Pensamentos mais-que-imperfeitos!


03/02/2007


Dona Ivone!

Nada como um samba em uma noite de sábado. Mesmo quando você não vai, ele vem até você. Sendo assim, hoje vou fazer um "pout-pourri" e colocar  três músicas da primeira-dama do samba, Dona Ivone Lara.  Os sambas são "Acreditar", "Sonho meu" e "Minha verdade". Os três foram fruto de uma parceria com Délcio Carvalho. Essenciais em qualquer roda de samba.

A benção, Dona Ivone!

 

Acreditar

 

Acreditar, eu não
Recomeçar, jamais
A vida foi em frente
E você simplesmente não viu que ficou pra trás

 

Não sei se você me enganou
Pois quando você tropeçou
Não viu o tempo que passou
Não viu que ele me carregava
E a saudade lhe entregava
O aval da imensa dor

 

E eu que agora moro nos braços da paz
Ignoro o passado
Que hoje você me traz
E eu que agora moro nos braços da paz
Ignoro o passado
Que hoje você me traz


 

Sonho meu

 

Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu
Vai mostrar esta saudade, sonho meu
Com a sua liberdade, sonho meu
No meu céu a estrela-guia se perdeu
A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meu


 

Sinto o canto da noite na boca do vento
Fazer a dança das flores no meu pensamento
Traz a pureza de um samba
Sentido, marcado de mágoas de amor
Um samba que mexe o corpo da gente
E o vento vadio embalando a flor


 

Minha Verdade

 
E eu tenho a minha verdade
Fruto de tanta maldade que já conheci
Me deixa caminhar a minha vida
Livremente
O que desejo é pouco
Pois não duro eternamente
Nada poderá me afastar do que eu sou
Amor, é o meu ambiente
Nada poderá me afastar do que eu sou
Me deixa, por favor

 


Do bom samba sou escravo
Seu fascínio me apertou
Traçou-me este destino
E meu sonho menino se concretizou
Deixe-me agora sonhar
Seguir sem pensar numa desilusão
Que o amor simplesmente
Se faça presente no meu coração

 


Eu tenho
E eu tenho a minha verdade
Fruto de tanta maldade que já conheci
Me deixa caminhar a minha vida
Livremente
O que desejo é pouco
Pois não duro eternamente
E nada poderá me afastar do que eu sou
Amor é o meu ambiente
Nada poderá me afastar do que eu sou
Me deixa, por favor

 

Escrito por Dostuc às 21h30
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30/01/2007


Alegria!

Para ser feliz, é muito simples. E existem muitas coisas simples. Dentre elas, é estar em uma festa, e dançar "Banho de Cheiro" e "Coração Bobo", mesmo sem saber dançar. E depois constatar que horas depois, a músicas ainda não saíram da sua cabeça. A ponto de você ter que postá-las em seu blog.

 

 

Banho de Cheiro
(Carlos Fernando & Elba Ramalho)

 

Eu quero um banho de cheiro 
 
Eu quero um banho de lua 
 
Eu quero navegar 
 
Eu quero uma menina 
 
Que me ensine noite e dia 
 
O valor do beabá 
 
O beabá dos teus olhos 
 
Morena bonita 
 
Da boca do rio 
 
O beabá das narinas do rei 
 
O beabá da Bahia 
 
Sangrando alegria 
 
Magia, magia dos filhos de Gandhi 
 
O beabá dos baianos 
 
Que charme bonito 
 
Foi o santo que deu 
 
O beabá do Senhor do Bonfim 
 
O beabá do sertão 
 
Sem chover, sem colher, sem comer, sem lazer 
 
O beabá do Brasil 

 

 

Coração Bobo
(Alceu Valença)


 

Meu coração tá batendo

 

Como quem diz não tem jeito

 

Zabumba, bumba esquisito

 

Batendo dentro do peito

 

Teu coração tá batendo

 

Como quem diz não tem jeito

 

O coração dos aflitos

 

Pipoca dentro do peito

 

Coração bobo, coração bola

 

Coração balão, coração São João

 

A gente se ilude dizendo

 

Já não há mais coração

Escrito por Dostuc às 19h17
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Tira do Adão

Escrito por Dostuc às 18h43
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29/01/2007


Poesias

Hoje eu iria escrever sobre o "BBB", mas acabei sendo dissuadido. É, não vou perder tempo escrevendo o que qualquer pesssoa de bom senso já sabe de antemão. Não vou falar de coisas ruins agora.

Então, para adocicar mais esta doce vida, colocarei duas poesias. Uma é da charmosa Hilda Hilst. E a outra é de um poeta da minha terra, Vitória, que se chama Miguel Marvilla. Poesia para viver, sempre.

 

PRELÚDIOS-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR.
(Hilda Hilst)
 

I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca

Austera. Toma-me AGORA, ANTES

Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes

Da morte, amor, da minha morte, toma-me

Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute

Em cadência minha escura agonia.

 

 

Tempo do corpo este tempo, da fome

Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,

Um sol de diamante alimentando o ventre,

O leite da tua carne, a minha

Fugidia.

E sobre nós este tempo futuro urdindo

Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida

A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

 

 

Te descobres vivo sob um jogo novo.

Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,

Antes do muro, antes da terra, devo

Devo gritar a minha palavra, uma encantada

Ilharga

Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar

Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo

Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

 

 

II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.

O fundo sortilégio da omoplata.

Matéria-menina a tua fronte e eu

Madurez, ausência nos teus claros

Guardados.

 

 

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.

Esta fronte que é minha, prodigiosa

De núpcias e caminho

É tão diversa da tua fronte descuidada.

 

 

Tateio. E a um só tempo vivo

E vou morrendo. Entre terra e água

Meu existir anfíbio. Passeia

Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:

Noturno girassol. Rama secreta.

 

A Ausência dela

(Miguel Marvilla)

 

 

A ausência dela se abate sobre a cidade,
como as estações do ano ou uma chuva impiedosa e constante.
É um tempo, este, de funcionários e galochas.

 

No átrio da catedral gótica das lembranças,
o nome dela erige-se em espelhos
e se repete, ad infinitum,
pousado sobre um futuro de pó e nunca mais.

 

 

Algumas vezes o esquecimento se esquece de quem é
e pensa recolher em outra um gesto de folhear livro,
uma forma de olhar para o dia com embriaguez,
o ouro das palavras - que eram atributo e privilégio dela.

 

Mas não.
Tudo que há é uma hora abandonada
a um canto do silêncio.
Tudo que há é a impossibilidade,
uns ermos de chumbo,
encimando a constância irremovível do vazio.

 

Anda-se lentamente.
Voa-se lentamente.
Morre-se lentamente.
Até os acasos ocorrem lentamente.

 

Não é à toa:
a presença dela fazia a vida vertiginosa,
a presença dela não se atravessava a pé,
a presença dela estilhaçava o normal e o cotidiano,
a presença dela era teatro de uma guerra
feita com espadas de olhares
e armaduras de algodão.

 

Mas se estabeleceu um momento em que todas as coisas
são a ausência dela.

 

A ausência dela se alastra, incontida, pelo planeta.

 

Eu preciso aprender a ser outro
para suportar.

 

Escrito por Dostuc às 19h18
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