
A mesma estrondosa voz abrigava a alegria e a tristeza. Dos sambas alegres que interpretava na Sapucaí aos sambas melancólicos como os de Lupicínio Rodrigues, aquela voz mostrava que mesmo diante de sentimentos tão grandes, como são a alegria e tristeza, ela era ainda maior. Essa era a voz de Jamelão.
Um intérprete, na perfeita acepção da palavra. Palavra que hoje é vulgarizada com cantores que mostram que sabem fazer malabarismos com a voz, mas não sabem causar uma mínima pulsação em quem os ouve. Com Jamelão, o coração nem precisaria de sangue. Bastaria o ecoar da sua voz para o mesmo pulsar.
Jamelão fazia tudo o que queria um compositor ao entregar sua filha querida, sua composição, ao intérprete. Lupicínio Rodrigues, assim dizia: "O cantor que eu admiro, que eu gosto que intérprete as minhas músicas, é o Jamelão. Porque ele tem uma preocupação de cantar as músicas como eu faço. Não é por ele estar presente. A gente faz uma música e o cantor vai cantar. Ele acha que tem que fazer uma coisa diferente, mudar a melodia, ele acha que a letra tem que ser como ele quer. O Jamelão é autêntico. Ele procura aprender a música como a gente ensina pra ele a cantar a música como a gente faz."
Na sua escola querida, a Estação Primeira de Mangueira, o levantar do público era um impulso natural quando, já no aquecimento, aquela voz cruzava a avenida cantando "Exaltação à Mangueira". Presente em todos os 16 títulos conquistados pela escola, chamar Jamelão de puxador de escola de samba era pedir para ser ofendido. Como um bom policial civil aposentado que era, falava no mesmo linguajar dos seus tempos de escrivão: "Não sou puxador de samba, sou intérprete. Puxador é quem fuma maconha ou rouba carro".
Um país racista, discriminatório e elitizado se curvava solenemente diante daquele negro e favelado. Jamelão dormiu em uma cerimônia feita em sua homenagem no Palácio do Planalto diante do então presidente Fernando Henrique Cardoso. Jamelão foi aplaudido em pé ao passar perante uma passarela em um desfile de moda na São Paulo Fashion Week. Jamelão rechaçou uma fã que quis beijá-lo na mão dizendo "Sai pra lá minha filha, que negócio é esse? Tá pensando que eu sou pai-de-santo?". Ou dizendo para uma que quis beijar seu rosto: "Não! Não sei onde você andou com essa boca!".
Jamelão já sabia que seria assim. Nenhum preconceito é capaz de suplantar a arte. Ele mesmo já tinha dito certa vez: "Para ser estrela (o negro) não serve, tem de ser branco e de preferência boa pinta. Não grito contra isso porque sei que as pessoas que hoje me desprezam amanhã vão me amar."
O semblante sempre fechado de uma certa forma servia até para diferenciar Jamelão, o verdadeiro sambista, da imagem caricatural de pagodeiros risonhos como Neguinho da Beija-Flor.
O mau-humor de Jamelão, aliás, se tornou folclórico entre o meio jornalístico. Todo o jornalista que se prezasse tinha que tomar uma pancada como uma espécie de batismo. Um exemplo hilário foi o do jornalista Tom Cardoso relatando em uma reportagem que ingenuamente tentou ligar para Jamelão para marcar uma entrevista. Como se falar com Jamelão dependesse da vontade dos meios de comunicação...
O jornalista relatou que assim foi a conversa:
"— Alô, Jamelão, tudo bem? Aqui é Tom Cardoso, repórter...
— Entrevista? Cobro dez mil reais. É o meu preço para aturar jornalistas como você.
— Mas Jamelão... está um pouco caro isso, não?
— Já apanhei muito da vida, meu filho...
— Mas eu só quero uma entrevista! E se eu ligar mais tarde?
— Mais tarde eu já morri... Quem sabe você pode me entrevistar depois disso?
- Risos.
— Tá rindo da minha cara?
— É que o senhor disse que só vai dar entrevista depois de morrer...
— Isso mesmo!
— Só se for psicografado...
— Você tá querendo briga, rapaz?
— Não, imagine...
— Então não enche o meu saco! Tu, tu, tu, tu..."
Jamelão fugia à lógica torpe de hoje. Nesses tempos que sambistas fazem pagodes, escritores fazem folhetins, e mulheres mostram o útero, cada um querendo aparecer de alguma forma, ter fama a qualquer custo, ele não fazia questão nenhuma de aparecer. Mas todos queriam ouví-lo de qualquer maneira. Seja cantando, seja falando. Eis um grande.
Nos últimos anos, os problemas de saúde devido à sua idade avançada, o fizeram ter que se afastar da sua querida escola. Capricho do destino ou não, desde então a Mangueira enfrentou uma derrocada vertiginosa. As pessoas ainda tinham uma esperança que Jamelão voltasse, mas ele disse: “Não sei quando volto, mas não estou triste.” Por que não estaria triste de estar longe da sua maior paixão? Seria porque ela, a sua escola, já não teria mais aquele encanto de outrora?
Na madrugada de ontem, a eternidade achou por bem que 95 anos da presença de Jamelão na Terra já foi um presente imenso para a humanidade. Mas é óbvio que ele nunca vai nos deixar completamente. A sua voz sempre estará habitando o som de quem tenha amor pela arte.
Pois ele mesmo já canta: "Sei que tu vais chorar, mas minha ausência não será o fim..."


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