
A música nem sempre tem que tratar de um universo paralelo, irrealizável, como uma simples manifestação da beleza. Por várias vezes ela se caracteriza por ter em seu bojo a escrita da história. Muitas pessoas ao ouvirem o antológico álbum de Chico Buarque e Maria Bethânia ao vivo, podem não entender porque existe uma faixa denominada "Tanto mar", em que a música é simplesmente instrumental. Este silêncio das vozes quer dizer muito na história.
Em 1974, Portugal estava desgastado por uma ditadura que completava quase 50 anos. Supressão de liberdades, perseguições, mortes, eram a marca característica da ditadura de Caetano que esmagava consciências portuguesas. Além disso, a crise econômica estava instalada pelas esfacelantes guerras coloniais, em que Portugal reprimia guerras de libertação por parte de suas colônias africanas.
Toda esta soma de fatores veio a culminar em um descontentamento geral da população, e de grande parte dos militares.
Nos primeiros minutos de 25 de Abril de 1974, uma música proibida de Zé Afonso, o Geraldo Vandré dos gajos, foi executada na Rádio Renascença. Era assim a sua letra:
Grândola, Vila Morena
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Este claro canto crítico, foi o sinal para que os oficiais iniciassem operações de ocupações de pontos estratégicos. Era o início da derrocada do regime ditatorial.
A população prontamente apoiou o movimento, criando frentes populares. A ditadura salazarista, que sobreviveu ao próprio Salazár, que havia morrido 4 anos antes, foi derrubada no mesmo 25 de abril de 1974.
Os portugueses relatam que foi uma linda festa, com milhares de pessoas cantando, chorando, gritando nas ruas, felizes com o fim de décadas de repressão. Um fato ficou marcado em todo este movimento, e que se tornou o seu símbolo: todas as pessoas carregavam cravos nas mãos, formando um grande jardim humano desta flor.
O que se seguiu foi um período de instabilidade política, mas de profundas mudanças sociais, com distribuição de terras, estatização de setores estratégicos, descolonização, e liberdade.
Chico Buarque, que vivia em um Brasil que sofria repressão semelhante à que o povo português sofria anteriormente à revolução, celebrou em "Tanto Mar" este período:
Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo pra mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também que é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
Esta música foi completamente vedada pelos militares brasileiros que, por sinal, acolheram deposto o general Caetano em nosso país. Eis, toda a razão do silêncio expresso em "Tanto Mar", no álbum com Bethânia. A música, em sua versão integral, só veio a ser exibida em Portugal.
Após este período de euforia em Portugal,as reformas se arrefeceram,e as mudanças diminuíram. O fracasso de uma tentativa de golpe de oficiais de extrema esquerda, em novembro de 1975, deu cabo ao período revolucionário. Contudo, a democracia permaneceu.
Chico Buarque, então, fez uma nova versão para a canção "Tanto Mar", que assim dizia:
Foi bonita a festa, pá
fiquei contente
'inda guardo renitente, um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
mas, certamente
esqueceram uma semente nalgum canto de jardim
Sei que há leguas a nos separar
tanto mar, tanto mar
Sei também como é preciso, pá
navegar, navegar
Canta a Primavera, pá
cá estou carente
manda novamente algum cheirinho de alecrim
Esta versão é a mais conhecida. É verdade que, anos após, a nossa Ditadura também foi derrubada. Mas nunca floresceu a nossa Primavera. Falta a Primavera em nossa História. Com as "Diretas já!", veio Collor. Com os "caras pintadas" pelo impeachment de Collor, veio FHC. Com a eleição de Lula, veio o Lula.
A música de Chico é mais que atual. E ainda dizemos aos gajos: "cá estou carente
manda novamente algum cheirinho de alecrim...".
E, em um silêncio semelhante ao que Chico expressou a sua música, tentamos plantar alguma semente para uma Primavera vindoura. Quem sabe.