http://www.youtube.com/watch?v=PIuCboy6kjk
Qualquer palavra seria insuficiente para descrever coisa tão linda.
http://www.youtube.com/watch?v=PIuCboy6kjk
Qualquer palavra seria insuficiente para descrever coisa tão linda.

Existem duas coisas que não faltam em Vitória: bandas de hardcore e poetas.
Na grande maioria das vezes, tanto um quanto o outro são de péssima qualidade por aqui (se é que é possível o hardcore ter qualidade em algum lugar da esfera terrestre). No entanto, no tocante à poesia, existem alguns talentos preciosos como Reinaldo Santos Neves. Poeta antigo, no alto de seus 60 anos, e que se tivesse nascido em São Paulo ou no Rio de Janeiro certamente teria um destaque maior.
POEMA DE AMOR – DE QUÊ? DE AMOR. – AH, É?
(Reinaldo Santos Neves)
Não me canso de ler você, reler,
querida dos meus olhos, leitura amada:
teu corpo supino, amor, descalço,
deitado sobre o leito do poema,
é um corpo imóvel, é um corpo em coma,
posto em relevo na planície do momento,
e eu leitor, eleito, lendo, lento,
faço da leitura amado culto.
Teu corpo é meio-dia noite adentro:
na mão um figo, amado figo,
no peito um bico, e o cabelo
descalço e pétalas. E o corpo
navegável, e no leito desse rio imóvel,
desse rio em coma, desce o poema
descendo feito barco, escrito e lido,
desde as portas de janeiro
às janelas comportadas desta página.
Se durmo, sonho, e no leito do meu sonho
eu deito âncora. E o mesmo sonho, descalço,
é a minha escrita: teu corpo dorme, amor,
na longitude do meu nome,
e eu vigio em ti o sono dos cabelos:
mas há um figo acordado em tua mão
e um poema que dorme em minha cabeça.
É um sonho imóvel, um sonho em coma,
até que um beijo meu o abre ao meio
e nos desperta: e na despetala
eu volto a mim, eu volto a ti,
e nas vias navegáveis do meu sangue
não caibo em mim de tão amante.
Peço-te então o corpo em casamento,
aos joelhos de abril, no amor em dobro.
Dizes que sim. Em ornamento
fazemos amor a quatro mãos, e o figo
dança descalço ao som dos dedos musicais,
até ficar imóvel para que eu o coma.
Depois é ingenudez, em pétala,
é a estátua nua, que flutua, lida,
à tona do poema, ritmada, enquanto
escrevo no teu corpo, água potável,
as sílabas dos meus beijos,
que a parede –
que a parede lê com seus ouvidos.