Pensamentos mais-que-imperfeitos!


17/08/2008


Até os imortais morrem

Ultimamente este blog mais está parecendo um obituário. Mais pela minha falta de regularidade do que pelo meu anseio de falar de mortes. Não tenho anseio nenhum em falar desses momentos tristes. Ainda mais no caso desta perda que serei obrigado a retratar.

 

Poucas coisas na vida são eternas e uma das coisas que eu considerava eternas era a vida de Dorival Caymmi. A obra obviamente eu não preciso ser redundante em falar que sempre será. Porém a vida no plano terreno, talvez nutrido por uma daquelas poucas fantasias infantis que existem em nossa vida adulta, eu nunca acreditei que poderia se findar.

 

O que reforçava essa minha idéia era ver todos os seus amigos na música brasileira envelhecendo, perdendo a vida, e só Caymmi vivo, saudável. Os seus cabelos brancos, quase sempre presentes nos seus principais registros, pareciam o sinal da sua eternidade.

 

Sem contar, é claro, a sua impressionante capacidade de perpetuar suas músicas. Calcula-se que Caymmi teve, ao todo, 120 composições durante a sua vida de 94 anos. É uma média baixa, considerando-se que vários biltres profissionais (dessa vez não irei citar nomes em respeito à postagem sobre Caymmi) em pouco tempo fazem diversas porcarias para diversos outros biltres maiores ainda que os primeiros interpretarem e outros biltres, maiores ainda que todos os anteriores, consumirem.

 

Porém essa aparente lentidão no processo de composição, na verdade mostrava a espontaneidade da arte de Caymmi. Não poderiam existir prazos, tempo estipulado. Simplesmente as músicas tinham que surgir com o decorrer do tempo. Daí a sua longevidade. O tempo (ou o excesso dele) era um fator fundamental para a obra de Caymmi nascer. O tempo era sempre o seu criado. 

 

Justificando a sua eternidade terrena que o tempo lhe dava, as canções que Caymmi compunha, mais do que sucessos, tornaram-se parte do folclore brasileiro. Afinal, quem nunca ouviu os versos "Eu vou pra Maracangalha, eu vou...", "O que é que a baiana tem?", "Ai, ah que saudade eu tenho da Bahia...", "Quem não gosta do samba bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça ou doente do pé...", "Há tanta mulher no mundo, só não casa quem não quer, por que é que eu vim de longe pra gostar dessa mulher?", "Você já foi à Bahia, nêga? Não? Então vá!", "Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar meu bem querer..." e diversos outros versos que dariam uma postagem quilométrica caso fossem citados.

 

Nas minhas indagações, me perguntei o que poderia ter feito Caymmi morrer. Os jornais noticiaram insuficiência renal, em decorrência de um câncer que Caymmi descobriu ter desde 1999. Contudo, eu considero que outra informação explicaria adequadamente a sua morte. A sua companheira Adelaide Tostes, que outrora foi a cantora Stella Maris, com quem Caymmi era casado há quase 70 anos, encontrava-se em um estado grave de saúde, internada desde 29 de abril, estando atualmente em coma. A filha do casal, Nana, assim descreveu os últimos dias de Caymmi:

 

“Nós passamos esta semana toda tentando melhorar o moral dele, mas ele estava em uma grande melancolia, numa tristeza muito grande. Desistiu de comer, desistiu de tudo. É mais ou menos como dizia minha cunhada: um caso de Romeu e Julieta. A ausência de minha mãe desde 29 de abril, com ele sendo obrigado a completar os seus 94 anos de idade sem ela, foi terrível. Até quarta-feira passada, ele estava ouvindo música com a gente, mas depois a vela apagou”.

 

Não foi o câncer. Foi o Amor que tirou a vida de Caymmi. Contra o Amor, o tempo não poderia fazer nada.

 

 

Escrito por Dostuc às 13h55
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15/06/2008


O dono da voz

A mesma estrondosa voz abrigava a alegria e a tristeza. Dos sambas alegres que interpretava na Sapucaí aos sambas melancólicos como os de Lupicínio Rodrigues, aquela voz mostrava que mesmo diante de sentimentos tão grandes, como são a alegria e tristeza, ela era ainda maior. Essa era a voz de Jamelão.

 

Um intérprete, na perfeita acepção da palavra. Palavra que hoje é vulgarizada com cantores que mostram que sabem fazer malabarismos com a voz, mas não sabem causar uma mínima pulsação em quem os ouve. Com Jamelão, o coração nem precisaria de sangue. Bastaria o ecoar da sua voz para o mesmo pulsar.

 

Jamelão fazia tudo o que queria um compositor ao entregar sua filha querida, sua composição, ao intérprete. Lupicínio Rodrigues, assim dizia: "O cantor que eu admiro, que eu gosto que intérprete as minhas músicas, é o Jamelão.  Porque ele tem uma preocupação de cantar as músicas como eu faço. Não é por ele estar presente.  A gente faz uma música e o cantor vai cantar.  Ele acha que tem que fazer uma coisa diferente, mudar a melodia, ele acha que a letra tem que ser como ele quer.  O Jamelão é autêntico.  Ele procura aprender a música como a gente ensina pra ele a cantar a música como a gente faz."

 

Na sua escola querida, a Estação Primeira de Mangueira, o levantar do público era um impulso natural quando, já no aquecimento, aquela voz cruzava a avenida cantando "Exaltação à Mangueira". Presente em todos os 16 títulos conquistados pela escola, chamar Jamelão de puxador de escola de samba era pedir para ser ofendido. Como um bom policial civil aposentado que era, falava no mesmo linguajar dos seus tempos de escrivão: "Não sou puxador de samba, sou intérprete. Puxador é quem fuma maconha ou rouba carro".

 

Um país racista, discriminatório e elitizado se curvava solenemente diante daquele negro e favelado. Jamelão dormiu em uma cerimônia feita em sua homenagem no Palácio do Planalto diante do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Jamelão foi aplaudido em pé ao passar perante uma passarela em um desfile de moda na São Paulo Fashion Week. Jamelão rechaçou uma fã que quis beijá-lo na mão dizendo "Sai pra lá minha filha, que negócio é esse? Tá pensando que eu sou pai-de-santo?". Ou dizendo para uma que quis beijar seu rosto: "Não! Não sei onde você andou com essa boca!".

 

Jamelão já sabia que seria assim. Nenhum preconceito é capaz de suplantar a arte. Ele mesmo já tinha dito certa vez: "Para ser estrela (o negro) não serve, tem de ser branco e de preferência boa pinta. Não grito contra isso porque sei que as pessoas que hoje me desprezam amanhã vão me amar."

 

O semblante sempre fechado de uma certa forma servia até para diferenciar Jamelão, o verdadeiro sambista, da imagem caricatural de pagodeiros risonhos como Neguinho da Beija-Flor.

 

O mau-humor de Jamelão, aliás, se tornou folclórico entre o meio jornalístico. Todo o jornalista que se prezasse tinha que tomar uma pancada como uma espécie de batismo. Um exemplo hilário foi o do jornalista Tom Cardoso relatando em uma reportagem que ingenuamente tentou ligar para Jamelão para marcar uma entrevista. Como se falar com Jamelão dependesse da vontade dos meios de comunicação...  

 

O jornalista relatou que  assim foi a conversa:

 

"— Alô, Jamelão, tudo bem? Aqui é Tom Cardoso, repórter...
— Entrevista? Cobro dez mil reais. É o meu preço para aturar jornalistas como você.
— Mas Jamelão... está um pouco caro isso, não?
— Já apanhei muito da vida, meu filho...
— Mas eu só quero uma entrevista! E se eu ligar mais tarde?
— Mais tarde eu já morri... Quem sabe você pode me entrevistar depois disso?
- Risos.
— Tá rindo da minha cara?
— É que o senhor disse que só vai dar entrevista depois de morrer...
— Isso mesmo!
— Só se for psicografado...
— Você tá querendo briga, rapaz?
— Não, imagine...
— Então não enche o meu saco! Tu, tu, tu, tu..."

 

Jamelão fugia à lógica torpe de hoje. Nesses tempos que sambistas fazem pagodes, escritores fazem folhetins, e mulheres mostram o útero, cada um querendo aparecer de alguma forma, ter fama a qualquer custo, ele não fazia questão nenhuma de aparecer. Mas todos queriam ouví-lo de qualquer maneira. Seja cantando, seja falando. Eis um grande.

 

Nos últimos anos, os problemas de saúde devido à sua idade avançada, o fizeram ter que se afastar da sua querida escola. Capricho do destino ou não, desde então a Mangueira enfrentou uma derrocada vertiginosa. As pessoas ainda tinham uma esperança que Jamelão voltasse, mas ele disse: “Não sei quando volto, mas não estou triste.” Por que não estaria triste de estar longe da sua maior paixão? Seria porque ela, a sua escola, já não teria mais aquele encanto de outrora?

 

Na madrugada de ontem, a eternidade achou por bem que 95 anos da presença de Jamelão na Terra já foi um presente imenso para a humanidade. Mas é óbvio que ele nunca vai nos deixar completamente. A sua voz sempre estará habitando o som de quem tenha amor pela arte.

 

Pois ele mesmo já canta: "Sei que tu vais chorar, mas minha ausência não será o fim..."

Escrito por Dostuc às 13h51
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11/05/2008


Velho Nelson

Para finalizar esta seqüência de postagens, deixo o trecho de um documentário sobre o grande Nelson Cavaquinho, disponibilizado no Youtube.

 

http://www.youtube.com/watch?v=eaH9wTLhpAk

 

Vida longa a Nelson Cavaquinho, ao Samba e à Boemia!

 

E ao Youtube também, claro.

 

Escrito por Dostuc às 03h29
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Me encontre perto da água
(Rachael Yamagata)

 

Você poderia me encontrar perto da água, meu bem?
Nós vamos ter tempos realmente bons
Você poderia me encontrar perto da água, meu bem?
Porque eu não consigo parar de pensar em você.

 

Eu tenho pensado em você o tempo todo
Não me encaixo em lugar nenhum na minha vida, mas tudo bem
Porque eu acho que sou a pessoa certa pra você
E por causa disso, eu não estou com medo de jeito nenhum

 

E todos dizem que eu sou louco
E todos dizem que eu sou um tolo
Você poderia me encontrar perto da água essa noite?
Porque eu estou pronto para quebrar todas as regras

 

Por favor, não me deixe esperando
Com meu coração na mão
Eu não posso durar aqui
Eu estou despedaçando
E ninguém entende como eu cheguei aqui
Mas eu soube desde o primeiro momento
Que te conheci
Que eu seria a pessoa

 

Você poderia me encontrar perto da água essa noite?
Você poderia adormecer segurando minha mão?
Porque eu tenho tudo guardado pra você, meu bem
Se você for minha mulher.

Escrito por Dostuc às 03h06
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"O Cheiro do Ralo", um grande filme

Eu não poderia ser tão injusto com o cinema nacional e deixar aqui apenas a crítica do filme "O Magnata". Este último filme é apenas, para usar um clichê vagabundo, uma amostra de joio no meio de tanto trigo que surge no cenário cinematográfico do nosso país.

 

Sou fã incurável do cinema nacional, e o filme "O Cheiro do Ralo", me alimenta de motivos para continuar a ser.

 

É um filme excelente, de altíssimo nível, muito bem interpretado por Selton Mello, que vive o personagem de Lourenço. Este personagem é dono de uma loja de compra de objetos usados. Nesta loja, diversas pessoas em situação financeira precária vendem os objetos que lhe são mais valiosos, e tem que aceitar os preços módicos impostos pelo protagonista.

 

A sensação de poder, de impor a sua vontade por ter dinheiro, faz o personagem fluir para o sadismo, humilhando todos os que já se encontram ali em situação desesperadora, e tirando prazer nisso.

 

Em sua vida afetiva, surge a fissura pelas nádegas de uma garçonete, e a sua visão de poder comprar tudo no mundo lhe traz a obsessão de poder comprar aquela bunda, assim como compra tudo o que quer e rejeita tudo o que não quer.

 

Dando sentido a tudo isso, no local onde ocorrem as negociações, existe um banheiro com o ralo entupido, que provoca um odor desagradável no local.

 

A preocupação de Lourenço em explicar que aquele cheiro não vem dele, e sim do ralo, a todos que ali chegam, é constante. Porém, quando uma das pessoas humilhadas pelas ofertas baixas de Lourenço, resolve atingí-lo convencendo-o que aquele cheiro desagradável vem dele, pois ele era o único que usava o banheiro, entupindo o ralo, Lourenço começa a identificar a sua personalidade com o cheiro que vem do ralo, percebendo que toda aquela podridão provém dele.

 

Se antes se preocupava em, de alguma forma, "abafar" aquele cheiro, agora Lourenço se acostumou a ele e precisa dele. O cheiro que vinha do ralo era o melhor reflexo do sua alma, era o encontro com o seu eu. Assim como o quadro era o reflexo perfeito da alma de Dorian Gray. Só que, ao contrário do personagem de Oscar Wilde, Lourenço não rejeita a sua personalidade. Ele sente prazer em "cheirá-la".

 

"Cheiro do Ralo" é um filme para se assistir várias vezes, não pela sua complexidade, afinal tem uma história bastante simplória (falando no bom sentido), mas sim pelo prazer de assistir a um filme tão bem elaborado por Heitor Dhalia e primorosamente vivido por Selton Mello.

 

É uma obra-prima "prematura" do cinema nacional, e que retrata bem o pior tipo de prazer: o prazer na torpeza, e o odor desagradável que este prazer exala.

Escrito por Dostuc às 02h52
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"O Magnata": O que é isso?

Quando fui assistir o filme "O Magnata", que teve a história escrita pelo Chorão, vocalista do grupo Charlie Brown Jr., eu não tive nenhuma esperança de ver boa coisa.


Desde já, pus na cabeça que eu não seria tão burro de ir ao cinema, locar o filme, ou coisa do tipo. Assisti em um site que transmite os filmes "online". Contudo, isso não isentou minha burrice.

 

O filme não é ruim. É horroroso. Quando eu assisti o filme "Entre quatro paredes", pensei que jamais em minha vida assistiria um filme tão ruim. "O Magnata" supera em todos os sentidos.

 

E isso não é preconceito com o Chorão, que apesar de fazer péssimas letras, até teve uma pitada de criatividade para criar uma historinha, o que muito me surpreende.

 

Se, com a história na mão, os diretores (que eu tenho até preguiça de pesquisar no Google os nomes dos tais) fizessem um trabalho razoável, ao invés de algo que beirasse a insanidade, de tão ridículo, o filme poderia ser classificado como péssimo, como existem alguns por aí. Mas não. Percebe-se que foi feito um esforço monumental para transformar "O Magnata" no pior filme de todos os tempos.

 

Para não dizerem que falo sem assistir, vou resumir a história. O filme relata a vida de um jovem beberrão, vocalista de uma banda de hardcore, herdeiro de uma fortuna deixada por seu pai milionário. Esse jovem, apesar de rico, gostava de transitar pela periferia. Certo dia, incentivado por um amigo marginal, empreende junto com ele o roubo de uma Ferrari. Após dar umas voltas com o carro pela cidade de São Paulo, o protagonista com medo de ser pego, diz ao seu amigo para abandonarem o veículo. Seu amigo se recusa a fazer isso, e "O Magnata" o deixa sozinho. Logo depois, o bandidinho acaba sendo pego pela polícia, posto na cadeia, e o destino do protagonista começa a mudar. Ele começa a receber constantes telefonemas do "Mundo do crime" exigindo dinheiro, para conseguirem libertar o seu amigo bandido da prisão. O protagonista se recusa a pagar e sua vida vira um verdadeiro inferno. Em seguida, se apaixona por uma menina e vê que a menina que ama pode ser atingida pelas suas irresponsabilidades. E blá, blá, blá...

 

O que é espantoso no filme não é nem a história fraca. O espantoso são as interpretações. Ambientado na periferia de São Paulo, que é onde o jovem riquinho gosta de transitar, todos os atores do filme parecem ter feito um curso intensivo de final de semana sobre linguagem da periferia.

 

Não que os paulistas tenham um jeito de falar primoroso. Longe disso. O sotaque paulista dos "manos" é o que há de mais grotesco nas variações da língua portuguesa. Porém, quem dirigiu "O Magnata" não precisava exagerar tanto na dose. Os personagens não possuem um diálogo sequer, apenas gírias medonhas e extremamente forçadas. Impossível não rir quando, por exemplo, em uma das ligações que o jovem playboy recebe e pergunta quem é, o ameaçador bandido fala: "Você está falando com o crime, mano."

 

Isso, e aí com certeza a influência do Chorão se faz presente, sem contar as cortadas de cena mostrando "trutas" andando de skate pela cidade. Em um dos trechos mais bisonhos, um personagem pede para descer do carro e passa a andar de skate no meio de uma rodovia.

 

E a trilha sonora? Charlie Brown, muito Charlie Brown, "yeah, yeah, yeah, yeah".

 

No meio de tanta inutilidade, talvez o filme sirva para uma coisa. Para o próprio público de Charlie Brown Jr., e bandas de hardcore representadas pelo "Magnata", assista e tome consciência. Consciência do quanto é pitoresco pular de um palco e ser carregado pela multidão, de ficar se debatendo na frente do palco, ou ainda de ouvir músicas tão terríveis. Ao assistir o filme, a pessoa sentada, e prestando atenção nas cenas, pode ter este momento de reflexão e salvar a sua alma.

 

Aliás, o ato de assistir deveria ter sido feito por todos os que participaram deste filme. Pois, com certeza, se alguém que participou desta tragédia (não grega, e sim infernal) tivesse assistido ao que fez, este filme, para o bem do meio ambiente, jamais teria sido colocado no mercado.

 

Mas eles não assistiram. Com certeza não assistiram! Como um bom "terenciano", nada que é humano me supreende. Mas não acredito que qualquer ser humano seja capaz de chegar a um estágio tão lamentável de não ter noção do ridículo e deixar as pessoas verem esse lixo sendo transmitido por aí.

Escrito por Dostuc às 02h45
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Alguns problemas e uma solução para o Brasil

Fazia tempos que eu não escrevia no blog. Pelo jeito, "voltei" com toda a força, pelo que se vê das críticas ferozes que recebi dos poucos freqüentadores que têm paciência para ler minhas colocações.

 

Uma amiga minha me tachou de preconceituoso e discriminatório com o povo brasileiro, me advertindo que eu não tenho embasamento científico, sociológico, ou seja lá o que for para sustentar minhas afirmações.

 

Ora, é óbvio que quando eu falo que brasileiro é marginal por natureza, não estou falando de genética. Isso sim, seria uma ignorância. Mas me refiro ao ambiente, à criação, à cultura. Se um filho de pais brasileiros nascesse na Alemanha, no Japão, naturalmente, independente da sua genética, teria um padrão de ética e honestidade muito mais avançados.

 

Para ser honesto aqui, deve-se lutar contra o meio em que se vive, e isso não é fácil para quem ousa tentar.

 

Fico vendo muitos brasileiros reclamando dos políticos, da corrupção. É interessante notar que os mesmos se põem como completamente dissociados da classe política, como se, para dizer o que já ouvi um professor dizer em outra oportunidade, os políticos tivessem descido de outro planeta e parado em Brasília.

 

É óbvio que os políticos representam piamente o povo brasileiro. Não existe essa dissociação. Se a proporção de seres funestos na política brasileira é muito maior do que a proporção de seres dotados de virtude, é porque a sociedade brasileira tem justamente esta composição. Ou será que o povo brasileiro é tão azarado, tadinho, contrariando toda a matéria de probabilidade, e só vota nos corruptos, desonestos, que nada tem a ver com ele?

 

Ademais, para comprovar minha tese, deixo três situações fáticas e três hipotéticas, para retratar a marginalidade do brasileiro, e que a honestidade, por aqui, é exceção, não regra.

 

1ª Situação fática: Durante muitos anos, o empresário Senor Abravanel, de codinome Silvio Santos, era o brasileiro que mais pagava imposto de renda. Porém, ele nunca foi o mais rico. Como se explica isso?

 

2ª Situação fática: Em Vitória e em outras cidades do Brasil, existem ônibus especiais, freqüentados principalmente pela classe média, dotados de ar-condicionado, e que são oferecidos jornais para leitura no trajeto. Não obstante os avisos pregados em todo o veículo dizendo que os jornais NÃO devem ser levados pelos passageiros, nenhum ônibus consegue voltar ao ponto final com um exemplar sequer. Qual é o nome disso?

 

3ª Situação Fática: É fácil ver, pela TV, sempre que um caminhão com cargas cai em uma estrada, o povo invadindo a pista, e recolhendo toda a mercadoria derrubada para si, saqueando todos os produtos, deixando o pobre caminhoneiro acidentado e falido. Qual o nome disso?

 

Vamos às hipotéticas:

 

1ª Situação Hipotética: Nos Estados Unidos, no meio das ruas, existem máquinas que contém exemplares de jornal em seu interior. Ao depositar uma moeda, que equivale ao valor de um exemplar, a máquina se abre e a pessoa pode pegar o seu exemplar e fechar a máquina novamente. Porém, se ela quisesse, poderia pegar mais de um exemplar, mesmo que pagando só por um, já que a máquina se abre totalmente e o que sustenta o sistema é simplesmente a confiança na honestidade das pessoas. No Brasil, daria certo?

 

2ª Situação hipotética: Na Alemanha, não existem as figuras dos "cobradores" de transporte coletivo. A pessoa ao entrar no transporte, simplesmente se dirige a um caixa eletrônico e ali deposita o valor da passagem. Porém, nada impede que a pessoa entre e não pague pela passagem, já que não há ninguém fiscalizando. Tudo leva em conta a boa-fé do passageiro. No Brasil, daria certo?

 

3ª situação hipotética. Na Índia, buscando a inclusão digital da população, o governo disponibilizou vários terminais 24hs com computadores no meio das cidades. O acesso é livre, e qualquer pessoa pode chegar ali a hora que quiser. Desnecessário dizer que não existe polícia ao lado para preservar o patrimônio em cada terminal. No Brasil, daria certo?

 

Talvez a única solução para o Brasil seja a ouvida pelo antropólogo Roberto DaMatta na barca Rio-Niterói: "O que o Brasil precisa é de uma chuva de gasolina de três dias e depois alguém risca um fósforo".

Escrito por Dostuc às 02h37
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01/05/2008


Minha homenagem ao povo brasileiro

Hoje é dia do trabalho. Neste dia tão especial, escreverei um texto relatando um episódio em homengem ao povo brasileiro, este povo honesto e trabalhador.

 

Um dia desses, um jornal noticiou um fato muito interessante.

 

Em um município qualquer, que me escapa da memória, dois homens assaltaram um estabelecimento comercial de um sujeito muito querido na região.

 

Após recolherem o dinheiro e fugirem do estabelecimento, começaram a ser perseguidos pelas pessoas que presenciaram o assalto, aos gritos de "Pega, ladrão!"

 

Logo, uma grande massa foi se juntando, a cada esquina que os assaltantes corriam da população.

 

Um grande coro de "Pega, ladrão!". Um imenso coro de pessoas com sede de justiça.

 

Durante a fuga, os assaltantes além de serem perseguidos, deram o azar de topar com uma viatura policial.

 

Uma viatura que chamou outras, outras, e outras.

 

Agora os ladrões eram perseguidos por uma imensa massa e por diversas viaturas.

 

O sentimento da busca pela justiça, representado pela população, e a lei, representada pela polícia, convergiram no objetivo de capturar os dois homens.

 

O que poderiam fazer? Parecia tudo perdido.

 

Porém, prevendo a iminência de serem pegos e talvez em busca de se livrarem do produto do roubo, para terem ao menos alguma chance de no mundo das ínfimas possibilidades não serem presos em flagrante, os ladrões resolveram tomar uma atitude. Já ofegantes, não agüentando mais correr, jogaram todo o dinheiro que roubaram para cima.

 

O vento foi espalhando o dinheiro, pelas vias públicas. Espalhando, espalhando.

 

E a busca aos homens parecia ter cessado, por parte da população, pois a mesma passou a se estapear na busca pelo dinheiro esvoaçante.

 

Logo, as ruas por onde as notas voavam foram todas tomadas, o caos foi instaurado na medida em que o dinheiro ia sendo espalhado pelo vento, e nem a polícia conseguia mais perseguir os bandidos.

 

Agora, a polícia tinha que conter a população, que já que esta tinha esquecido da sua sede de justiça, e voava desesperada em cima do dinheiro.

 

Enquanto isso, os assaltantes sumiram. E os policiais ficaram perdidos no meio daquilo tudo.

 

Um bom analista, daqueles que confiam na honestidade do povo trabalhador brasileiro, poderia dizer:

 

"Mas é óbvio que eles esqueceram dos bandidos. O objetivo principal era recuperar o dinheiro roubado e devolver ao dono. Como os bandidos jogaram o dinheiro para o alto, logicamente a prioridade seria pegar o dinheiro."

 

Ledo engano.

 

Dos cerca de R$ 10 mil roubados pelos assaltantes e depois jogados pelas ruas, apenas a quantia de R$ 12,00 voltou ao bolso do dono do estabelecimento que sofreu o assalto.

 

Talvez a pessoa que devolveu o dinheiro seja um sujeito desses bobos, que não sabe levar vantagem em tudo, coitado.

 

O fato é que o resto do dinheiro simplesmente escafedeu-se. Evaporou. Sumiu.

 

E eu, na minha ingenuidade, fico me perguntado: Qual a diferença do povo para os bandidos, neste caso?

 

Nenhuma, creio eu.

 

Ah, sim. Existe.

 

A diferença é que o povo simplesmente não teve oportunidade e nem coragem, como os assaltantes tiveram, para assaltar um estabelecimento.

 

Mas no fundo, todos tem a mesma alma: Alma de marginal.

 

O povo só é mais medroso, apenas isso.

 

Esse é mais um episódio que complica o mito do brasileiro honesto e trabalhador.

 

Na verdade, quando Rousseau disse que o homem é bom por natureza, certamente não analisou nenhum brasileiro.

 

Pois para ser "bom" nestes trópicos, é preciso lutar contra a natureza. E agüentar ser chamado de imbecil, é claro.

 

Feliz dia do trabalho ao povo brasileiro, este povo trabalhador.

Escrito por Dostuc às 13h32
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03/02/2008


Como podes, Mangueira, cantar?

 

Neste ano de 2008, Cartola completará o seu centenário. Além de sua gloriosa carreira musical, um lado marcante na vida de Cartola é que ele foi um dos fundadores da escola de samba mais popular do país, a que comove quando entra na Sapucaí, Estação Primeira de Mangueira. Tão fundador que até as cores da escola Cartola escolheu, o verde e rosa que ficou famoso em todo o mundo.

 

Pois bem. Com todos esses elementos, ficaria meio óbvio acertar qual seria o samba-enredo da Mangueira no Carnaval de 2008. Nada mais enganoso.

 

Patrocinada pela prefeitura de Recife, a Estação Primeira de Mangueira resolveu renegar o seu criador. Com um samba-enredo que beira o patético (que só não custará o rebaixamento da escola por conta do dinheiro que a mesma possui) a Mangueira simplesmente deixou Cartola de lado para cantar: "É frevo! É frevo! É frevo!". Lamentável.

 

O Carnaval como um todo saiu manchado com essa omissão. As outras escolas, constrangidas, e também com o raciocínio de que OBVIAMENTE a Mangueira homenagearia Cartola, não mencionaram sobre o centenário do mesmo em seus sambas.

 

A única escola que fez uma referência lateral foi a Viradouro que utilizou uns versos de "As rosas não falam" para dar base ao seu samba-enredo. A timidez na referência foi por um evidente motivo: quem deveria fazer a homenagem direta seria a Mangueira.

 

Ao invés de assistir ao trágico desfile da Mangueira, o melhor neste Carnaval seria assistir ao excelente documentário "Cartola- Música para os olhos", que certamente nenhuma alma da atual direção da Mangueira assistiu, onde são relatados diversos episódios da vida deste verdadeiro poeta do Samba.

 

Fatos como as mutretas de Nelson Cavaquinho com as parcerias que fazia com Cartola, o romance de Cartola com Dona Zica, os seus vários filhos adotivos, o reencontro com seu pai, o seu anonimato mesmo após tantas canções fazerem sucesso e a sua redescoberta pelo jornalista Sérgio Porto, enfim, todos os acontecimentos capitais que formaram a personalidade refletida na música perfeita deste grande, são mostrados com maestria pelas lentes de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda.

 

O documentário serve até para, quem sabe, descobrir que já em vida Cartola sabia, como um ser sobrenatural que sempre foi, enxergando além do visível, que no futuro aconteceria esta torpe ingratidão.

 

A parte emblemática do documentário, que ajuda a entender todo este momento, é no fim, quando uma jornalista abordou Cartola na saída do hospital, onde ele estava internado ao fim da vida com câncer, e perguntou a ele qual era a expectativa para o Carnaval. Nada empolgado, Cartola respondeu que acompanharia de longe, pela TV. Sem entender, desapontada, a jornalista perguntava o porquê. Não precisava nem responder. O tempo seria a melhor resposta.

Escrito por Dostuc às 16h44
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25/01/2008


"Som sobre tom"

(Carlos Drummond de Andrade)



Abro a janela, e em minha paróquia não visitada por sabiás, um sabiá está cantando. O ouvido não se enganou, e é fácil de explicar. Nesta manhã, um sabiá múltiplo e comemorativo gorjeia em cada árvore de cada bairro do Rio, da Tijuca ao Leblon, pela chegada dos cinquenta anos do sabiá-mor, vulgo Tom Jobim.



 

O pássaro desenvolve um canto geral, em nome das aves amadas por Tom, inclusive o matita-perê, que não nasceu lá muito melodioso, e o jereba, ou urubu de cabeça vermelha, do qual obviamente não se exigem primores vocais. E sua ária festiva é justa homenagem da natureza ao compositor que soube captar para nós, entre canções de amor sofrido ou exultante, a palpitação, o lirismo surdo, o secreto recado das águas de março, das madeiras e lejes que compõem o mais antigo cenário de vida. Cenário que vamos destruindo metodicamente, em vez de preservá-lo e restaurá-lo como opção para o triste viver urbano a que nos condenamos por inclinação suicida.

 

Porque Tom é isso aí: o vibrátil rapaz da cidade, que leva para Ipanema e leblon uma alma ressoante de rumores da floresta, perto da qual ele nasceu. Se ama o papo no bar, com amigos ("a cerveja locupleta os vazios da alma", diz ele), será por invencível delicadeza, que ainda agora o fez declarar a Cristina Lira: "Eu só tenho feito gostar das pessoas". E reconhecendo que "as conversas de bar procuram o longo caminho do equívoco", um dia propôs a um amigo distante "estabelecer sesmarias aéreas" de sociedade com ele. Tom sabe voar sobre miudezas e convencionalismos que atrapalham a verdadeira comunicação, sob aparência de estimulá-la.

 

Se vai aos Estados Unidos, para gravar sua música em nível técnico mais apurado, até nisto segue política de pássaro, que emigra na hora sazonal e volta religiosamente ao habitat na hora certa. E ao voltar, continua tão brasileiro quanto era ao sair, que isso é raiz e sobrenome dele: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, nos papéis civis. De resto, incriminá-lo de americanização, a mim parece inverter o sentido das coisas. Tom leva para a América do Norte uma límpida, sensível imagem brasileira, que lá nos faz menos desconhecidos e até amados por quem distingue, através da música, o temperamento nacional de que ela resulta. (Exportação cultural, que corresponde ao nosso interesse econômico.)


 

Esse generoso, espontaneo ser urbano-silvestre que é o maestro Jobim representa muita coisa mais do que uma sensibilidade pequeno-burguesa que modula crônicas de amor para consumo da classe média, a que logo adere uma suposta classe alta. É antes um criador musical que concentra o espírito do Brasil antigo, situando-o na atualidade sob condições novas. Estabelece uma continuidade emocional em formas tão cristalinas que sentimos, graças ao seu talento, a novidade dos estados permanentes de alegria, tristeza e cisma, vividos pela nossa gente, à margem de estilos e modas. Um Nazaré e um Tom dispensam colocação didática na história da música brasileira. E em Tom esse sentir brasileiro é também um sentir dos ventos, das ramagens, dos seixos, das vozes de passarinhos, que não são cariocas nem fluminenses, é a "geologia moral" do Brasil, que procuramos esquecer mas subsiste como explicação maior da gente.

 

Tom Jobim, deputado eleito pelos sabiás, canários e curiós para falar, não aos povos da Zona Sul, mas a toda criatura capaz de ouvir e de entender pássaros, trazendo-nos uma interpretação melódica da vida. Isso que ele faz tão bem, cativando a todos. Ou a quase todos, pois seria vão esperar que os amantes do barulho erguido à categoria de música estimassem o antibarulho, o refinamento do som organizado em fonte de prazer estético e explicação do homem por si mesmo. O som de Tom, o som que uma fada (iara, sereia, camena?) lhe deu há 50 anos, presente das matas da Tijuca ao futuro morador do Leblon, ao mais despreocupado dos mestres, e por isso também o mestre que é mais agradável reverenciar.

 

Salve, Tom, em claro e meigo Tom!

Escrito por Dostuc às 21h48
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81 anos de Tom Jobim

"A morte, o problema da morte, é outra questão sobre a qual não se pode deixar de pensar. A obra de Tom Jobim daqui a cinqüenta anos, o que será? Falar em cem ou duzentos anos é imprudência nesse mundo em que tudo passa muito depressa e muda vertiginosamente. A partir de alguns anos, tudo é imprevisível. Penso, no entanto, que o futuro vai conhecer uma visão mais espiritual das coisas, o que talvez aumente o interesse pela obra de um Tom Jobim. Muitas vezes, conversando com amigos, eles me perguntam o que estou fazendo agora. Costumo responder: 'Estou escrevendo para a posteridade, estou trabalhando para a estátua'.
"A criação é um ato de amor, alguma coisa que se comunica a toda a humanidade. Um artista não pode fazer nada que contribua para piorar o mundo. Acho que tenho deveres para com as pessoas com quem convivo.
"A vida tem um sentido oculto, certamente. Fui criado em ambiente cético, de maneira agnóstica. Diante da natureza, sinto que toda a negação é ingênua, que Deus não nos teria criado para o nada.
"As pessoas estão hoje muito mais rudes e agressivas do que há alguns anos. Numa rua perdida, num bairro tranqüilo, onde brincam crianças, um carro passa a toda  a velocidade pelo simples prazer de correr ou por qualquer outro motivo, indiferente a tudo e a todos. Se ao menos estivesse apressado para chegar a algum lugar...O aprendizado é difícil, a gente tem que se reeducar para não violentar os outros e para não nos deixar violentar. Apesar de tudo, a vida pode ser agradável para quem gosta do que faz. Ali em cima daquele piano há músicas inéditas que precisam ser trabalhadas. Se tudo correr bem, se o avião não cair, a gente grava, a gente escreve, para deixar aí para os moços, para quem quiser e puder fazer melhor no futuro.
É isso aí o que eu queria dizer."

 

(Antônio Carlos Jobim)

 


 

Diante das palavras do Tom, não há realmente nada que eu possa acrescentar. Simplesmente digo: Parabéns pelos 81 anos de sua infinitude, Maestro!

Escrito por Dostuc às 21h40
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05/01/2008


50 anos de "Chega de Saudade", trilha de 2008

 

O Ano de 2008 terá diversos marcos culturais como o centenário de Cartola, os 80 anos do Gabo, os 90 anos de "Em Busca do Tempo Perdido", dentre tantos outros acontecimentos importantes que este ano vai celebrar. Contudo, na minha concepção, o acontecimento que eu considero mais importante serão os 50 anos de "Chega de Saudade", gravada pela primeira vez por Elizete Cardoso, em 1958.

 

É claro que falo "minha concepção" para deixar claro que eu analiso do ponto de vista subjetivo. Falar de forma objetiva que uma música é mais importante que a fantástica obra máxima de Proust, por exemplo, não é opinião que se leve a sério. Até o Vina me excomungaria!

 

Mas, com todo respeito a estes sete volumes que tenho da obra de Proust, a data celebração mais importante para mim são os 50 anos "Chega de Saudade".

 

Eu lembro certa vez, em uma dessas aulas de inglês, quando os alunos têm que falar seus gostos pessoais, que uma colega de sala, nessas argüições públicas, perguntou minha música preferida. Falei o título da versão em inglês "No more blues". Como ninguém sabia a que música nacional eu me referia (até cantarolei a versão em inglês, era aula de inglês, oras! "No more blues, I'm going back home...") a professora me autorizou a "traduzir".

 

Falei então "Chega de Saudade". A mesma reação de ignorância imperou na sala. Absurdamente, ninguém sabia que música era. Para não dizer absolutamente ninguém, uma colega que sentava do meu lado, fã desenfreada de jazz, cochichou: "Mas como ninguém conhece essa música?". Não soube responder. Até hoje não consigo compreender como alguém pode viver sem ter ao menos dez versões dessa música para ouvir, quanto mais viver sem conhecê-la.

 

"Chega de Saudade" é uma música tão marcante, tão sobrenatural, que vários artistas da Bossa Nova costumam descrever com detalhes onde estavam a primeira vez que a ouviram. Eu estou longe de ser um artista da Bossa Nova, tampouco ter o talento de qualquer um deles, mas ouso descrever minha primeira vez.

 

Eu comprei em uma loja de CD's usados, em meados de 2002, quando comecei a conhecer Tom Jobim, Chico Buarque, um CD intitulado "Eu sei que vou te amar -  Ao vivo", de um tal João Gilberto.

 

Cheguei em casa, liguei o som e coloquei o CD para rodar. Ouvi várias músicas que, sem saber no momento, marcariam minha vida para sempre. Mas a faixa número treze daquele CD mudaria minha vida. Aquele violão solitário, e a voz limpa do João, simplesmente trouxeram uma nova concepção de vida para mim. Repeti a faixa diversas vezes, infinitas, e só parei de ouvir quando literalmente decorei a letra. Na verdade, eu nunca parei de repeti-la, pois desde então não há um dia sequer na minha vida que eu não ouça, cantarole ou pense nos versos de "Chega de Saudade".

 

No cristianismo, quando a pessoa é batizada significa que ela abandonou o mundo cruel e entregou sua vida a Cristo, sepultando o "antigo homem" e virando uma nova pessoa. Na minha religião, ouvir e sentir "Chega de Saudade" que é se tornar um novo homem. "Chega de Saudade" que é o verdadeiro batismo para o ser humano. A salvação da humanidade será o dia em que interromperem um desses trios elétricos vagabundos de Salvador no Carnaval, pararem com aquelas músicas abomináveis, e tocarem "Chega de Saudade" para a multidão. Muitos podem não gostar, é verdade. Tem pessoas que preferem andar com as quatro patas a vida inteira. Afinal, alguém tem que comer feno na natureza, não é mesmo? É bom até para o equilíbrio ecológico. Mas algumas almas certamente seriam salvas.

 

E é por isso que 2008 será o ano de "Chega de Saudade". Mais do que nunca, será a minha verdadeira trilha sonora pelo resto do ano. E também da vida, como sempre foi desde que fui batizado com esta obra-prima que tem a música do Tom, a letra do Vina, e a voz com a batida do João. Pai, Filho, Espírito Santo. Amém. Ou melhor, Chega de Saudade!

Escrito por Dostuc às 15h46
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01/01/2008


Ano Novo, Tudo Novo de Novo

Tudo Novo de Novo
(Paulinho Moska)

 

Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

 

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

 

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

 

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

 

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

 

Mas é tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Escrito por Dostuc às 22h46
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25/12/2007


Não é tempo de contestação

Judeus não comemoram Natal. Muçulmanos não comemoram Natal. Hindus não comemoram Natal. Dois terços da população mundial não comemoram Natal. Boa parte do mundo sequer acredita em Deus.

 

Jesus não nasceu dia 25 de dezembro. E mesmo que tivesse nascido, a meia-noite do Natal no horário de Londres, Paris ou Brasília, é diferente da meia-noite de Belém. E ainda estamos em horário de verão...

 

Papai Noel não existe. Renas não voam. Duendes só a Xuxa, alguns irlandeses e outros jovens que tomaram chá de cogumelo viram.

 

Mas nada disso importa. E isso que é fascinante no Natal. Tudo faz sentido, não importa o que for.

 

É tempo de acreditar, por que não?

 

Tempo de abraçar aqueles parentes mais enjoados e parar de questionar ao menos um dia como uma criança pode nascer de uma mulher virgem.

 

Então, feliz Natal. Dia 26 tudo volta ao normal.


 

Natal

(Vinicius de Moraes- Que era ateu, diga-se...)

 

De repente o sol raiou
E o galo cocoricou:

 

– Cristo nasceu!

 

O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:

 

– Aonde? Aonde?

 

Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:

 

– Em Belém! Em Belém!

 

Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:

 

– Foi sim que eu estava lá!

 

E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: – É mentira!

 

Os bichos de pena, em bando
Reclamaram protestando.

 

O pombal todo arrulhava:
– Cruz credo! Cruz credo!

                        

Brava a arara a gritar começa:

 

– Mentira? Arara. Ora essa!
– Cristo nasceu! – canta o galo.
– Aonde? – pergunta o boi.
– Num estábulo! – o cavalo
Contente rincha onde foi.

 

Bale o cordeiro também:

 

– Em Belém! Mé! Em Belém

 

E os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.

Escrito por Dostuc às 20h08
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17/11/2007


Rir é o melhor remédio

 


Tudo bem, ser uma revista imprestável não é novidade. Existem montes por aí. Agora, fazer uma CAPA na semana do aniversário da Proclamação da República em homenagem à maior lontra que já se viu em um governo da história mundial? Ô VEJA, me ajuda aí, né? Sacanagem tem limite.

 

Que "coração republicano" é esse que D. Pedro II tinha, já quem em 48 dos seus 49 anos de Governo manteve a escravidão no Brasil?

 

Realmente, eu não consigo deixar de me surpreender.

Escrito por Dostuc às 03h28
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