
Uma das mais conhecidas composições de Noel Rosa é aquela que diz: "Quando o apito/Da fábrica de tecidos/Vem ferir os meus ouvidos/Eu me lembro de você". É uma música que, todo o santo dia, está em minha playlist. Considero-a de uma simplicidade perfeita, daquelas que só aos grandes poetas é permitido ter. Minha admiração por ela cresceu mais ainda quando tomei conhecimento de todo o contexto que ensejou o nascimento desta canção.
Noel Rosa, quando era um estudante de Medicina, nos tempos idos de 1931, tinha o seu coração compartilhado em dois terrenos. Um pertencia a Clarinha, sua vizinha, queridinha da mãe de Noel. Ele já estava namorando com a moça há quatro anos. Clarinha nutria a séria desconfiança que estava sendo "enrolada", e começava a cobrar um casamento. A outra parte do latifúndio pertencia a Josefina. Esta última não era daquelas que cobravam uma definição, era mais liberal neste sentido. Mulher dos sonhos de todo o homem? Qual nada! Josefina era patologicamente ciumenta, e cobrava explicações constantes das estripulias de Noel. No fundo, Noel gostava mais de Josefina.
Certo dia, a mãe de Josefina resolveu colocá-la junto com sua irmã, Bazinha, para trabalhar em fábricas no Andaraí. Josefina começou a trabalhar em uma indústria de botões, intitulada "Hachiya". Bazinha, por sua vez, começou a trabalhar em uma fábrica de tecidos, denominada "América Fabril".
Josefina ficou envergonhada deste seu novo emprego, e pediu para seus familiares não revelarem ao seu amado Noel onde trabalhava. Sem contar que a moça gostava de se sentir livre, e não queria a marcação cerrada de Noel em seu ambiente de trabalho. No entanto, Noel não seria despistado. Logo ficou sabendo que ela trabalhava no Andaraí, todavia, não sabia onde. Além disso, comprou um veículo justamente para poder se deslocar com facilidade da Vila Isabel até o Andaraí, e vigiar a sua querida.
A forma de aquisição do veículo, por parte de Noel, foi mais interessante ainda. Como ele não tinha dinheiro, propôs ao seu amigo Francisco Alves, cantor e agenciador de veículos, que lhe entregaria sambas como forma de pagamento. Proposta prontamente aceita por Francisco Alves, que necessitava de boas canções para prosseguir com a carreira.
Noel, de posse de seu veículo que apelidou "Viramundo", começou assim a circular pelo Andaraí, em busca de sua amada. Certo dia, finalmente viu Josefina no meio da multidão, correndo com uma marmita embaixo do braço, e entrando na fábrica de tecidos "América Fabril". Sem saber que a irmã de Josefina, Bazinha, que trabalhava na fábrica, Noel concluiu que a sua amada estava trabalhando na famosa fábrica de tecidos. Já não adiantava esclarecimentos. Todos os dias Noel batia ponto em frente à fábrica, no fim do expediente.
Outra confusão que Noel fez foi achar que era aquela fábrica que emitia os famosos silvos matinais que ecoavam até sua residência, em Vila Isabel. Eis a razão dos versos: "Quando o apito/Da fábrica de tecidos/Vem ferir os meus ouvidos/Eu me lembro de você". Todavia, a fábrica que emitia tais ruídos era outra, denominada "Confiança".
Noel também por muitas vezes se deparou com a sua amada indo para o trabalho com a sua irmã, às 5 da manhã (horário em que ele costumava sair da boemia), e as observava disfarçadamente. Como o trabalho das duas era simples, elas sempre iam igualmente simples para o labor, com sapatos de salto baixo, e sem meias. Fato que não passou despercebido de Noel, em uma manhã fria, que se comoveu com esta difícil jornada de sua amada, que só saía do trabalho às 17 horas. Aí reside a razão dos versos: "Você no inverno/Sem meias vai pro trabalho/Não faz fé no agasalho/Nem no frio você crê".
Com o tempo, Noel viu que Josefina não trabalhava na "América", e se indignou querendo saber de uma vez por todas onde ela trabalhava. A insistência de Noel foi tanta, que finalmente Josefina cedeu, e confessou onde. Era na Fábrica de botões "Hachiya" e não na fábrica de tecidos "América".
Agora, Noel ficava no lugar certo. Talvez fosse melhor não ficar. Pois começou a perceber que Josefina era constantemente assediada em seu trabalho por um contramestre chamado Jerônimo da Encarnação, que a cercava descaradamente com galanteios e tentativas. Josefina, por sua vez, para se livrar daquele brutamontes, sempre apontava para o lado de fora da fábrica, onde estava parado o carro de Noel em que ficava o malandro, sempre vigilante. Eis a razão dos versos: "Nos meus olhos você vê/Que eu sofro cruelmente/ Com ciúmes do gerente/Impertinente/Que dá ordens a você/ Sou do sereno/Poeta muito soturno/Vou virar guarda noturno/E você sabe por quê".
Os "Três Apitos", como já foi supracitado, se referem aos silvos proferidos por outra fábrica (Confiança) na parte da manhã. O primeiro era para acordar os operários das redondezas, o segundo marcava a hora da entrada, e o terceiro era a última chamada para os retardatários. Durante o dia, a fábrica apitava ainda mais seis vezes em outras ocasiões, como horário de almoço, saída, etc.
E assim, nasceu uma das mais belas composições de nossa música. Em meio a toda esta confusão de locais, Noel manteve as idéias iniciais com relação aos apitos, e à fábrica de tecidos. Em 1936, Noel revelou que este samba era uma síntese do "romance mais sincero de minha vida gloriosamente romântica". O poeta, na verdade, nunca deu muito valor à esta composição, pois a achava com versos muito simplórios. Mera humildade de um gênio. Por muito tempo a música permaneceu "inédita", e na voz de intérpretes que ganhou o devido reconhecimento. Aracy de Almeida, Maria Bethânia, Orlando Silva, são os que cantaram as versões mais conhecidas. Contudo, a versão que eu mais gosto, e a que ouço é, obviamente, a de Tom Jobim. A grandeza dos dois se combina.
E a Josefina? Embora Noel tenha se casado com outra mulher, chamada Lindaura, Josefina continuaria sendo a sua maior paixão. Ela está viva até hoje, no alto de seus mais de 90 anos, e é conhecida como a "Viúva de Noel Rosa". Ela também foi homenageada pelo poeta da Vila em outra música intitulada "Riso de Criança". Mas isso já é outra história...
Fiquemos agora com a letra completa de "Três Apitos":
Quando o apito
Da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê
Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina
Do meu carro?
Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você
Nos meus olhos você vê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens
A você
Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe o porquê
Mas você não sabe
É que enquanto você faz pano
Eu faço junto de um piano
Estes versos pra você


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