Recentemente, tive a oportunidade de ler "Dom Casmurro", livro clássico de Machado de Assis. Eu sei, é uma vergonha só ter feito esta leitura agora. Porém, o que me consolou foi a constatação de que quase ninguém leu e diz o contrário.
A boçalidade popular, municiada pelo cinema e pelas telenovelas, reduziu o romance de Machado à uma pergunta: "Capitu traiu ou não Bentinho?". Ao terminar de ler cheguei à uma convicção: quem faz esta pergunta não leu o livro.
Eu seria capaz de, no futuro, em alguma ocasião que fizesse um jantar em minha casa, convidando conhecidos que gostem de literatura, e algum sujeito invocasse o nome de Machado de Assis trazendo à baila esta dúvida sobre a infidelidade de Capitu, de falar: "Embusteiro! Você não leu nada! Sai da minha casa, sai, sai! Rex, pega! Morde a perna dele!".
Antes de expor minhas razões, embora eu não goste de expor coisas óbvias, mas no caso são necessárias para quem não leu entender, vou contar a história do livro.
Resumindo muito porcamente o grande romance machadiano, a história está centrada na vida de Bentinho e Capitu. Os dois eram vizinhos e se conheciam desde pequenos. Aos poucos, sentiram a transição da fase do desinteresse infantil entre o homem e a mulher, para o amor que começava a nascer na adolescência. Porém, justamente quando começavam a concretizar o amor que crescia, a mãe de Bentinho tomou providências para cumprir uma promessa que tinha feito. O fato é que a mãe de Bentinho, católica, em outra ocasião tinha perdido um filho. Quando engravidou novamente, prometeu a Deus que entregaria para Ele um sacerdote, caso o seu filho sobrevivesse. Sendo assim, Bentinho teria que ir para o seminário. Bentinho não queria, mas acabou aceitando, com a intenção de mostrar à mãe que não tinha vocação para ser padre. Bem, o fato é que ele conseguiu com o "jeitinho brasileiro" se livrar desta promessa. A mãe tinha feito a promessa de entregar a Deus um sacerdote, mas não necessariamente ele. Então, arranjaram um órfão para ser padre, cumprir a promessa da mãe, e desobrigar Bentinho a fazer o seminário. Cínico e simples assim, como tudo o que envolve religião. Deus é compreensivo. Quanto ao curto período de Bentinho no seminário, resta dizer que lá ele fez grande amizade com um rapaz chamado Escobar, que também não tinha intenção alguma de seguir a carreira sacerdotal. Quando Bentinho conseguiu finalmente sair do seminário, cursou Direito e concretizou para sempre o seu amor com Capitu. Estavam casados. A amizade com Escobar continuou, e ele acabou casando com uma grande amiga de Capitu. Anos maravilhosos, de união entre o casal, se seguiram. Um dia, Escobar faleceu. O casamento de Bentinho e Capitu já não ia bem, e começou a agravar quando Bentinho começou a ter suspeitas materializadas no filho do casal, que começava a desenvolver características parecidas com Escobar, de que sua amada mulher manteve um caso com o seu melhor amigo. O casamento acabou desmoronando, como tantos outros, e a história chegou ao seu desfecho. "Dom Casmurro" é uma história de amor, mas nela Machado, realista que era, foi um pouco além do final feliz.
Pois bem, voltando às minhas considerações iniciais, a primeira questão a se ressaltar é a extrema injustiça de reduzir o livro ao questionamento estúpido citado nos parágrafos iniciais. Quem tiver a curiosidade pode ler, esta "dúvida" não tomou conta nem de 15% do livro, seguramente. Na grande maioria da história, Machado trata da relação entre Bentinho e Capitu, das purezas e ingenuidades do amor inocente entre os dois, que o levava a pensar até em coisas insanas, como quando desejou por um segundo que a mãe morresse, para que não tivesse mais que fazer o seminário, e finalmente ficar com Capitu. O livro mostra a visão de mundo que o jovem tinha, já escrevendo com a cabeça de um adulto (Bentinho que narra a história), e traz muitas reflexões além do amor, sobre a morte, exclusão social, felicidade. Por isso que afirmo que reduzir o livro à esta pergunta imbecil é vagabundagem. Mas, até para combater essa visão bizarra de "Dom Casmurro" que acabou se perpetuando, vou tratar deste tema.
Quando fui ler, condicionado pelos filmes que tinha visto no cinema, me questionava quando ia chegar o momento da dúvida, dos ciúmes doentios. Tentaram transformar a obra em um "Otelo" tupiniquim. É verdade que Machado até fez uma alusão à tragédia shakespeariana em seu livro, mas isso estava no contexto em que poderia existir alguma dúvida sobre a justiça ou injustiça dos pensamentos de Betinho sobre a mulher. Porém, o desenrolar do romance dissipou qualquer dúvida. Explico.
Bentinho, quando começou a desconfiar de Capitu e Escobar, principalmente pelo desenvolvimento do filho, começou a ligar fatos, momentos que viu os dois, que encarava inocentemente quando se deram e que agora apontavam no sentido da traição. Nesta discussão sobre se Capitu traiu ou não, muitos argumentam, contra Capitu, dizendo que ela sempre foi dissimulada, desde a infância, o que é fato. Quando beijava às escondidas Bentinho, e os pais dela chegavam por perto, ela conseguia dissimular com a maior naturalidade e até ajudava Bentinho a disfarçar, posto que o mesmo não conseguia ter a mesma desenvoltura na mentira. Existem outros argumentos, mas que, a meu ver, não seriam peremptórios para decidir se Capitu tinha ou não traído. Contra Bentinho, as pessoas argumentam que seu ciúme doentio o fez criar coisas. E é este ponto importante para ver o descabimento deste questionamento.
Os poucos que leram o livro sabem que Bentinho, no momento em que beirava à loucura pela convicção de que tinha sido traído, vendo cada vez mais se desenvolverem os traços do seu falecido amigo Escobar no seu filho, disse ao menino que não era pai dele, fato que fez Capitu se indignar e pedir a separação, que Bentinho prontamente aceitou. Os dois se separaram, e Capitu tentou uma reaproximação por cartas, porém Bentinho nunca aceitou. O filho do casal foi morar na Europa com a mãe, e lá ficou fazendo os seus estudos. Pois bem, os anos se passaram, Capitu morreu e um dia o menino, já homem, foi visitar o seu pai. Foi quando Bentinho, já passados os anos e toda a mágoa provocada, se deparou não com um menino com traços parecidos com os de seu amigo, mas a cópia de seu amigo perante si e lhe chamando de pai. Neste momento, Machado deixou claro que as semelhanças que Bentinho via entre seu filho e seu amigo não eram apenas causadas pela visão turva do ciúme. O tempo tratou de provar que elas eram reais e assustadoras. Vejam o trecho que trata de forma límpida do encontro:
"Não fui logo, logo; fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala. Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr, abraçá-lo, falar-lhe na mãe. A mãe,--creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. Estava; lá repousa na velha Suíça. Acabei de vestir-me às pressas. Quando saí do quarto, com ares de pai, um pai entre manso e crespo, metade Dom Casmurro Ao entrar na sala, dei com um rapaz, de costas, mirando o busto de Massinissa, pintado na parede. Vim cauteloso, e não fiz rumor Não obstante, ouviu-me os passos, e voltou-se depressa. Conhece-me pelos retratos e correu para mim. Não me mexi; era nem mas nem menos o meu antigo jovem companheiro do seminário de José, um pouco mais baixo, menos cheio de corpo e, salvo as cores que eram vivas, o mesmo rosto do meu amigo. Trajava à moderna naturalmente, e as maneiras eram diferentes, mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Era o próprio, o exato, o verdadeiro Escobar. Era o meu comborço; era o filho de seu pai. Vestia de luto pela mãe; eu também estava de preto. Sentamo-nos.
--Papai não faz diferença dos últimos retratos, disse-me ele
A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era afrancesado. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era, e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. Mas isto mesmo dava animação à cara dele, e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. Ei-lo aqui. diante de mim, com igual riso e maior respeito; total, o mesmo obséquio e a mesma graça. Ansiava por ver-me. A mãe falava muito em mim, louvando-me extraordinariamente, como o homem mais puro do mundo, o mais digno de ser querido.
-- Morreu bonita, concluiu.
--Vamos almoçar.
Se pensas que o almoço foi amargo, enganas-te. Teve seus minutos de aborrecimento, é verdade; a princípio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente meu filho, que me não completasse e continuasse. Se o rapaz tem saído à mãe, eu acabava crendo tudo, tanto mais facilmente quando que ele parecia haver-me deixado na véspera evocava a meninice, cenas e palavras, a ida para o colégio...
--Papai ainda se lembra quando me levou para o colégio? perguntou rindo.
--Pois não hei de lembrar-me?
--Era na Lapa; eu ia desesperado, e papai não parava, dava-me cada puxão, e eu com as perninhas... Sim, senhor, aceito."
Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia, bebeu um gole, e continuou a comer. Escobar comia assim também, com a cara metida no prato. Contou-me a vida na Europa, os estudos, particularmente os de arqueologia, que era a sua paixão. Falava da antiguidade com amor, contava o Egito e os seus milhares de séculos, sem se perder nos algarismos; tinha a cabeça aritmética do pai. Eu, posto que a idéia da paternidade do outro me estivesse já familiar, não gostava da ressurreição. Às vezes, fechava os olhos para não ver gestos nem nada, mas o diabrete falava e ria, e o defunto falava e ria por ele."
A questão é que o cinema, além de empobrecer muito a história do livro, acentuou a dúvida muito mais que o escritor fluminense fez. E, quando eu digo que quem tem essa dúvida não leu o livro, preciso ser bem interpretado. Porque podem muito bem ter biltres que leram o livro e colocam em dúvida a traição de Capitu, ah, podem. Mas esses são os tais "leitores obtusos", adjetivo dado por Machado àqueles leitores que só entendem o que vem desenhado e com legenda embaixo.