Pensamentos mais-que-imperfeitos!


12/07/2009


Cecília, minha parte amena

Para amenizar o turbilhão de críticas (tenho que começar a fazer aqueles cursos orientais fajutos, senão morro do coração, é perigoso), é hora de amenizar um pouco o blog com a presença doce da querida Cecília.

 

 

Primavera

Cecília Meireles

 


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

Escrito por Dostuc às 19h45
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Timão campeão e um pouco de Lupe para ninar os colorados

O ano é 2005. Estamos no Campeonato Brasileiro. Em um jogo entre Internacional de Porto Alegre e o Corinthians, o árbitro Márcio Rezende de Freitas deixou de marcar um pênalti a favor do time gaúcho. Nasceria aí um ódio imortal contra a equipe alvinegra. Os gaúchos acusavam o clube paulista de ter vencido o campeonato brasileiro de 2005 principalmente por conta daquele pênalti não marcado. Esqueciam-se que bastava ao Inter ganhar o último jogo, contra o rebaixado Coritiba, que seria campeão. Mas, tudo bem, o inferno sempre são os outros.

 

2007, Campeonato Brasileiro. O Corinthians lutava contra o rebaixamento, disputando ponto a ponto com o Goiás. Na última rodada, o Corinthians jogaria contra o Grêmio e o Goiás contra o Inter. A torcida do Inter implorava para o time entregar o jogo, criando até uma campanha intitulada "Entrega Inter". Se os jogadores do clube ouviram ou não o apelo, o fato é que o Inter foi derrotado pelo fraquíssimo time goiano. E o Corinthians, com um elenco também horroroso naquele ano, conseguiu apenas um empate com o Grêmio. O Timão era rebaixado. A torcida do Inter comemorava como se fosse um título.

 

Final da Copa do Brasil, em 2009. O último jogo da decisão era no Rio Grande do Sul, no estádio Beira Rio. Em campo, Internacional contra o Corinthians. Seria o ato final da vingança. Era o dia do Inter devolver diretamente a mágoa guardada desde 2005. Levavam o seguinte lema: "2005: Internacional verdadeiro campeão brasileiro / 2007: A bola pune/ 2009: A vingança vem a galope".  Buscando pressionar a arbitragem, os gaúchos até criaram um DVD com supostos erros de arbitragem a favor do time paulista, como se erros não existissem contra e a favor de todos os clubes de futebol.

 

Porém, eis que a anunciada vingança teve que ficar para outra oportunidade. Não adiantou chorar um pênalti não marcado em 2005. Não adiantou torcer contra o próprio time e comemorar o rebaixamento corintiano em 2007. Não adiantou prometer um inferno contra o Corinthians em Porto Alegre. O Inter foi inapelavelmente humilhado. Perdeu de 2x0 o primeiro jogo e empatou em 2x2 o segundo jogo. Só seria campeão se fizesse mais 3 gols.

 

A vingança corintiana foi muito melhor. Ganhamos no campo, fizemos a torcida adversária sofrer a dor em seus domínios. Talvez eu morra sem ver o Inter dar uma volta olímpica no campo corintiano. Já eles, talvez precisem da vida inteira para esquecer da decepção que passaram justo no ano do seu centenário.

 

E só ficaria mais perfeito se a Fiel torcida assim cantasse para os colorados a música do também gaúcho, mas tricolor, Lupicínio Rodrigues:

 

Eu gostei tanto,
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar,


E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz,
Não lhe deixou falar.


Eu gostei tanto,
Tanto, quando me contaram
Que tive mesmo de fazer esforço
Pra ninguém notar.


O remorso talvez seja a causa
Do seu desespero
Você deve estar bem consciente
Do que praticou,


Me fazer passar tanta vergonha
Com um companheiro
E a vergonha
É a herança maior que meu pai me deixou;


Mas, enquanto houver força em meu peito
Eu nao quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar


Você há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar

 

Escrito por Dostuc às 19h42
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Hipocrisia, eu quero uma pra viver

"Sei que amanhã, quando eu morrer,/ Os meus amigos vão dizer/ Que eu tinha um bom coração/ Alguns até hão de chorar/ E querer me homenagear..."

 

Sempre lembro desses versos do Nelson Cavaquinho e do Guilherme de Brito quando vejo alguém morrendo. A música, intitulada "Quando eu me chamar saudade", sempre me faz lembrar como se torna "bom" quem morre.

 

Não existiu ser humano mais achincalhado pela imprensa e sociedade que o Michael Jackson nos últimos anos. E agora, de forma surpreendente (ou nem tão assim), todos o idolatram.

 

É claro que eu não entro nesta fileira. Até porque, pouco conheço sobre a obra de Michael. Cresci na época em que a importância de sua música já tinha perdido espaço para a sua esquisita vida pessoal. E, como não sou lá muito fã de música pop, pouco pesquisei para conhecer sua obra.  A única coisa que posso dizer é que "We are the world", que ele fez em parceria com Lionel Richie, é uma música sensacional, gostosa de ouvir.

 

Concernente à vida pessoal, nunca acreditei que ele fosse pedófilo. Não creio que seja atitude de um pedófilo típico dizer em alto e bom som em entrevistas que dormia na mesma cama com várias crianças, em seu rancho chamado "Neverland". Quem já assistiu o ótimo "Felicidade" (Hapiness, 1998), de Todd Solondz, que aproveito para recomendar, sabe o perfil exato dessa espécie abjeta chamada pedófilo. Não creio que Michael atendesse os requisitos. Mas ninguém acreditava nisso.

 

Porém, eis que em uma demonstração de cinismo, hipocrisia e até covardia, vejo vários acusadores chorando a morte de Michael, dizendo que foi um "Grande homem", "Um grande caráter", "Eu deixaria minhas crianças brincar em Neverland". Meu Deus!

 

A morte serve para purificar biografias. Mesmo quando nem se sabe se foram sujas justamente.

Escrito por Dostuc às 19h40
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O Lutador e a efêmera juventude

A exaltação da juventude e suas qualidades intrínsecas como força física, beleza, dentre outros atributos, sempre fez parte do cotidiano de qualquer pessoa. Ídolos imbatíveis, mulheres lindas, dentre tantos modelos que a juventude traz, vêm e se renovam no dia a dia. Um lado pouco lembrado neste panorama é a vida dos que colheram fartamente os frutos deste período e que o tempo tratou de reservar apenas folhas secas no final. Afinal, o que acontece com aqueles que crescemos ouvindo diariamente falar e às vezes queremos ser iguais?

 

O Filme "O Lutador" retrata muito bem esta face esquecida. Dirigido por Darren Aronofsky e estrelado pelo elogiado Mickey Rourke, o filme traz Rourke interpretando Randy, um praticante de wrestling, uma modalidade de luta, digamos, de mentirinha, em que os vencedores e perdedores são definidos antes do embate em si e durante este dão uma sequência de golpes acrobáticos para diversão do público.

 

Outrora ídolo absoluto, agora envelhecido, decadente, com o corpo esgotado pelos excessos químicos, Randy sofre um ataque cardíaco e é avisado pelos médicos que não poderia mais exercer o seu ofício. Diante de uma realidade que já era desgostosa, Randy se vê na solidão. A única pessoa que ele se sente bem na companhia é a prostituta Pam (Marisa Tomei) que, em uma peculiar afinidade, também sofre com os efeitos do tempo, já que envelhecida tem dificuldades para angariar clientes.

 

O trecho que reflete bem a angústia dos dois com o tempo que passou e levou tudo o que a juventude lhes dava, fica bem nítido na cena em que os dois estão em um bar e, após ouvirem uma música que fez sucesso em seu tempo, Mickey começa dizendo, sempre seguido por Pam:

 

- Porra, já não fazem música como antigamente.
- Os anos 80, melhor época.
- Os Guns 'N Roses detonam!
- Mötley Crüe, Def Leppard...
- Mas aquela bicha do Cobain tinha que vir e estragar tudo.
- Como se houvesse problema em querer divertir-se.
- Vou te falar, detesto os anos 90.
- Os anos 90 foram uma merda.

 

O incômodo com os tempos atuais demonstrado pelos dois, não tinha raiz no Cobain e outros ícones dos anos 90. O problema, na realidade, estava em que eles, Mickey e Pam, já não mais se encaixavam no presente.

 

Ao se enxergar como um "pedaço de carne velha", como ele mesmo se definiu, Randy ainda tenta buscar o tempo perdido procurando estabelecer laços que nunca existiram com sua filha, esquecida durante todo o seu período de glória. Laços que nunca seriam possíveis.

 

"O Lutador" não tem a pretensão de ser profundo. É um filme simples, direto, seco. Hoje ligamos a televisão e vemos Paris Hilton, Cristiano Ronaldo, Mulher Melancia.  "O Lutador" é um ótimo anúncio da vida de todos os modelos juvenis, após a maré. É uma crônica do que se torna a vida de quem não a vive, reflete e planeja por inteiro e sim baseado apenas em um período, por sinal, o período mais efêmero de todos.

 

É verdade que esse erro é recorrente dos jovens em todas as épocas. Porém, um retrato destes nunca seria dispensável. Daí eu julgar este filme essencial.

Escrito por Dostuc às 19h38
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Um tema antigo para começar: o arcebispo jardineiro

O horror não tem fim. Em Pernambuco, Uma menina de 9 anos, estuprada pelo padrasto, acabou engravidando de gêmeos. Sem ter sequer estrutura física para aguentar uma gravidez, quanto mais de gêmeos, frutos de uma monstruosidade sem par, a menina recebeu a recomendação médica para proceder o aborto.

 

Aborto feito, restava agora à menina buscar se recuperar dos traumas irremediáveis. Mas eis que o horror atinge sua magnitude. O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, representante da Igreja Católica, em uma atitude no mínimo grotesca declarou como excomungados os médicos que participaram da operação e a mãe da menina.

 

É verdade que hoje em dia a excomunhão não tem valor algum. Em períodos medievais isso poderia ser considerada a morte em vida, a vergonha social máxima de um cidadão. Ficar sem receber os sacramentos seria o fim. Atualmente isso é irrelevante. As falsificações históricas, científicas, morais abalaram e muito a credibilidade da Igreja Católica. Ser excomungado tornou-se quase sinônimo de buscar a verdade.

 

A questão não é a excomunhão. A questão é a reprovação ao ato legítimo dos envolvidos no aborto. A Igreja Católica pode argumentar que não aceita o aborto, mas não está autorizada a corroborar a podridão.

 

O arcebispo, em sua fala asquerosa, tratou de diferenciar a lei dos homens e a lei de Deus, dizendo que “A lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Então, quando uma lei humana, quer dizer, uma lei promulgada pelos legisladores humanos, é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor”. Nesta contraposição entre "Lei humana" e "Lei divina" existem dois problemas.

 

Primeiro, comparando estes conceitos, nós temos concretamente que a chamada "lei dos homens" sempre trata, ou tenta tratar, cada caso em sua individualidade. Uma pessoa que comete um homicídio, se o comete em legítima defesa, é absolvida. Diferentemente de uma pessoa que o comete por simples vingança. Perceba-se que o crime é o mesmo, porém em um caso existem circunstâncias particulares que o fazem ser tratado diferente do outro caso. A grosso modo, podemos dizer que a "lei dos homens" é compreensiva. E as leis de Deus, que os religiosos dizem que é Amor, não seriam? Uma pessoa que matasse em legítima defesa estaria condenada ao inferno? Nem o mais fanático dos religiosos afirmaria isso. Pois as leis de Deus, segundo eles mesmos dizem, são superiores em compreensão e Amor do que a lei dos homens.

 

O outro ponto a se destacar é sobre o aborto. Eu não sou religioso, mas já li a Bíblia. Afirmo peremptoriamente que não existe nenhum versículo bíblico que vede a prática do aborto, que considere o feto uma vida, com espírito, etc, etc. O que existem são interpretações das mais divergentes. A proibição expressa do aborto sim, é lei do homem. Porque, repito, em nenhum versículo bíblico existe vedação expressa ao aborto.

 

Às vezes, vale a pena refletir na figura máxima do Cristianismo: Jesus. Jesus que a Igreja Católica (além dos Evangélicos, Espíritas, etc...) diz se basear. Existe um relato bíblico, muito conhecido, que diz que certa vez Jesus escrevia na areia e lhe trouxeram uma mulher adúltera, perguntando a ele, em tom de provocação, o que fariam com aquela mulher, já que pelas leis do Antigo Testamento ela deveria ser apedrejada, o que iria contrariar o Amor e o perdão que Jesus pregava. Serenamente, Jesus disse que poderia atirar a primeira pedra quem não tivesse pecado algum. Todos jogaram as pedras no chão e se retiraram do lugar.

 

Seria possível imaginar uma criança estuprada e grávida de gêmeos sendo condenada por Jesus por ter interrompido a gravidez?

 

Só mesmo na cabeça de um vagabundo, pusilânime, este tipo de reprovação tem coerência. Quando a sociedade "comum" possui uma moral superior à expressada pela Igreja, esta perde a razão de ser. Neste sentido, a excomunhão nada mais foi do que o certificado, para os envolvidos neste aborto,que trilharam no caminho certo. Porque águas antagônicas ao esgoto só podem ser cristalinas.

 

Que essa menina possa seguir sua vida em paz, tentando curar a ferida profunda, e que esse padrasto e o seu jardineiro arcebispo (que trata de proteger os "Frutos" daquele) padeçam no inferno junto com os padres pedófilos, pastores estelionatários, e tantos outros lixos que vemos por aí disfarçados em pele de ovelhas de Deus.

Escrito por Dostuc às 19h36
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