Pensamentos mais-que-imperfeitos!


09/05/2009


Versos de Bandeira

Faz um certo tempo que não posto poesias aqui. Nesses tempos em que qualquer um, julgando-se liberto da "forma", escreve poesias sem métrica, sem rima, sem sentido e sem nada, é bom lembrar o que os modernistas queriam dizer quando criticavam o parnasianismo. Leiam Bandeira abaixo e comparem com os "poetas" que vemos por aí. É por isso que eu digo que liberdade não é para todos.

 

QUANDO PERDERES O GOSTO HUMILDE DA TRISTEZA

 

Quando perderes a gosto humilde da tristeza,
Quando nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;

 

Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
- A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;

 

Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,
E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:

 

Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Cristar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:

 

Então sorri pela última vez, tristemente,
A tudo o que outrora
Amaste. Sorri tristemente...
Sorri mansamente...em um sorriso pálido...pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe...Sobre a tua fronte morta...

 

Escrito por Dostuc às 17h13
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O jogador ignorante, a torcedora sábia, o torcedor burro e o Corinthians

Minha namorada diz que não entende nada de futebol. O futebol é soporífero para ela.

 

Sábado, conversava com ela o absurdo de alimentar este esporte, embasado por um fato específico me deixou revoltado. André Santos, lateral esquerdo do Corinthians, tinha sido inquirido pela reportagem do "Globo Esporte" sobre o Timão. Ele não sabia nada. Desde o mascote, ao hino do clube, ele errou tudo. E eu, já revoltado pela derrota do meio da semana, contra o Atlético-PR, vaticinei: não iria mais acompanhar futebol. Esse bando de jogadores vagabundos, mercenários, que sabem muito menos do clube que eu, ganham em um ano o que eu não vou ganhar durante a vida e, como um trouxa, sirvo de platéia para esses boçais, biltres, ignorantes.

 

Ouvindo meu desabafo ela, que já me conhece muito bem, simplesmente disse: "Amor, qual é o nome desse jogador mesmo?" "André Santos" "Que posição que ele joga?" "Lateral-esquerdo, por que?" "Não, só queria saber. É que amanhã ele vai fazer um gol, o Corinthians vai ser campeão e ele vai se tornar seu ídolo!" "Ha-ha, até parece. Minha decisão é definitiva!".

 

Como poderia minha namorada, que não sabia nem o nome do jogador, especular sobre minhas decisões no futebol? Eu que acompanho há anos, vivo e respiro este esporte inútil, não saberia que estava falando sério? E ainda ela me fala que André Santos ia fazer gol? Justo ele, que estava jogando mal há jogos e jogos? Só rindo mesmo.

 

Chegou o domingo. A tarde passando e eu assistindo filmes: "Não vou mais assistir futebol, que se dane!". 16h era a hora marcada do jogo. Às 15:40, timidamente coloquei no canal que iria transmitir: "Vou só dar uma olhadinha", me justifiquei. Às 15:50, já estava colocando a camisa do Corinthians: "Estou sem camisa e está frio". 16h já estava gritando: "Vai, Corinthians!".

 

Após muita pressão, aos 26 minutos do primeiro tempo, o Santos fez 1x0, de pênalti. O desespero tomou conta de mim. Na seqüência, uma oportunidade fatal para o Santos ampliar o placar. Parecia ser questão de tempo o Santos fazer os três gols de diferença que precisava para ser campeão e reverter a vantagem do Corinthians. A torcida do Santos cantava "O Santos é o time da virada" em um Pacaembu de corintianos assustados. A irritação com aqueles jogadores vagabundos, boçais, preguiçosos novamente subia à minha cabeça.

 

Porém, aos 33 minutos, Dentinho passou a bola para André Santos fuzilar a rede de Fábio Costa. Gol do Corinthians! Berros aliviados da minha parte. Foi um balde de água fria sobre eles, o Santos estava morto. Não conseguiria mais a reação. Era só esperar o segundo tempo passar e o Corinthians ser campeão. E foi o que aconteceu.

 

"Como o gol de André Santos foi providencial! André Santos merece ir para a seleção! É um craque da lateral-esquerda! Corinthians campeão! Corinthians minha vida, minha história, meu Amor!". E, por falar em Amor, lembrei do diálogo do dia anterior.

 

Talvez por isso o Corinthians seja tão apaixonante. É o time que acabou de subir da série B, se classificou em terceiro lugar no campeonato Paulista e termina o mesmo campeonato campeão invicto. É o time que o jogador pode até não saber nada de nada, ser um ignorante e estar fazendo partidas ruins, mas na final cresce e entra pra história (Quem se esquece de Dinei, Tupãzinho, Basílio?). É o time que a torcedora que não troca ouvir uma boa música por qualquer final de campeonato ser capaz de fazer comentários mais lúcidos e precisos do que o pretenso fanatico que sabe nome até dos seguranças do time e que foge de tudo o que é verde como o vampiro de alho.

 

É que o Corinthians, na verdade, tem razões particulares, desconexas, com a estrutura lógica da paixão. Ou seja, não adianta procurar entender, compreender, calcular. Nunca fará sentido. E é por isso que é Corinthians.

Escrito por Dostuc às 16h47
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