Pensamentos mais-que-imperfeitos!


26/09/2009


Clara, sempre Clara

 

 

Flor do interior
(Manacéa)

 

A Velha Guarda da Portela
Chorou, chorou
Até hoje ainda chora
Sua madrinha foi embora
Só a saudade que ficou
Foi triste a despedida
Da Flor Clara do interior

 

No calor da alegria
No mundo da fantasia
Ela sorria
Sua beleza exuberante
Não esqueço um só instante
Sua magia
Era a Guerreira do samba
Nascida em Minas Gerais
Não esqueceremos mais

Escrito por Dostuc às 21h52
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20/09/2009


"Eu tinha seis e ela tinha sete. Eu sempre tive tendência, em toda minha adolescência e juventude, para mulheres mais velhas do que eu."

http://www.youtube.com/watch?v=IcdEJtMZC44&feature=related

Escrito por Dostuc às 19h11
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"Dom Casmurro" que não está na TV - A vida é uma ópera

"Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia... Agora é que eu ia começar a minha ópera. "A vida é uma ópera", dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu... E explicou-me um dia a definição, em tal maneira que me fez crer nela. Talvez valha a pena dá-la; é só um Capítulo.

 

 

Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. "O desuso é que me faz mal", acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade.

 

Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia. As vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto - vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes.

 

Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:

 

 

--A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimirás, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...

 

 

--Mas, meu caro Marcolini...

 

 

--Quê...

 

 

E depois, de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.

 

 

Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no

conservatório do céu. Rival de Miguel, Raiael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passa do sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu,--compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.

 

 

--Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...

 

 

--Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.

 

 

--Mas, Senhor...

 

 

--Nada! nada!

 

 

Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

 

 

--Ouvi agora alguns ensaios!

 

 

--Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

 

Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Aden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.

 

 

Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem c mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.

 

--Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos ao escolhidos". Deus recebe eu ouro, Satanás em papel.

 

 

--Tem graça...

 

 

--Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia. quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...

 

 

Que é demasiada metafísica para um só tenor, não há dúvida; mas a perda da voz explica tudo, e há filósofos que são, em resumo, tenores desempregados.

 

Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se casa bem à definição. Cantei um duo tecnicismo, depois um trio, depois um quatro..."

Escrito por Dostuc às 18h45
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"Dom Casmurro" que não está na TV - Os vermes

Como eu disse anteriormente, é uma injustiça tremenda reduzir a grande obra de Machado de Assis ao questionamento da infidelidade conjugal. Portanto, eis dois trechos interessantes do livro, dentre tantos, que provam que há muito mais na obra do que as novelas foram capazes de transmitir.

 

 

 

"Tal é o sabor póstumo das glórias interinas. José Dias bradava que era a vaidade sobrevivente; mas o Padre Cabral, que levava tudo para a Escritura, dizia que com o vizinho Pádua se dava a lição de Elifás a Jó: "Não desprezes a correção do Senhor; Ele fere e cura"

 

Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles.

 

--Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhermos o que roemos, nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.

 

Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído."

 

 

 

 

 

Escrito por Dostuc às 18h35
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Quando noveleiro quer ajudar Machado a escrever ou A pergunta estúpida sobre a traição de Capitu

Recentemente, tive a oportunidade de ler "Dom Casmurro", livro clássico de Machado de Assis. Eu sei, é uma vergonha só ter feito esta leitura agora. Porém, o que me consolou foi a constatação de que quase ninguém leu e diz o contrário.

 

A boçalidade popular, municiada pelo cinema e pelas telenovelas, reduziu o romance de Machado à uma pergunta: "Capitu traiu ou não Bentinho?". Ao terminar de ler cheguei à uma convicção: quem faz esta pergunta não leu o livro.

 

Eu seria capaz de, no futuro, em alguma ocasião que fizesse um jantar em minha casa, convidando conhecidos que gostem de literatura, e algum sujeito invocasse o nome de Machado de Assis trazendo à baila esta dúvida sobre a infidelidade de Capitu, de falar: "Embusteiro! Você não leu nada! Sai da minha casa, sai, sai! Rex, pega! Morde a perna dele!".

 

Antes de expor minhas razões, embora eu não goste de expor coisas óbvias, mas no caso são necessárias para quem não leu entender, vou contar a história do livro.

 

Resumindo muito porcamente o grande romance machadiano, a história está centrada na vida de Bentinho e Capitu. Os dois eram vizinhos e se conheciam desde pequenos. Aos poucos, sentiram a transição da fase do desinteresse infantil entre o homem e a mulher, para o amor que começava a nascer na adolescência. Porém, justamente quando começavam a concretizar o amor que crescia, a mãe de Bentinho tomou providências para cumprir uma promessa que tinha feito. O fato é que a mãe de Bentinho, católica, em outra ocasião tinha perdido um filho. Quando engravidou novamente, prometeu a Deus que entregaria para Ele um sacerdote, caso o seu filho sobrevivesse. Sendo assim, Bentinho teria que ir para o seminário. Bentinho não queria, mas acabou aceitando, com a intenção de mostrar à mãe que não tinha vocação para ser padre. Bem, o fato é que ele conseguiu com o "jeitinho brasileiro" se livrar desta promessa. A mãe tinha feito a promessa de entregar a Deus um sacerdote, mas não necessariamente ele. Então, arranjaram um órfão para ser padre, cumprir a promessa da mãe, e desobrigar Bentinho a fazer o seminário. Cínico e simples assim, como tudo o que envolve religião. Deus é compreensivo. Quanto ao curto período de Bentinho no seminário, resta dizer que lá ele fez grande amizade com um rapaz chamado Escobar, que também não tinha intenção alguma de seguir a carreira sacerdotal. Quando Bentinho conseguiu finalmente sair do seminário, cursou Direito e concretizou para sempre o seu amor com Capitu. Estavam casados. A amizade com Escobar continuou, e ele acabou casando com uma grande amiga de Capitu. Anos maravilhosos, de união entre o casal, se seguiram. Um dia, Escobar faleceu. O casamento de Bentinho e Capitu já não ia bem, e começou a agravar quando Bentinho começou a ter suspeitas materializadas no filho do casal, que começava a desenvolver características parecidas com Escobar, de que sua amada mulher manteve um caso com o seu melhor amigo. O casamento acabou desmoronando, como tantos outros, e a história chegou ao seu desfecho. "Dom Casmurro" é uma história de amor, mas nela Machado, realista que era, foi um pouco além do final feliz.

 

Pois bem, voltando às minhas considerações iniciais, a primeira questão a se ressaltar é a extrema injustiça de reduzir o livro ao questionamento estúpido  citado nos parágrafos iniciais. Quem tiver a curiosidade pode ler, esta "dúvida" não tomou conta nem de 15% do livro, seguramente. Na grande maioria da história, Machado trata da relação entre Bentinho e Capitu, das purezas e ingenuidades do amor inocente entre os dois, que o levava a pensar até em coisas insanas, como quando desejou por um segundo que a mãe morresse, para que não tivesse mais que fazer o seminário, e finalmente ficar com Capitu. O livro mostra a visão de mundo que o jovem tinha, já escrevendo com a cabeça de um adulto (Bentinho que narra a história), e traz muitas reflexões além do amor, sobre a morte, exclusão social, felicidade. Por isso que afirmo que reduzir o livro à esta pergunta imbecil é vagabundagem. Mas, até para combater essa visão bizarra de "Dom Casmurro" que acabou se perpetuando, vou tratar deste tema.

 

Quando fui ler, condicionado pelos filmes que tinha visto no cinema, me questionava quando ia chegar o momento da dúvida, dos ciúmes doentios. Tentaram transformar a obra em um "Otelo" tupiniquim. É verdade que Machado até fez uma alusão à tragédia shakespeariana em seu livro, mas isso estava no contexto em que poderia existir alguma dúvida sobre a justiça ou injustiça dos pensamentos de Betinho sobre a mulher. Porém, o desenrolar do romance dissipou qualquer dúvida. Explico.

 

Bentinho, quando começou a desconfiar de Capitu e Escobar, principalmente pelo desenvolvimento do filho, começou a ligar fatos, momentos que viu os dois, que encarava inocentemente quando se deram e que agora apontavam no sentido da traição. Nesta discussão sobre se Capitu traiu ou não, muitos argumentam, contra Capitu, dizendo que ela sempre foi dissimulada, desde a infância, o que é fato. Quando beijava às escondidas Bentinho, e os pais dela chegavam por perto, ela conseguia dissimular com a maior naturalidade e até ajudava Bentinho a disfarçar, posto que o mesmo não conseguia ter a mesma desenvoltura na mentira. Existem outros argumentos, mas que, a meu ver, não seriam peremptórios para decidir se Capitu tinha ou não traído. Contra Bentinho, as pessoas argumentam que seu ciúme doentio o fez criar coisas. E é este ponto importante para ver o descabimento deste questionamento.

 

Os poucos que leram o livro sabem que Bentinho, no momento em que beirava à loucura pela convicção de que tinha sido traído, vendo cada vez mais se desenvolverem os traços do seu falecido amigo Escobar no seu filho, disse ao menino que não era pai dele, fato que fez Capitu se indignar e pedir a separação, que Bentinho prontamente aceitou. Os dois se separaram, e Capitu tentou uma reaproximação por cartas, porém Bentinho nunca aceitou. O filho do casal foi morar na Europa com a mãe, e lá ficou fazendo os seus estudos. Pois bem, os anos se passaram, Capitu morreu e um dia o menino, já homem, foi visitar o seu pai. Foi quando Bentinho, já passados os anos e toda a mágoa provocada, se deparou não com um menino com traços parecidos com os de seu amigo, mas a cópia de seu amigo perante si e lhe chamando de pai. Neste momento, Machado deixou claro que as semelhanças que Bentinho via entre seu filho e seu amigo não eram apenas causadas pela visão turva do ciúme. O tempo tratou de provar que elas eram reais e assustadoras. Vejam o trecho que trata de forma límpida do encontro:

"Não fui logo, logo; fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala. Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr, abraçá-lo, falar-lhe na mãe. A mãe,--creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça. Acabei de vestir-me às pressas. Quando saí do quarto, com ares de pai, um pai entre manso e crespo, metade Dom Casmurro Ao entrar na sala, dei com um rapaz, de costas, mirando o busto de Massinissa, pintado na parede. Vim cauteloso, e não fiz rumor Não obstante, ouviu-me os passos, e voltou-se depressa. Conhece-me pelos retratos e correu para mim. Não me mexi; era nem mas nem menos o meu antigo jovem companheiro do seminário de José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo. Trajava à moderna naturalmente, e as maneiras eram diferentes, mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai. Vestia de luto pela mãe; eu também estava de preto. Sentamo-nos.

--Papai não faz diferença dos últimos retratos, disse-me ele

A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era afrancesado. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era, e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. Mas isto mesmo dava animação à cara dele, e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. Ei-lo aqui. diante de mim, com igual riso e maior respeito; total, o mesmo obséquio e a mesma graça. Ansiava por ver-me. A mãe falava muito em mim, louvando-me extraordinariamente, como o homem mais puro do mundo, o mais digno de ser querido.

-- Morreu bonita, concluiu.

--Vamos almoçar.

Se pensas que o almoço foi amargo, enganas-te. Teve seus minutos de aborrecimento, é verdade; a princípio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente meu filho, que me não completasse e continuasse. Se o rapaz tem saído à mãe, eu acabava crendo tudo, tanto mais facilmente quando que ele parecia haver-me deixado na véspera evocava a meninice, cenas e palavras, a ida para o colégio...

--Papai ainda se lembra quando me levou para o colégio? perguntou rindo.

--Pois não hei de lembrar-me?

--Era na Lapa; eu ia desesperado, e papai não parava, dava-me cada puxão, e eu com as perninhas... Sim, senhor, aceito."

Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia, bebeu um gole, e continuou a comer. Escobar comia assim também, com a cara metida no prato. Contou-me a vida na Europa, os estudos, particularmente os de arqueologia, que era a sua paixão. Falava da antiguidade com amor, contava o Egito e os seus milhares de séculos, sem se perder nos algarismos; tinha a cabeça aritmética do pai. Eu, posto que a idéia da paternidade do outro me estivesse já familiar, não gostava da ressurreição. Às vezes, fechava os olhos para não ver gestos nem nada, mas o diabrete falava e ria, e o defunto falava e ria por ele."

 

A questão é que o cinema, além de empobrecer muito a história do livro, acentuou a dúvida muito mais que o escritor fluminense fez. E, quando eu digo que quem tem essa dúvida não leu o livro, preciso ser bem interpretado. Porque podem muito bem ter biltres que leram o livro e colocam em dúvida a traição de Capitu, ah, podem. Mas esses são os tais "leitores obtusos", adjetivo dado por Machado àqueles leitores que só entendem o que vem desenhado e com legenda embaixo.

Escrito por Dostuc às 18h12
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