Hoje eu tive um sonho estranho. Neste sonho, uma voz não sei de onde me disse que eu estava no mundo politicamente correto. Eu estava com fome, e resolvi ir à padaria.
Ao sair de casa, achei coisas diferentes. Homens vestidos com calças baixas, camisas rasgadas apertadas, cabelos com luzes, usando batom, maquiagem, unhas pintadas, andando com delicadeza. Mulheres com jeitos bruscos, usando bermudas, bonés, coçando até o que não tinham. Pude perceber que só existiam casais homossexuais. Nunca tive nada contra, mesmo. No entanto, eu fui olhado com desconfiança e chacota por ser o único heterossexual. Pude perceber as pessoas atrás de mim imitando o meu jeito de andar, os meus modos.
Quando cheguei à padaria, pedi primeiro um cigarro Malboro. Fui visto como um criminoso, facínora. Só vendiam cigarros de maconha.
Eu estava com fome, e fui tentar comprar uma coxinha. A atendente logo me reprovou:
"Nós não vendemos coxinha, pois a produção de uma coxinha exige frango e matar frangos causa-lhes sofrimento assim como matar seres humanos".
Pacificamente, pedi um X-Bacon. Mais furiosa ainda ela respondeu:
"Será que você não entende o sofrimento dos animais, seu assassino! Você quer que eu sacrifique bois, frangos, porcos indefesos, para satisfazer seus desejos egoísticos?"
Tentei argumentar que eu estava apenas com fome, querendo comer algo. Ela disse que no cardápio só tinha agrião, alface e picles. Nunca tive espírito de vaca para comer mato.
Saí da padaria e tentei ir em outra localidade para ver se achava algo consistente para comer, no entanto, todas as do bairro eram iguais. No Centro deveriam ter várias lanchonetes. Eu teria que pegar um ônibus, ou táxi, já que não tinha encontrado meu carro. Aliás, que estranho, eu não tinha visto nenhum veículo até então. Nisso, perguntei a um dos transeuntes:
"Por favor, você pode me informar onde fica o ponto de ônibus?"
Escandalizado ele me respondeu:
"Ônibus?? Você está louco? Quer contribuir para o aumento do rombo na camada de ozônio??"
"Mas...mas...como eu faço para chegar até o Centro então?"
"Oras, pegue uma bicicleta. Pedalando, em 5 horas você chega lá."
Ah, deixa pra lá. Eu não estava com tanta fome mesmo. Resolvi ir na Biblioteca da Universidade, que tinha nas proximidades, para ler algo. Ao chegar na entrada, prontamente fui barrado por três guardas:
"Parado aí, mocinho branco!"
"Mas, como assim? O que eu fiz?"
"Ah, não sabe? Não sabe que é terminantemente proibida a entrada de branquelos nas instituições de ensino? Só aceitamos índios, negros e asiáticos."
"Mas, como? Eu só quero ler na biblioteca..."
"Ler? É assim que vocês começam. Hoje querem ler, amanhã querem fazer vestibular. Fora! Suma daqui! Foram milhares de anos de exploração, e vocês terão que pagar esta dívida histórica!"
"Mas que dívida? Eu nunca desrespeitei ninguém..."
Fui prontamente enxotado do local. Ao sair de lá, fui assaltado e cruelmente agredido, por um homem que me pegou ainda perplexo diante de toda a situação que havia passado até então. Para minha sorte, vi passando uma autoridade policial, e logo avisei:
"Socorro, fui assaltado por aquele marginal!"
Nisso, o policial me falou:
"Meu amigo, você foi assaltado por uma pessoa desprovida do significado de dignidade de pessoa humana. Não lhe inflija mais sofrimentos, com sua conduta patrimonialista, individualista, elitista."
"Mas, como? Ele acabou de me dar uma coronhada na cabeça e ainda roubou meu relógio!"
"Você ainda está preso àqueles tempos em que existia policia militar. Não sabe que nos novos tempos a comissão de direitos humanos que toma conta da segurança pública? Estamos em nova era, meu amigo!"
Quando tínhamos este diálogo, o mesmo marginal assaltou uma senhora, que teve o desplante de reagir, sendo fuzilada em via pública. A autoridade policial imediantamente se dirigiu até o assassino, lhe algemou e me chamou:
"Venha comigo, você será testemunha"
Ao chegarmos na delegacia, vi o Delegado espancando um infeliz, e gritando que ele estava condenado à morte. Ao perguntar a um dos ali presentes o que ele tinha feito, recebi a seguinte resposta:
"Este vagabundo matou um mico-leão-da-cara-roxa, vê se pode! Vai ser condenado à morte, assim como o vagabundo que passou aqui anteriormente, preso em flagrante por ter matado uma tartaruga!"
Neste caso, fiquei até com pena de pensar o que aconteceria com o marginal conduzido que havia matado uma inocente senhora. Por fim, o policial que empreendeu a prisão deste meliante relatou ao Delegado o que aconteceu. Imediantamente, o Delegado cessou as agressões ao criminoso anterior, ficou sério, e mandou chamar o que havia acabado de chegar. Logo perguntou:
"Por que você atirou na mulher?"
O meliante argumentou:
"Ah, matei porque ela demorou muito a entregar o dinheiro, e ainda tentou reagir, a velha safada! Mato mesmo!"
Nisso, o Delegado respondeu olhando para todos:
"A frieza deste cidadão, certamente reflete a sua infância eivada de tristezas e amarguras, infância esta que o fez perder os sentimentos e o amor à humanidade. Não devemos condená-lo, devemos ajudá-lo. Por favor escrivão, faça uma solicitação de um emprego a este cidadão, e arranje um apartamento digno, de três quartos para ele estabelecer sua moradia."
E o assaltante disse:
"Quero pedir algo."
"Diga, meu filho." Falou o delegado.
"Eu quero um apartamento no primeiro andar, pois detesto subir escadas."
"Ok. Sua solicitação será atendida."
Praticamente não acreditando no que tinha visto,saí de lá, e achei um bar na esquina. Sentei,pedi uma cerveja para beber, e o dono do bar me disse que cerveja não existia mais, por provocar câncer no esôfago, nos pulmões, nos lábios, questionando como eu poderia ser tão ignorante no assunto. Por fim, disse que só vendiam água gaseificada. Resolvi não pedir nada. Apenas estava olhando, na televisão do bar, uma reportagem sobre o domínio da China no mundo, e o bombardeio aos Estados Unidos por todos os países. A reportagem tinha um tom triunfante, dando um sentido que com a derrota americana o mal estava extirpardo do mundo. O bombardeio era exibido com orgulho, corpos de mulheres, homens e crianças estraçalhados, e o dono do bar comentou comigo:
"Vagabundos, tiveram o que mereciam!"
Levantei-me do bar, meio enojado e resolvi procurar uma Igreja, para pedir a Nossa Senhora por minha vida. No entanto, só encontrava mesquitas islâmicas. Ao perguntar sobre onde havia uma Igreja Católica, apenas recebia respostas:
"Hahahahahahaha....Jesus Cristo nunca existiu, seu idiota! O Cristianismo foi proibido por pregar mentiras. Mas, você pode escolher outras religiões como o Budismo, o Islamismo, o Candomblé..."
Diante de toda esta pressão, senti a necessidade de me suicidar. No entanto, resolvi escrever uma carta com repúdio a tudo o que tinha visto. Contudo, eu estava sem papel e caneta. Entrei em uma loja para comprar. Ao pedir um caderno, recebi uma resposta escandalosa:
"Seu monstro!! Será que você não atenta para o desmatamento nas florestas seu alienado, doente, egoísta??? Não vendemos cadernos!! Você deveria ser preso por pedir isso"