Pensamentos mais-que-imperfeitos!


13/09/2009


Parabéns, Lupe

A semana que começa traz uma data muito importante para a nossa música. Eu só não sei qual é o dia exato. O fato é que para alguns no dia 16, para outros no dia 19 (e há até quem diga dia 10!), só tendo certeza que o acontecimento se deu em setembro de 1914, comemora-se a data de nascimento de Lupicínio Rodrigues, o querido Lupe.

 

O primeiro fato que salta aos olhos ao falar dele, é que gaúcho Lupe conseguiu a proeza de ter sucesso na boemia e no samba, sem ser carioca.

 

Aliás, não bastasse não ser nativo da Cidade Maravilhosa, Lupicínio pisou pouquíssimas vezes no Rio de Janeiro, ao contrário dos artistas da época e até dos atuais, que muitas vezes precisam da benção do Rio de Janeiro e de São Paulo para serem notados. Lupe jamais abandonou Porto Alegre, sua cidade querida, onde nasceu e morreu.

 

Porém, a música de Lupe nunca ficou limitada a fronteiras regionais. Sua presença física não era necessária para a sua música ecoar pelo Brasil. Talvez Lupe tenha sido o último músico a ganhar notoriedade através da oralidade popular. Ele mesmo, em entrevista ao Pasquim, em 1965, explicou o fenômeno: "Graças a meu bom Deus sempre vivi no Rio Grande do Sul.  Tive a felicidade de ficar conhecido universalmente, e agradeço isso aos marinheiros que visitavam a minha terra naquela época, quando não havia transporte para lá, a não ser o marítimo.  Os marinheiros chegavam em Porto Alegre, aprendiam minhas músicas e saíam a divulgar pelo Brasil."

 

E foi desta forma que versos como: "Há pessoas com nervos de aço/ Sem sangue nas veias/ E sem coração/ Mas não sei se passando o que eu passo/ Talvez não lhes venha qualquer reação"; "Se acaso você chegasse/ No meu chatô e encontrasse/ Aquela mulher que você gostou..."; "Felicidade foi-se embora/ E a saudade no meu peito ainda mora..."; "Esses moços/ Pobres moços/ Ah, se soubessem o que eu sei...";  e até o hino do Grêmio "Até a pé nós iremos/ Para o que der e vier/ Mas o certo é que nós estaremos/ Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver..."; ganharam o Brasil.

 

Suas composições eram praticamente autobiográficas, tratando dos seus amores malogrados. Dentre tantas histórias que ele contava, é interessante o relato que ele fez de como se inspirou para compor "Vingança" e até a música "Nunca" (a mais bela do Lupe, na minha opinião), fato que relatou na mesma entrevista ao Pasquim: "A mulher que me inspirou "Vingança" viveu comigo seis anos.  E depois terminou namorando um garoto que era meu empregado, de 16, 17 anos.  É que eu tinha viajado, ela mandou chamar o garoto.  Disse que queria falar com ele.  Ela mandou um bilhete.  O garoto com medo de mim, quando eu cheguei, me entregou o bilhete.  Disse: "Olha a Dona Carioca me mandou esse bilhete.  Eu não sabia o que ela queria comigo.  Não fui." (Risos) Entregou a mulher.  Aí eu não disse nada. Fiquei quietinho, inventei outra viagem, peguei minha mala, e fui embora.  Era época do carnaval, ela endoidou.  Botou um “Dominó".  "Dominó” é aquela fantasia preta, que cobre tudo.  No carnaval, feito louca foi me procurar.  Uma certa madrugada, ela, num fogo danado - parece que deu fome - entrou num bar onde a gente costumava comer.  Foi obrigada a tirar o "Dominó” pra comer, e o pessoal a reconheceu.  Perguntaram - "Ué, Carioca, que você está fazendo aqui a essa hora?  Cadê o Lupi?" Ela sozinha.   Ai ela começou a chorar. Eu estava num restaurante do outro lado.  Uns amigos chegaram e me disseram: encontramos a Carioca vestida de "Dominó”, num fogo tremendo.  Começou a chorar e perguntar por ti.  O que que houve, vocês estão brigados?" Aí foi que eu fiz o "Vingança".  Na mesma hora comecei, saiu (canta) "Gostei tanto, tanto, quando me contaram ... "   Eu sou muito amigo dos pais de santo, os batuqueiros lá de Porto Alegre.  Em cada lugar que chegava ela botava fotografia minha, cabritas, aquele negócio todo pra fazer as pazes.  Aí eu fiz (canta): "Nunca, nem que o mundo caia sobre mim/Nem se Deus mandar ...” 

 

História trágica para muitos, mas o próprio Lupicínio se divertia com as suas tragédias pessoais. Aliás, de uma certa forma era até agradecido, como ele mesmo dizia: "Eu realmente tive muitas namoradas na minha vida.  Umas me fizeram bem, outras me fizeram mal.  As que me fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram, porque as que me fizeram bem eu esqueci."

 

Não bastasse isso, Lupe é considerado o autor da expressão popular "Dor de cotovelo". A origem veio da figura clássica do sujeito triste que encosta em um balcão de bar para esquecer o amor perdido e se embriagar. De tanto ficar encostado no balcão, não bastando a dor de amor, a pessoa ainda ganha a "Dor de cotovelo".

 

Lupicínio ainda fez a classificação das dores de cotovelo. A dor de cotovelo federal seria aquela que só poderia ser curada com embriaguez total. Já a dor de cotovelo estadual era suportável, e com o passar do tempo tudo se ajeitava. Por fim, havia a dor de cotovelo municipal, que não poderia nem mesmo servir de inspiração para um samba.

 


Se estivesse vivo, Lupe estaria prestes a comemorar 95 anos. Ele, que nunca se assumiu como artista, nas suas próprias palavras: "Eu não tenho nada com o ambiente artístico brasileiro.  Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor, não sou nada.  Eu sou boênio."

 

Mas a arte, mesmo sendo a mulher trocada pela boemia, guardou o seu nome.

 

Escrito por Dostuc às 16h26
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Um pouco de Vinicius no domingo

Sacrifício da Aurora

(Vinicius de Moraes)

 

Um dia a Aurora chegou-se
Ao meu quarto de marfim
E com seu riso mais doce
Deitou-se junto de mim
Beijei-lhe a boca orvalhada
E a carne tímida e exangue
A carne não tinha sangue
A boca sabia a nada.



Apaixonei-me da Aurora
No meu quarto de marfim
Todo o dia à mesma hora
Amava-a só para mim
Palavras que me dizia
Transfiguravam-se em neve
Era-lhe o peso tão leve
Era-lhe a mão tão macia.


Às vezes me adormecia
No meu quarto de marfim
Para acordar, outro dia
Com a Aurora longe de mim
Meu desespero covarde
Levava-me dia afora
Andando em busca da Aurora
Sem ver Manhã, sem ver Tarde.


Hoje, ai de mim, de cansado
Há dias que até da vida
Durmo com a Noite, ausentado
Da minha Aurora esquecida...
É que apesar de sombria
Prefiro essa grande louca
À Aurora, que além de pouca
É fria, meu Deus, é fria!

Escrito por Dostuc às 12h39
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"Eu tenho a impressão que a primeira música que cantei, que as pessoas se tocaram que eu tinha algo a dizer, foi 'Preciso aprender a ser só'."

http://www.youtube.com/watch?v=VqWyAHVrwgs

Escrito por Dostuc às 12h22
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Para ser protegido, tem que ter olhar de sofrimento

Hoje vou falar de um fato desatualizado, cujo assunto é bem atual.

 

Tempos atrás, uma entrevista com Barack Obama rodou o mundo depois que o mesmo matou uma mosca com um golpe de samurai. Na época, um grupo de defesa dos animais divulgou uma nota criticando o presidente estadunidense. O nome do grupo é PETA, e na nota divulgada em seu blog disse que: "Em resumo, nossa posição é: Obama não é Buda, ele é um ser humano, e os seres humanos têm um longo caminho a percorrer até que consigam pensar antes de agir".

 

Na nota eles ainda pediam que Obama "mostrasse compaixão até com o menos simpático dos animais". Para finalizar, ainda enviaram para o presidente uma armadilha que captura moscas e permite que elas sejam liberadas em campo aberto.

 

O porta-voz do PETA, um tal Bruce Freidrich, explicou a lógica da revolta: "Acreditamos que as pessoas deveriam mostrar compaixão por todos os animais".

 

Muitas pessoas trataram o tema com tom jocoso, debochando da associação. Mas, por incrível que pareça, eles até estão sendo coerentes. Mesmo sendo ridículos. Assim como são ridículos aqueles que ficam choramingando, suplicando, para que cachorros não sejam postos na panela, ou gatos em espetos de churrasco. Porém, o PETA pelo menos mostra coerência.

 

Afinal, qual é o sentido de chorar tanto por cachorros, muitas vezes mais até do que por seres humanos, e não defender as moscas?

 

O problema talvez seja que as moscas, coitadas, não possuem aquele olhar quase humano de súplica e sofrimento que os caninos e felinos possuem. Pobres moscas, seres diminutos de visão múltipla e difusa, não conseguem demonstrar a olho nu uma lágrima de sofrimento, quando tomam um tapa.

 

O que dizer das pobres baratas, então? Se vamos defender os animais, vamos deixar de esmagar as pobres baratas e usar algum capturador de baratas para colocá-las em seu habitat. Algumas queridíssimas socialites, que colocam até cueca em cães, topariam?

 

A lógica nos leva a situações desagradáveis, às vezes. É por isso que eu, apesar de gostar de animais, prefiro o ser humano e considero (atenção para a declaração escandalosa!) que ele tem, sim, superioridade sobre os outros animais (mesmo quando o ser humano é compositor de axé). Portanto, um dia hei de saber o gosto de uma carne de cachorro, sem dor no coração. E continuarei trucidando moscas e baratas.

Escrito por Dostuc às 12h15
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