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Flor do interior
(Manacéa)
A Velha Guarda da Portela
Chorou, chorou
Até hoje ainda chora
Sua madrinha foi embora
Só a saudade que ficou
Foi triste a despedida
Da Flor Clara do interior
No calor da alegria
No mundo da fantasia
Ela sorria
Sua beleza exuberante
Não esqueço um só instante
Sua magia
Era a Guerreira do samba
Nascida em Minas Gerais
Não esqueceremos mais
"Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia... Agora é que eu ia começar a minha ópera. "A vida é uma ópera", dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia a definição, em tal maneira que me fez crer nela. Talvez valha a pena dá-la; é só um Capítulo.
Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. "O desuso é que me faz mal", acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade.
Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia. As vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto - vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes.
Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:
--A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimirás, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...
--Mas, meu caro Marcolini...
--Quê...
E depois, de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no
conservatório do céu. Rival de Miguel, Raiael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passa do sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu,--compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
--Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
--Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
--Mas, Senhor...
--Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
--Ouvi agora alguns ensaios!
--Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Aden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem c mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
--Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos ao escolhidos". Deus recebe eu ouro, Satanás em papel.
--Tem graça...
--Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia. quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...
Que é demasiada metafísica para um só tenor, não há dúvida; mas a perda da voz explica tudo, e há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados.
Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo tecnicismo, depois um trio, depois um quatro..."
Como eu disse anteriormente, é uma injustiça tremenda reduzir a grande obra de Machado de Assis ao questionamento da infidelidade conjugal. Portanto, eis dois trechos interessantes do livro, dentre tantos, que provam que há muito mais na obra do que as novelas foram capazes de transmitir.
"Tal é o sabor póstumo das glórias interinas. José Dias bradava que era a vaidade sobrevivente; mas o Padre Cabral, que levava tudo para a Escritura, dizia que com o vizinho Pádua se dava a lição de Elifás a Jó: "Não desprezes a correção do Senhor; Ele fere e cura"
Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.
--Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhermos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído."
Recentemente, tive a oportunidade de ler "Dom Casmurro", livro clássico de Machado de Assis. Eu sei, é uma vergonha só ter feito esta leitura agora. Porém, o que me consolou foi a constatação de que quase ninguém leu e diz o contrário.
A boçalidade popular, municiada pelo cinema e pelas telenovelas, reduziu o romance de Machado à uma pergunta: "Capitu traiu ou não Bentinho?". Ao terminar de ler cheguei à uma convicção: quem faz esta pergunta não leu o livro.
Eu seria capaz de, no futuro, em alguma ocasião que fizesse um jantar em minha casa, convidando conhecidos que gostem de literatura, e algum sujeito invocasse o nome de Machado de Assis trazendo à baila esta dúvida sobre a infidelidade de Capitu, de falar: "Embusteiro! Você não leu nada! Sai da minha casa, sai, sai! Rex, pega! Morde a perna dele!".
Antes de expor minhas razões, embora eu não goste de expor coisas óbvias, mas no caso são necessárias para quem não leu entender, vou contar a história do livro.
Resumindo muito porcamente o grande romance machadiano, a história está centrada na vida de Bentinho e Capitu. Os dois eram vizinhos e se conheciam desde pequenos. Aos poucos, sentiram a transição da fase do desinteresse infantil entre o homem e a mulher, para o amor que começava a nascer na adolescência. Porém, justamente quando começavam a concretizar o amor que crescia, a mãe de Bentinho tomou providências para cumprir uma promessa que tinha feito. O fato é que a mãe de Bentinho, católica, em outra ocasião tinha perdido um filho. Quando engravidou novamente, prometeu a Deus que entregaria para Ele um sacerdote, caso o seu filho sobrevivesse. Sendo assim, Bentinho teria que ir para o seminário. Bentinho não queria, mas acabou aceitando, com a intenção de mostrar à mãe que não tinha vocação para ser padre. Bem, o fato é que ele conseguiu com o "jeitinho brasileiro" se livrar desta promessa. A mãe tinha feito a promessa de entregar a Deus um sacerdote, mas não necessariamente ele. Então, arranjaram um órfão para ser padre, cumprir a promessa da mãe, e desobrigar Bentinho a fazer o seminário. Cínico e simples assim, como tudo o que envolve religião. Deus é compreensivo. Quanto ao curto período de Bentinho no seminário, resta dizer que lá ele fez grande amizade com um rapaz chamado Escobar, que também não tinha intenção alguma de seguir a carreira sacerdotal. Quando Bentinho conseguiu finalmente sair do seminário, cursou Direito e concretizou para sempre o seu amor com Capitu. Estavam casados. A amizade com Escobar continuou, e ele acabou casando com uma grande amiga de Capitu. Anos maravilhosos, de união entre o casal, se seguiram. Um dia, Escobar faleceu. O casamento de Bentinho e Capitu já não ia bem, e começou a agravar quando Bentinho começou a ter suspeitas materializadas no filho do casal, que começava a desenvolver características parecidas com Escobar, de que sua amada mulher manteve um caso com o seu melhor amigo. O casamento acabou desmoronando, como tantos outros, e a história chegou ao seu desfecho. "Dom Casmurro" é uma história de amor, mas nela Machado, realista que era, foi um pouco além do final feliz.
Pois bem, voltando às minhas considerações iniciais, a primeira questão a se ressaltar é a extrema injustiça de reduzir o livro ao questionamento estúpido citado nos parágrafos iniciais. Quem tiver a curiosidade pode ler, esta "dúvida" não tomou conta nem de 15% do livro, seguramente. Na grande maioria da história, Machado trata da relação entre Bentinho e Capitu, das purezas e ingenuidades do amor inocente entre os dois, que o levava a pensar até em coisas insanas, como quando desejou por um segundo que a mãe morresse, para que não tivesse mais que fazer o seminário, e finalmente ficar com Capitu. O livro mostra a visão de mundo que o jovem tinha, já escrevendo com a cabeça de um adulto (Bentinho que narra a história), e traz muitas reflexões além do amor, sobre a morte, exclusão social, felicidade. Por isso que afirmo que reduzir o livro à esta pergunta imbecil é vagabundagem. Mas, até para combater essa visão bizarra de "Dom Casmurro" que acabou se perpetuando, vou tratar deste tema.
Quando fui ler, condicionado pelos filmes que tinha visto no cinema, me questionava quando ia chegar o momento da dúvida, dos ciúmes doentios. Tentaram transformar a obra em um "Otelo" tupiniquim. É verdade que Machado até fez uma alusão à tragédia shakespeariana em seu livro, mas isso estava no contexto em que poderia existir alguma dúvida sobre a justiça ou injustiça dos pensamentos de Betinho sobre a mulher. Porém, o desenrolar do romance dissipou qualquer dúvida. Explico.
Bentinho, quando começou a desconfiar de Capitu e Escobar, principalmente pelo desenvolvimento do filho, começou a ligar fatos, momentos que viu os dois, que encarava inocentemente quando se deram e que agora apontavam no sentido da traição. Nesta discussão sobre se Capitu traiu ou não, muitos argumentam, contra Capitu, dizendo que ela sempre foi dissimulada, desde a infância, o que é fato. Quando beijava às escondidas Bentinho, e os pais dela chegavam por perto, ela conseguia dissimular com a maior naturalidade e até ajudava Bentinho a disfarçar, posto que o mesmo não conseguia ter a mesma desenvoltura na mentira. Existem outros argumentos, mas que, a meu ver, não seriam peremptórios para decidir se Capitu tinha ou não traído. Contra Bentinho, as pessoas argumentam que seu ciúme doentio o fez criar coisas. E é este ponto importante para ver o descabimento deste questionamento.
Os poucos que leram o livro sabem que Bentinho, no momento em que beirava à loucura pela convicção de que tinha sido traído, vendo cada vez mais se desenvolverem os traços do seu falecido amigo Escobar no seu filho, disse ao menino que não era pai dele, fato que fez Capitu se indignar e pedir a separação, que Bentinho prontamente aceitou. Os dois se separaram, e Capitu tentou uma reaproximação por cartas, porém Bentinho nunca aceitou. O filho do casal foi morar na Europa com a mãe, e lá ficou fazendo os seus estudos. Pois bem, os anos se passaram, Capitu morreu e um dia o menino, já homem, foi visitar o seu pai. Foi quando Bentinho, já passados os anos e toda a mágoa provocada, se deparou não com um menino com traços parecidos com os de seu amigo, mas a cópia de seu amigo perante si e lhe chamando de pai. Neste momento, Machado deixou claro que as semelhanças que Bentinho via entre seu filho e seu amigo não eram apenas causadas pela visão turva do ciúme. O tempo tratou de provar que elas eram reais e assustadoras. Vejam o trecho que trata de forma límpida do encontro:
"Não fui logo, logo; fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala. Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr, abraçá-lo, falar-lhe na mãe. A mãe,--creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça. Acabei de vestir-me às pressas. Quando saí do quarto, com ares de pai, um pai entre manso e crespo, metade Dom Casmurro Ao entrar na sala, dei com um rapaz, de costas, mirando o busto de Massinissa, pintado na parede. Vim cauteloso, e não fiz rumor Não obstante, ouviu-me os passos, e voltou-se depressa. Conhece-me pelos retratos e correu para mim. Não me mexi; era nem mas nem menos o meu antigo jovem companheiro do seminário de José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo. Trajava à moderna naturalmente, e as maneiras eram diferentes, mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai. Vestia de luto pela mãe; eu também estava de preto. Sentamo-nos.
--Papai não faz diferença dos últimos retratos, disse-me ele
A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era afrancesado. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era, e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. Mas isto mesmo dava animação à cara dele, e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. Ei-lo aqui. diante de mim, com igual riso e maior respeito; total, o mesmo obséquio e a mesma graça. Ansiava por ver-me. A mãe falava muito em mim, louvando-me extraordinariamente, como o homem mais puro do mundo, o mais digno de ser querido.
-- Morreu bonita, concluiu.
--Vamos almoçar.
Se pensas que o almoço foi amargo, enganas-te. Teve seus minutos de aborrecimento, é verdade; a princípio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente meu filho, que me não completasse e continuasse. Se o rapaz tem saído à mãe, eu acabava crendo tudo, tanto mais facilmente quando que ele parecia haver-me deixado na véspera evocava a meninice, cenas e palavras, a ida para o colégio...
--Papai ainda se lembra quando me levou para o colégio? perguntou rindo.
--Pois não hei de lembrar-me?
--Era na Lapa; eu ia desesperado, e papai não parava, dava-me cada puxão, e eu com as perninhas... Sim, senhor, aceito."
Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia, bebeu um gole, e continuou a comer. Escobar comia assim também, com a cara metida no prato. Contou-me a vida na Europa, os estudos, particularmente os de arqueologia, que era a sua paixão. Falava da antiguidade com amor, contava o Egito e os seus milhares de séculos, sem se perder nos algarismos; tinha a cabeça aritmética do pai. Eu, posto que a idéia da paternidade do outro me estivesse já familiar, não gostava da ressurreição. Às vezes, fechava os olhos para não ver gestos nem nada, mas o diabrete falava e ria, e o defunto falava e ria por ele."
A questão é que o cinema, além de empobrecer muito a história do livro, acentuou a dúvida muito mais que o escritor fluminense fez. E, quando eu digo que quem tem essa dúvida não leu o livro, preciso ser bem interpretado. Porque podem muito bem ter biltres que leram o livro e colocam em dúvida a traição de Capitu, ah, podem. Mas esses são os tais "leitores obtusos", adjetivo dado por Machado àqueles leitores que só entendem o que vem desenhado e com legenda embaixo.

A semana que começa traz uma data muito importante para a nossa música. Eu só não sei qual é o dia exato. O fato é que para alguns no dia 16, para outros no dia 19 (e há até quem diga dia 10!), só tendo certeza que o acontecimento se deu em setembro de 1914, comemora-se a data de nascimento de Lupicínio Rodrigues, o querido Lupe.
O primeiro fato que salta aos olhos ao falar dele, é que gaúcho Lupe conseguiu a proeza de ter sucesso na boemia e no samba, sem ser carioca.
Aliás, não bastasse não ser nativo da Cidade Maravilhosa, Lupicínio pisou pouquíssimas vezes no Rio de Janeiro, ao contrário dos artistas da época e até dos atuais, que muitas vezes precisam da benção do Rio de Janeiro e de São Paulo para serem notados. Lupe jamais abandonou Porto Alegre, sua cidade querida, onde nasceu e morreu.
Porém, a música de Lupe nunca ficou limitada a fronteiras regionais. Sua presença física não era necessária para a sua música ecoar pelo Brasil. Talvez Lupe tenha sido o último músico a ganhar notoriedade através da oralidade popular. Ele mesmo, em entrevista ao Pasquim, em 1965, explicou o fenômeno: "Graças a meu bom Deus sempre vivi no Rio Grande do Sul. Tive a felicidade de ficar conhecido universalmente, e agradeço isso aos marinheiros que visitavam a minha terra naquela época, quando não havia transporte para lá, a não ser o marítimo. Os marinheiros chegavam em Porto Alegre, aprendiam minhas músicas e saíam a divulgar pelo Brasil."
E foi desta forma que versos como: "Há pessoas com nervos de aço/ Sem sangue nas veias/ E sem coração/ Mas não sei se passando o que eu passo/ Talvez não lhes venha qualquer reação"; "Se acaso você chegasse/ No meu chatô e encontrasse/ Aquela mulher que você gostou..."; "Felicidade foi-se embora/ E a saudade no meu peito ainda mora..."; "Esses moços/ Pobres moços/ Ah, se soubessem o que eu sei..."; e até o hino do Grêmio "Até a pé nós iremos/ Para o que der e vier/ Mas o certo é que nós estaremos/ Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver..."; ganharam o Brasil.
Suas composições eram praticamente autobiográficas, tratando dos seus amores malogrados. Dentre tantas histórias que ele contava, é interessante o relato que ele fez de como se inspirou para compor "Vingança" e até a música "Nunca" (a mais bela do Lupe, na minha opinião), fato que relatou na mesma entrevista ao Pasquim: "A mulher que me inspirou "Vingança" viveu comigo seis anos. E depois terminou namorando um garoto que era meu empregado, de 16, 17 anos. É que eu tinha viajado, ela mandou chamar o garoto. Disse que queria falar com ele. Ela mandou um bilhete. O garoto com medo de mim, quando eu cheguei, me entregou o bilhete. Disse: "Olha a Dona Carioca me mandou esse bilhete. Eu não sabia o que ela queria comigo. Não fui." (Risos) Entregou a mulher. Aí eu não disse nada. Fiquei quietinho, inventei outra viagem, peguei minha mala, e fui embora. Era época do carnaval, ela endoidou. Botou um “Dominó". "Dominó” é aquela fantasia preta, que cobre tudo. No carnaval, feito louca foi me procurar. Uma certa madrugada, ela, num fogo danado - parece que deu fome - entrou num bar onde a gente costumava comer. Foi obrigada a tirar o "Dominó” pra comer, e o pessoal a reconheceu. Perguntaram - "Ué, Carioca, que você está fazendo aqui a essa hora? Cadê o Lupi?" Ela sozinha. Ai ela começou a chorar. Eu estava num restaurante do outro lado. Uns amigos chegaram e me disseram: encontramos a Carioca vestida de "Dominó”, num fogo tremendo. Começou a chorar e perguntar por ti. O que que houve, vocês estão brigados?" Aí foi que eu fiz o "Vingança". Na mesma hora comecei, saiu (canta) "Gostei tanto, tanto, quando me contaram ... " Eu sou muito amigo dos pais de santo, os batuqueiros lá de Porto Alegre. Em cada lugar que chegava ela botava fotografia minha, cabritas, aquele negócio todo pra fazer as pazes. Aí eu fiz (canta): "Nunca, nem que o mundo caia sobre mim/Nem se Deus mandar ...”
História trágica para muitos, mas o próprio Lupicínio se divertia com as suas tragédias pessoais. Aliás, de uma certa forma era até agradecido, como ele mesmo dizia: "Eu realmente tive muitas namoradas na minha vida. Umas me fizeram bem, outras me fizeram mal. As que me fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram, porque as que me fizeram bem eu esqueci."
Não bastasse isso, Lupe é considerado o autor da expressão popular "Dor de cotovelo". A origem veio da figura clássica do sujeito triste que encosta em um balcão de bar para esquecer o amor perdido e se embriagar. De tanto ficar encostado no balcão, não bastando a dor de amor, a pessoa ainda ganha a "Dor de cotovelo".
Lupicínio ainda fez a classificação das dores de cotovelo. A dor de cotovelo federal seria aquela que só poderia ser curada com embriaguez total. Já a dor de cotovelo estadual era suportável, e com o passar do tempo tudo se ajeitava. Por fim, havia a dor de cotovelo municipal, que não poderia nem mesmo servir de inspiração para um samba.
Se estivesse vivo, Lupe estaria prestes a comemorar 95 anos. Ele, que nunca se assumiu como artista, nas suas próprias palavras: "Eu não tenho nada com o ambiente artístico brasileiro. Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor, não sou nada. Eu sou boênio."
Mas a arte, mesmo sendo a mulher trocada pela boemia, guardou o seu nome.
Sacrifício da Aurora (Vinicius de Moraes) Um dia a Aurora chegou-se
Ao meu quarto de marfim
E com seu riso mais doce
Deitou-se junto de mim
Beijei-lhe a boca orvalhada
E a carne tímida e exangue
A carne não tinha sangue
A boca sabia a nada.
Apaixonei-me da Aurora
No meu quarto de marfim
Todo o dia à mesma hora
Amava-a só para mim
Palavras que me dizia
Transfiguravam-se em neve
Era-lhe o peso tão leve
Era-lhe a mão tão macia.
Às vezes me adormecia
No meu quarto de marfim
Para acordar, outro dia
Com a Aurora longe de mim
Meu desespero covarde
Levava-me dia afora
Andando em busca da Aurora
Sem ver Manhã, sem ver Tarde.
Hoje, ai de mim, de cansado
Há dias que até da vida
Durmo com a Noite, ausentado
Da minha Aurora esquecida...
É que apesar de sombria
Prefiro essa grande louca
À Aurora, que além de pouca
É fria, meu Deus, é fria!
Hoje vou falar de um fato desatualizado, cujo assunto é bem atual.
Tempos atrás, uma entrevista com Barack Obama rodou o mundo depois que o mesmo matou uma mosca com um golpe de samurai. Na época, um grupo de defesa dos animais divulgou uma nota criticando o presidente estadunidense. O nome do grupo é PETA, e na nota divulgada em seu blog disse que: "Em resumo, nossa posição é: Obama não é Buda, ele é um ser humano, e os seres humanos têm um longo caminho a percorrer até que consigam pensar antes de agir".
Na nota eles ainda pediam que Obama "mostrasse compaixão até com o menos simpático dos animais". Para finalizar, ainda enviaram para o presidente uma armadilha que captura moscas e permite que elas sejam liberadas em campo aberto.
O porta-voz do PETA, um tal Bruce Freidrich, explicou a lógica da revolta: "Acreditamos que as pessoas deveriam mostrar compaixão por todos os animais".
Muitas pessoas trataram o tema com tom jocoso, debochando da associação. Mas, por incrível que pareça, eles até estão sendo coerentes. Mesmo sendo ridículos. Assim como são ridículos aqueles que ficam choramingando, suplicando, para que cachorros não sejam postos na panela, ou gatos em espetos de churrasco. Porém, o PETA pelo menos mostra coerência.
Afinal, qual é o sentido de chorar tanto por cachorros, muitas vezes mais até do que por seres humanos, e não defender as moscas?
O problema talvez seja que as moscas, coitadas, não possuem aquele olhar quase humano de súplica e sofrimento que os caninos e felinos possuem. Pobres moscas, seres diminutos de visão múltipla e difusa, não conseguem demonstrar a olho nu uma lágrima de sofrimento, quando tomam um tapa.
O que dizer das pobres baratas, então? Se vamos defender os animais, vamos deixar de esmagar as pobres baratas e usar algum capturador de baratas para colocá-las em seu habitat. Algumas queridíssimas socialites, que colocam até cueca em cães, topariam?
A lógica nos leva a situações desagradáveis, às vezes. É por isso que eu, apesar de gostar de animais, prefiro o ser humano e considero (atenção para a declaração escandalosa!) que ele tem, sim, superioridade sobre os outros animais (mesmo quando o ser humano é compositor de axé). Portanto, um dia hei de saber o gosto de uma carne de cachorro, sem dor no coração. E continuarei trucidando moscas e baratas.
Para amenizar o turbilhão de críticas (tenho que começar a fazer aqueles cursos orientais fajutos, senão morro do coração, é perigoso), é hora de amenizar um pouco o blog com a presença doce da querida Cecília.
Primavera
Cecília Meireles
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
O ano é 2005. Estamos no Campeonato Brasileiro. Em um jogo entre Internacional de Porto Alegre e o Corinthians, o árbitro Márcio Rezende de Freitas deixou de marcar um pênalti a favor do time gaúcho. Nasceria aí um ódio imortal contra a equipe alvinegra. Os gaúchos acusavam o clube paulista de ter vencido o campeonato brasileiro de 2005 principalmente por conta daquele pênalti não marcado. Esqueciam-se que bastava ao Inter ganhar o último jogo, contra o rebaixado Coritiba, que seria campeão. Mas, tudo bem, o inferno sempre são os outros.
2007, Campeonato Brasileiro. O Corinthians lutava contra o rebaixamento, disputando ponto a ponto com o Goiás. Na última rodada, o Corinthians jogaria contra o Grêmio e o Goiás contra o Inter. A torcida do Inter implorava para o time entregar o jogo, criando até uma campanha intitulada "Entrega Inter". Se os jogadores do clube ouviram ou não o apelo, o fato é que o Inter foi derrotado pelo fraquíssimo time goiano. E o Corinthians, com um elenco também horroroso naquele ano, conseguiu apenas um empate com o Grêmio. O Timão era rebaixado. A torcida do Inter comemorava como se fosse um título.
Final da Copa do Brasil, em 2009. O último jogo da decisão era no Rio Grande do Sul, no estádio Beira Rio. Em campo, Internacional contra o Corinthians. Seria o ato final da vingança. Era o dia do Inter devolver diretamente a mágoa guardada desde 2005. Levavam o seguinte lema: "2005: Internacional verdadeiro campeão brasileiro / 2007: A bola pune/ 2009: A vingança vem a galope". Buscando pressionar a arbitragem, os gaúchos até criaram um DVD com supostos erros de arbitragem a favor do time paulista, como se erros não existissem contra e a favor de todos os clubes de futebol.
Porém, eis que a anunciada vingança teve que ficar para outra oportunidade. Não adiantou chorar um pênalti não marcado em 2005. Não adiantou torcer contra o próprio time e comemorar o rebaixamento corintiano em 2007. Não adiantou prometer um inferno contra o Corinthians em Porto Alegre. O Inter foi inapelavelmente humilhado. Perdeu de 2x0 o primeiro jogo e empatou em 2x2 o segundo jogo. Só seria campeão se fizesse mais 3 gols.
A vingança corintiana foi muito melhor. Ganhamos no campo, fizemos a torcida adversária sofrer a dor em seus domínios. Talvez eu morra sem ver o Inter dar uma volta olímpica no campo corintiano. Já eles, talvez precisem da vida inteira para esquecer da decepção que passaram justo no ano do seu centenário.
E só ficaria mais perfeito se a Fiel torcida assim cantasse para os colorados a música do também gaúcho, mas tricolor, Lupicínio Rodrigues:
Eu gostei tanto,
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar,
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz,
Não lhe deixou falar.
Eu gostei tanto,
Tanto, quando me contaram
Que tive mesmo de fazer esforço
Pra ninguém notar.
O remorso talvez seja a causa
Do seu desespero
Você deve estar bem consciente
Do que praticou,
Me fazer passar tanta vergonha
Com um companheiro
E a vergonha
É a herança maior que meu pai me deixou;
Mas, enquanto houver força em meu peito
Eu nao quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar
"Sei que amanhã, quando eu morrer,/ Os meus amigos vão dizer/ Que eu tinha um bom coração/ Alguns até hão de chorar/ E querer me homenagear..."
Sempre lembro desses versos do Nelson Cavaquinho e do Guilherme de Brito quando vejo alguém morrendo. A música, intitulada "Quando eu me chamar saudade", sempre me faz lembrar como se torna "bom" quem morre.
Não existiu ser humano mais achincalhado pela imprensa e sociedade que o Michael Jackson nos últimos anos. E agora, de forma surpreendente (ou nem tão assim), todos o idolatram.
É claro que eu não entro nesta fileira. Até porque, pouco conheço sobre a obra de Michael. Cresci na época em que a importância de sua música já tinha perdido espaço para a sua esquisita vida pessoal. E, como não sou lá muito fã de música pop, pouco pesquisei para conhecer sua obra. A única coisa que posso dizer é que "We are the world", que ele fez em parceria com Lionel Richie, é uma música sensacional, gostosa de ouvir.
Concernente à vida pessoal, nunca acreditei que ele fosse pedófilo. Não creio que seja atitude de um pedófilo típico dizer em alto e bom som em entrevistas que dormia na mesma cama com várias crianças, em seu rancho chamado "Neverland". Quem já assistiu o ótimo "Felicidade" (Hapiness, 1998), de Todd Solondz, que aproveito para recomendar, sabe o perfil exato dessa espécie abjeta chamada pedófilo. Não creio que Michael atendesse os requisitos. Mas ninguém acreditava nisso.
Porém, eis que em uma demonstração de cinismo, hipocrisia e até covardia, vejo vários acusadores chorando a morte de Michael, dizendo que foi um "Grande homem", "Um grande caráter", "Eu deixaria minhas crianças brincar em Neverland". Meu Deus!
A morte serve para purificar biografias. Mesmo quando nem se sabe se foram sujas justamente.