
A semana que começa traz uma data muito importante para a nossa música. Eu só não sei qual é o dia exato. O fato é que para alguns no dia 16, para outros no dia 19 (e há até quem diga dia 10!), só tendo certeza que o acontecimento se deu em setembro de 1914, comemora-se a data de nascimento de Lupicínio Rodrigues, o querido Lupe.
O primeiro fato que salta aos olhos ao falar dele, é que gaúcho Lupe conseguiu a proeza de ter sucesso na boemia e no samba, sem ser carioca.
Aliás, não bastasse não ser nativo da Cidade Maravilhosa, Lupicínio pisou pouquíssimas vezes no Rio de Janeiro, ao contrário dos artistas da época e até dos atuais, que muitas vezes precisam da benção do Rio de Janeiro e de São Paulo para serem notados. Lupe jamais abandonou Porto Alegre, sua cidade querida, onde nasceu e morreu.
Porém, a música de Lupe nunca ficou limitada a fronteiras regionais. Sua presença física não era necessária para a sua música ecoar pelo Brasil. Talvez Lupe tenha sido o último músico a ganhar notoriedade através da oralidade popular. Ele mesmo, em entrevista ao Pasquim, em 1965, explicou o fenômeno: "Graças a meu bom Deus sempre vivi no Rio Grande do Sul. Tive a felicidade de ficar conhecido universalmente, e agradeço isso aos marinheiros que visitavam a minha terra naquela época, quando não havia transporte para lá, a não ser o marítimo. Os marinheiros chegavam em Porto Alegre, aprendiam minhas músicas e saíam a divulgar pelo Brasil."
E foi desta forma que versos como: "Há pessoas com nervos de aço/ Sem sangue nas veias/ E sem coração/ Mas não sei se passando o que eu passo/ Talvez não lhes venha qualquer reação"; "Se acaso você chegasse/ No meu chatô e encontrasse/ Aquela mulher que você gostou..."; "Felicidade foi-se embora/ E a saudade no meu peito ainda mora..."; "Esses moços/ Pobres moços/ Ah, se soubessem o que eu sei..."; e até o hino do Grêmio "Até a pé nós iremos/ Para o que der e vier/ Mas o certo é que nós estaremos/ Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver..."; ganharam o Brasil.
Suas composições eram praticamente autobiográficas, tratando dos seus amores malogrados. Dentre tantas histórias que ele contava, é interessante o relato que ele fez de como se inspirou para compor "Vingança" e até a música "Nunca" (a mais bela do Lupe, na minha opinião), fato que relatou na mesma entrevista ao Pasquim: "A mulher que me inspirou "Vingança" viveu comigo seis anos. E depois terminou namorando um garoto que era meu empregado, de 16, 17 anos. É que eu tinha viajado, ela mandou chamar o garoto. Disse que queria falar com ele. Ela mandou um bilhete. O garoto com medo de mim, quando eu cheguei, me entregou o bilhete. Disse: "Olha a Dona Carioca me mandou esse bilhete. Eu não sabia o que ela queria comigo. Não fui." (Risos) Entregou a mulher. Aí eu não disse nada. Fiquei quietinho, inventei outra viagem, peguei minha mala, e fui embora. Era época do carnaval, ela endoidou. Botou um “Dominó". "Dominó” é aquela fantasia preta, que cobre tudo. No carnaval, feito louca foi me procurar. Uma certa madrugada, ela, num fogo danado - parece que deu fome - entrou num bar onde a gente costumava comer. Foi obrigada a tirar o "Dominó” pra comer, e o pessoal a reconheceu. Perguntaram - "Ué, Carioca, que você está fazendo aqui a essa hora? Cadê o Lupi?" Ela sozinha. Ai ela começou a chorar. Eu estava num restaurante do outro lado. Uns amigos chegaram e me disseram: encontramos a Carioca vestida de "Dominó”, num fogo tremendo. Começou a chorar e perguntar por ti. O que que houve, vocês estão brigados?" Aí foi que eu fiz o "Vingança". Na mesma hora comecei, saiu (canta) "Gostei tanto, tanto, quando me contaram ... " Eu sou muito amigo dos pais de santo, os batuqueiros lá de Porto Alegre. Em cada lugar que chegava ela botava fotografia minha, cabritas, aquele negócio todo pra fazer as pazes. Aí eu fiz (canta): "Nunca, nem que o mundo caia sobre mim/Nem se Deus mandar ...”
História trágica para muitos, mas o próprio Lupicínio se divertia com as suas tragédias pessoais. Aliás, de uma certa forma era até agradecido, como ele mesmo dizia: "Eu realmente tive muitas namoradas na minha vida. Umas me fizeram bem, outras me fizeram mal. As que me fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram, porque as que me fizeram bem eu esqueci."
Não bastasse isso, Lupe é considerado o autor da expressão popular "Dor de cotovelo". A origem veio da figura clássica do sujeito triste que encosta em um balcão de bar para esquecer o amor perdido e se embriagar. De tanto ficar encostado no balcão, não bastando a dor de amor, a pessoa ainda ganha a "Dor de cotovelo".
Lupicínio ainda fez a classificação das dores de cotovelo. A dor de cotovelo federal seria aquela que só poderia ser curada com embriaguez total. Já a dor de cotovelo estadual era suportável, e com o passar do tempo tudo se ajeitava. Por fim, havia a dor de cotovelo municipal, que não poderia nem mesmo servir de inspiração para um samba.
Se estivesse vivo, Lupe estaria prestes a comemorar 95 anos. Ele, que nunca se assumiu como artista, nas suas próprias palavras: "Eu não tenho nada com o ambiente artístico brasileiro. Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor, não sou nada. Eu sou boênio."
Mas a arte, mesmo sendo a mulher trocada pela boemia, guardou o seu nome.



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