", "Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá!", "Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar meu bem querer..." e diversos outros versos que dariam uma postagem quilométrica caso fossem citados.
Nas minhas indagações, me perguntei o que poderia ter feito Caymmi morrer. Os jornais noticiaram insuficiência renal, em decorrência de um câncer que Caymmi descobriu ter desde 1999. Contudo, eu considero que outra informação explicaria adequadamente a sua morte. A sua companheira Adelaide Tostes, que outrora foi a cantora Stella Maris, com quem Caymmi era casado há quase 70 anos, encontrava-se em um estado grave de saúde, internada desde 29 de abril, estando atualmente em coma. A filha do casal, Nana, assim descreveu os últimos dias de Caymmi:
“Nós passamos esta semana toda tentando melhorar o moral dele, mas ele estava em uma grande melancolia, numa tristeza muito grande. Desistiu de comer, desistiu de tudo. É mais ou menos como dizia minha cunhada: um caso de Romeu e Julieta. A ausência de minha mãe desde 29 de abril, com ele sendo obrigado a completar os seus 94 anos de idade sem ela, foi terrível. Até quarta-feira passada, ele estava ouvindo música com a gente, mas depois a vela apagou”.
Não foi o câncer. Foi o Amor que tirou a vida de Caymmi. Contra o Amor, o tempo não poderia fazer nada.









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