Pensamentos mais-que-imperfeitos!


26/08/2006


A despedida de Tevez

É verdade, fiquei furioso com a saída de Carlitos Tevez e seu "abandono" ao clube. Mas, após minha cabeça esfriar, pude ver que realmente poucos jogadores que passaram pelo Corinthians encarnaram tão vivamente o espírito corintiano. Nunca vou me esquecer daquela quarta-feira em que ele jogava pela seleção da Argentina contra o Uruguai, e na quinta, menos de 20h depois do jogo, já estava em campo pelo Corinthians, na vitória contra o Santos. Quando perguntaram como ele agüentou, Carlitos disse: "Não joguei com as pernas, e sim com o coração".

 

Mas, não há muito o que dizer. Não entrarei em discussões sobre quem está certo e quem está errado. Deixarei que o Doutor Sócrates, outro grande herói da Fiel torcida, se manifeste sobre o tema (coluna abaixo).

 

Sucesso, Tevez.  Mas, acima de tudo, que vença o Corinthians!

 

 

 

 ADEUS, CARLITOS

(Sócrates)


Nem todos conseguem conviver com a prepotência e a arrogância. A postura do herói talvez não venha a ser entendida, mas pode e deve ser respeitada

 

Durante alguns meses, criou-se uma lenda até com certa razão e com auxílio do criador de que ele era infalível e que suas apresentações deveriam espelhar algo extraordinário. A presença imponente destacava-se sobre a imensidão e a sua confiança e conduta reforçavam todas as teses de sua tremenda capacitação. Da altura de um Davi, porém, ele se transformava ao ter de enfrentar os inúmeros Golias que se lhe apresentavam, tornando-os meros coadjuvantes. Fabuloso, realizava façanhas que poucos tinham visto. Em torno dele os espaços tornavam-se maiúsculos e lhe propiciavam grandes e oportunas ações. Grandioso entre seus pares desfilava como um Midas a dourar quaisquer objetos e embelezava as molduras esportivas. Poderoso, jamais se permitia um gesto de insegurança e transmitia uma carismática e engenhosa postura. Portentoso, chegou a reforçar a tese de que o impossível sempre acontece.

Prodigioso, vestiu-se de rei e se pôs a representar um plebeu que em um golpe se fez servo de Deus e com ele se associou para pintar de metáforas as cores da vida. Excelente foi e espetaculares desempenhos apresentou, salvando a pátria em tantas ocasiões, rimou perfeito com eleito e uma unanimidade se instalou à sua volta. Até mesmo o dramaturgo Nelson Rodrigues aceitaria a idéia de que ela, a unanimidade, aqui não poderia ser burra. Genial e pouco genioso, calma e pacientemente se colocou onde pretendia, tornando-se responsável temporariamente pelo bem-estar da nação. Formidável atleta destacava-se entre tantos por seu trabalho, sua conduta altiva e sua postura especial. Sem exagero diria que, historicamente, jamais havia presenciado tamanho fervor por um estrangeiro nesta terra adubada de estrelas nativas.

Seus pés preciosos como por necessidade utilizavam discretos calçados para preservar a lisura e a ternura que estavam eternamente estampadas em sua expressão mais conhecida, ainda que transfigurada por um acidente, como se fossem extensões definitivas e sem rasuras de sua alma. Este estado de bem-estar e de satisfação prolongou-se por um longo tempo, quase eternizando sua relação com o público, nem sempre fiel. Lembro-me de vários episódios, ainda latentes em minha mente e até por culpa de uma proximidade inescapável, ocorridos nos inesquecíveis jogos em que empurrou a sua equipe a conquistar o Campeonato Brasileiro do ano passado. Em particular nas cobranças de pênalti, situação em que o grande líder é instado a comparecer sem contestação, que, invariavelmente, eram acompanhadas de expressões de absoluta confiança por seus seguidores.

Nesse momento único de um espetáculo de futebol, que normalmente tem vocação coletiva, em que a ação individual é definitivamente a responsável pelo resultado, conseguiu vários feitos extraordinários no conteúdo e principalmente por terem acontecido em ocasiões especiais. Destacava-se pela gana e vontade quando desfilava pelos gramados como que a presentear a tudo e a todos, principalmente a sua torcida, que sempre declara amor aos que dessa forma se comportam. Eis, porém, que surgiu um inimigo mortal que imediatamente passou a incomodá-lo com suas opiniões e atitudes, e nosso herói se deixou abater, passando seriamente a pensar em se afastar daquele meio e principalmente daquela situação.

O período de mais de um ano em que chegou a fazer milagres, como se fosse algo tão normal para ele e que durante o qual foi visto e tratado quase como uma divindade, pouco valeu para a dramática decisão. Podemos dizer que, infelizmente, ele reagiu da forma mais humana possível, pois nem todos conseguem conviver com a arrogância e a prepotência sem que de alguma forma se sintam impelidos a reagir veementemente. Particularmente, quem durante todo esse processo sofreu com as pressões dos que os acompanhavam e que jamais fugiu da responsabilidade. Aqui entra a questão do mérito que deve incontestavelmente servir como referência para qualquer decisão a ser tomada por qualquer comandante. Quando ele não se faz presente, provoca uma onda de insatisfação em seus subordinados difícil de ser contida.

E o nosso herói, até porque possui uma independência que seus companheiros ainda não adquiriram, resolveu abandonar o barco que já se mostra à deriva há algum tempo, e que provavelmente enfrentará ainda grandes tempestades, e voltou para o útero que sempre o protegeu. A sua postura talvez não venha a ser entendida, mas pode e deve ser respeitada. Adeus, Tevez.

 

 

Escrito por Dostuc às 10h06
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23/08/2006


Um pouco de João...

“Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa – a inteira – cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas agente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse

norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel...”

 

(Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”)

 

 

Escrito por Dostuc às 20h09
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22/08/2006


Adão é o cara

Eu não sei se eu sou bobo demais, mas ri muito com esta charge. Ainda mais por pressupor que o Manuel estava tentando vender este tipo de CD no Brasil, a terra das Lacraias, dos Serginhos, dos Latinos, dos Brunos e dos Marrones.

 

Bach, Chopin e Cia. não são páreos para tais artistas.

 

 

 

 

 

 

Escrito por Dostuc às 22h49
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21/08/2006


Leis mais duras? Conversa fiada...

É interessante, mesmo para quem não goste de Direito, dar uma lida nesta matéria que coloco abaixo, do site "Última Instância", e entender que reduzir a violência não passa por leis mais duras.

Sempre considerei falácia misturada com oportunismo o discurso daqueles que defendem diminuição da maioridade penal, pena de morte, etc. A "Lei de Crimes Hediondos" foi elaborada em um clamor social semelhante ao que vivemos. E vejam os seus brilhantes e efetivos resultados:

 

 

Estudo do Ilanud revela que Lei de Crimes Hediondos não reduziu criminalidade
 
(Camilo Toscano)

 

Desde a promulgação da Lei de Crimes Hediondos, em 25 de julho de 1990, a população carcerária no Brasil sofreu significativo aumento, e os índices de criminalidade também experimentaram elevação. A nova legislação, aprovada com o objetivo de combater os crimes hediondos, não teve impacto nos índices de criminalidade, colaborou para agravar o problema da superpopulação carcerária e revelou que, mais uma vez, o processo de elaboração de leis não passou por um debate profundo e consistente sobre como combater a violência crescente no país.

 

As conclusões fazem parte de estudo elaborado pelo Ilanud (Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente), apresentado nesta segunda-feira (21/8) no simpósio “Segurança, Justiça e Criminalidade”, promovido pela AASP (Associação dos Advogados de São Paulo). A pesquisa, à qual Última Instância teve acesso com exclusividade, ocupa 70 páginas da revista “Ultima Ratio” e foi realizada sob a coordenação geral de Isabel Figueiredo, que orientou uma equipe de 12 pesquisadores (entre supervisores, colaboradores e estagiários).

 

Elaborada a partir de dados de 1990 a 2003, sobre os índices de violência dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul e sobre a população carcerária brasileira, a pesquisa aponta para uma velha questão sobre a criminalidade: adotar uma legislação penal mais dura no Brasil é um caminho para reduzir a violência? As conclusões do estudo aquecem ainda mais esse debate, ao indicar que o endurecimento a lei não inibe a prática do crime, que deve ser enfrentada por meio de políticas criminais mais conseqüentes.

 

O estudo
A Lei 8.072/90, conhecida como Lei dos Crimes Hediondos, estabeleceu que os crimes de estupro, atentado violento ao pudor, homicídio, seqüestro, latrocínio e tráfico deveriam ser considerados hediondos, punidos com maior rigor, e para os quais não haveria progressão de regime —decisão recente do STF (Supremo Tribunal Federal) considerou inconstitucional esse ponto da lei.

 

Assim, ao realizar o estudo, o Ilanud procurou medir o impacto da lei nos índices de criminalidade e no sistema penitenciário, para saber se a lei atingiu seu objetivo. Mas a pesquisa também abordou rapidamente a questão das facções criminosas dentro dos presídios —como o PCC (Primeiro Comando da Capital).

 

Utilizando os dados reais de 1990 a 2003, os pesquisadores traçaram a evolução anual dos índices dos crimes hediondos previstos na Lei 8.072, que entrou em vigor em 1990. Além disso, também fizeram uma projeção do número desses mesmos crimes usando como referência os dados existentes de 1984 a 1994 —referentes ao período anterior à nova lei e até um pouco depois da sua promulgação.

 

A idéia da projeção foi comparar o resultado obtido na evolução dos índices com o que aconteceria caso a Lei dos Crimes Hediondos não tivesse sido sancionada. A comparação revelou que a nova lei não reduziu a ocorrência de crimes desse tipo, já que a projeção sempre esteve próxima dos dados reais. Ou seja, estatisticamente comprovou-se que a lei não tem relação com a ocorrência de crimes hediondos.

 

Entrevistas
Como parte da metodologia da pesquisa, foram realizadas entrevistas com presos por crimes hediondos e com funcionários de alguns presídios. As entrevistas também apontaram para o mesmo sentido: o endurecimento da lei não gera diminuição da criminalidade.

 

“Na hora do crime é uma cegueira tão terrível (...) que a gente não se importa com sua vida (...). A gente só vai tomar conta do que aconteceu depois que ela [a hora do crime] passa. Aí vem o arrependimento. Aí vem a angústia. Aí vem a vontade de parar. Aí vem a vontade de não praticar nunca mais...e é aí que a gente vai aprendendo a dar valor na vida da gente e na vida do próximo”, diz trecho de entrevista realizada com um homem de 38 anos, preso por crime não hediondo.

 

A pesquisa do Ilanud também identificou um aumento na população carcerária a partir da promulgação da Lei 8.072/90. Em sua conclusão, o estudo aponta para a necessidade de se adotar no país “uma postura mais conseqüente na formulação de políticas criminais”. “Acreditamos que este momento de questionamento acerca da constitucionalidade da Lei de Crimes Hediondos seja bastante oportuno para o enfrentamento de tal questão”, afirmam os pesquisadores no final da pesquisa.


 

Escrito por Dostuc às 23h43
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Nietzsche e a amizade

Deixo este trecho do “Zaratustra” para Vanessa, esta “estrela do oriente nestes mares do sul”, querida amiga que comprova o quão errado Nietzsche estava ao dizer que as mulheres não estão preparadas para a amizade. Até Nietzsche se engana. Eu também. Mas só de vez em quando, em ambos os casos.

 

DO AMIGO

“Um só me assedia sempre excessivamente (assim pensa o solitário). Um sempre acaba por fazer dois!”

Eu e Mim estão sempre em conversações incessantes. Como se poderia suportar isto se não houvesse um amigo?

Para o solitário o amigo é sempre o terceiro; o terceiro é a válvula que impede a conservação dos outros dois de se abismarem nas profundidades.

Ai! Existem demasiadas profundidades para todos os solitários. Por isso aspiram a um amigo e à sua altura.

A nossa fé nos outros revela aquilo que desejaríamos crer em nós mesmos. O nosso desejo de um amigo é o nosso delator.

E freqüentemente, como a amizade, apenas se quer saltar por cima da inveja. E freqüentemente atacamos e criamos inimigos para ocultar que nós mesmos somos atacáveis.

“Sê ao menos meu inimigo!” — Assim, fala o verdadeiro respeito, o que se não atreve a solicitar a amizade.

Se se quiser ter um amigo, é preciso também guerrear por ele; e para guerrear é mister poder ser inimigo.

É preciso honrar no amigo o inimigo. Podes aproximar-te do teu amigo sem passar para o seu bando?

No amigo deve ver-se o melhor inimigo. Deves ser a glória do teu amigo, entregares-te a ele tal qual és? Pois é por isso que te manda para o demônio!

O que se não recata, escandaliza. “Deveis temer a mudez! Sim; se fosseis deuses, então poderíeis einvergonhar-vos dos vossos vestidos”.

Nunca te adornarás demais para o teu amigo, porque deves ser para ele uma seta e também um anelo para o Super-homem.

Já viste dormir o teu amigo para saberes como és? Qual é, então, a cara do teu amigo? É a tua própria cara num espelho tosco e imperfeito.

Já viste dormir o teu amigo? Não te assombrou o seu aspecto? Ó! meu amigo; o homem deve ser superado!

O amigo deve ser mestre na adivinhação e no silêncio: não deves querer ver tudo. O teu sono deve revelar-te o que faz o teu amigo durante a vigília.

Seja a tua compaixão uma adivinhação: é mister que, primeiro que tudo, saibas se o teu amigo quer compaixão.

Talvez em ti lhe agradem os olhos altivos e a contemplação da eternidade.

Oculte-se a compaixão com o amigo sob uma rude certeza.

Serás tu para o teu amigo ar puro e soledade, pão e medicina? Há quem não possa desatar as suas próprias cadeias, e todavia seja salvador do amigo.

És escravo? Então não podes ser amigo.

És tirano? Então não podes ter amigos.

Há demasiado tempo que se ocultavam na mulher um escravo e um tirano. Por isso a mulher ainda não é capaz de amizade; apenas conhece o amor.

No amor da mulher há injustiça e cegueira para tudo quanto não ama. E mesmo o amor, reflexo da mulher, oculta sempre, a par da luz, a surpresa, o raio da noite.

A mulher ainda não é capaz de amizade: as mulheres continuam sendo gatas e pássaros. Ou, melhor, vacas.

A mulher ainda não é capaz de amizade. Mas dizei-me vós homens: qual de vós outros é, porventura, capaz de amizade?

Ai, homens! que pobreza e avareza a da vossa alma! Quando vós outros dais a vossos amigos eu quero dar também aos meus inimigos sem me tornar mais pobre por isso.

Haja camaradagem. Haja amizade.”

Assim falava Zaratustra.

Escrito por Dostuc às 00h25
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20/08/2006


Livro de Leitura

 (Johann Wolfgang von Goethe) 

 

 

O mais singular livro dos livros

É o Livro do Amor;

Li-o com toda a atenção:

Poucas folhas de alegrias,

De dores cadernos inteiros.

Apartamento faz uma seção.

Reencontro! um breve capítulo,

Fragmentário. Volumes de mágoas

Alongados de comentários,

Infinitos, sem medida.

Ó Nisami! — mas no fim

Achaste o justo caminho;

O insolúvel, quem o resolve?

Os amantes que tornam a encontrar-se.

Escrito por Dostuc às 10h31
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