Pensamentos mais-que-imperfeitos!


24/07/2006


Crônica de Rubem Braga

Aula de Inglês

Rubem Braga


—  Is this an elephant?

Minha tendência imediata foi responder que não; mas a gente não deve se deixar levar pelo primeiro impulso. Um rápido olhar que lancei à professora bastou para ver que ela falava com seriedade, e tinha o ar de quem propõe um grave problema. Em vista disso, examinei com a maior atenção o objeto que ela me apresentava.

Não tinha nenhuma tromba visível, de onde uma pessoa leviana poderia concluir às pressas que não se tratava de um elefante. Mas se tirarmos a tromba a um elefante, nem por isso deixa ele de ser um elefante; mesmo que morra em conseqüência da brutal operação, continua a ser um elefante; continua, pois um elefante morto é, em princípio, tão elefante como qualquer outro. Refletindo nisso, lembrei-me de averiguar se aquilo tinha quatro patas, quatro grossas patas, como costumam ter os elefantes. Não tinha. Tampouco consegui descobrir o pequeno rabo que caracteriza o grande animal e que, às vezes, como já notei em um circo, ele costuma abanar com uma graça infantil.

Terminadas as minhas observações, voltei-me para a professora e disse convincentemente:

—  No, it's not!

Ela soltou um pequeno suspiro, satisfeita: a demora de minha resposta a havia deixado apreensiva. Imediatamente perguntou:

—  Is it a book?

Sorri da pergunta: tenho vivido uma parte de minha vida no meio de livros, conheço livros, lido com livros, sou capaz de distinguir um livro a primeira vista no meio de quaisquer outros objetos, sejam eles garrafas, tijolos ou cerejas maduras — sejam quais forem. Aquilo não era um livro, e mesmo supondo que houvesse livros encadernados em louça, aquilo não seria um deles: não parecia de modo algum um livro. Minha resposta demorou no máximo dois segundos:

—  No, it's not!

Tive o prazer de vê-la novamente satisfeita — mas só por alguns segundos. Aquela mulher era um desses espíritos insaciáveis que estão sempre a se propor questões, e se debruçam com uma curiosidade aflita sobre a natureza das coisas.

—  Is it a handkerchief?

Fiquei muito perturbado com essa pergunta. Para dizer a verdade, não sabia o que poderia ser um handkerchief; talvez fosse hipoteca... Não, hipoteca não. Por que haveria de ser hipoteca? Handkerchief! Era uma palavra sem a menor sombra de dúvida antipática; talvez fosse chefe de serviço ou relógio de pulso ou ainda, e muito provavelmente, enxaqueca. Fosse como fosse, respondi impávido:

—  No, it's not!

Minhas palavras soaram alto, com certa violência, pois me repugnava admitir que aquilo ou qualquer outra coisa nos meus arredores pudesse ser um handkerchief.

Ela então voltou a fazer uma pergunta. Desta vez, porém, a pergunta foi precedida de um certo olhar em que havia uma luz de malícia, uma espécie de insinuação, um longínquo toque de desafio. Sua voz era mais lenta que das outras vezes; não sou completamente ignorante em psicologia feminina, e antes dela abrir a boca eu já tinha a certeza de que se tratava de uma palavra decisiva.

—  Is it an ash-tray?

Uma grande alegria me inundou a alma. Em primeiro lugar porque eu sei o que é um ash-tray: um ash-tray é um cinzeiro. Em segundo lugar porque, fitando o objeto que ela me apresentava, notei uma extraordinária semelhança entre ele e um ash-tray.  Era um objeto de louça de forma oval, com cerca de 13 centímetros de comprimento.

As bordas eram da altura aproximada de um centímetro, e nelas havia reentrâncias curvas — duas ou três — na parte superior. Na depressão central, uma espécie de bacia delimitada por essas bordas, havia um pequeno pedaço de cigarro fumado (uma bagana) e, aqui e ali, cinzas esparsas, além de um palito de fósforos já riscado. Respondi:

—  Yes!

O que sucedeu então foi indescritível. A boa senhora teve o rosto completamente iluminado por onda de alegria; os olhos brilhavam — vitória! vitória! — e um largo sorriso desabrochou rapidamente nos lábios havia pouco franzidos pela meditação triste e inquieta.  Ergueu-se um pouco da cadeira e não se pôde impedir de estender o braço e me bater no ombro, ao mesmo tempo que exclamava, muito excitada:

—  Very well!  Very well!

Sou um homem de natural tímido, e ainda mais no lidar com mulheres. A efusão com que ela festejava minha vitória me perturbou; tive um susto, senti vergonha e muito orgulho.

Retirei-me imensamente satisfeito daquela primeira aula; andei na rua com passo firme e ao ver, na vitrine de uma loja,alguns belos cachimbos ingleses, tive mesmo a tentação de comprar um. Certamente teria entabulado uma longa conversação com o embaixador britânico, se o encontrasse naquele momento. Eu tiraria o cachimbo da boca e lhe diria:

--  It's not an ash-tray!

E ele na certa ficaria muito satisfeito por ver que eu sabia falar inglês, pois deve ser sempre agradável a um embaixador ver que sua língua natal começa a ser versada pelas pessoas de boa-fé do país junto a cujo governo é acreditado.

Maio, 1945


A crônica acima foi extraída do livro "Um pé de milho", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 33.

Escrito por Dostuc às 06h41
[ envie esta mensagem ]

23/07/2006


Sanguessugas, cabresto religioso e Raul Seixas

 

O último megaesquema de corrupção da República, denominado "Máfia das Sanguessugas", teve um destaque interessante pela grande quantidade de um certo grupo de políticos que tinham muito em comum. Este grupo é a chamada bancada evangélica.

 

Em tempos não tão remotos, na história da república brasileira, existia um fenômeno político chamado "Voto de cabresto", fruto do Coronelismo. Os eleitores, normalmente pessoas humildes, e sem vontade própria, eram impelidos a votar nos Coronéis de sua respectiva região, ou nos políticos que estes apoiavam. Por mais que a corrupção aflorasse e nenhuma melhora fosse evidente, estes eleitores por diversas vezes acreditavam em seus líderes, e seus poderes protetores extraordinários, mesmo que sequer tivessem opção de escolha.  Caso algum dissidente ousasse em divergir das orientações do Coronel, era severamente seviciado, pois o curral eleitoral jamais poderia desobedecer o seu dono.

 

Pois bem, na última década, principalmente, com o crescimento de igrejas evangélicas e suas respectivas reinvidicações para participarem da política, vemos este fenômeno se repetir, de forma mais "espiritual".

 

O pastor se candidata a um cargo, ou apóia um determinado candidato,  mostrando ao eleitor de sua igreja (normalmente pessoas humildes e sem vontade própria) que ele, ou o candidato que ele escolheu, possui todos os dons intrínsecos às divindades, podendo mudar a realidade do país.  Assim que é avaliada a qualidade política de tal candidato: simplesmente pertencer a uma denominação religiosa e ser referendado pelo pastor, ou às vezes o pastor mesmo se referenda. O eleitor, ameaçado implicitamente ( e explicitamente) de cometer o pecado da desobediência, caso tenha idéia contrária a de seu líder e, conseqüentemente com medo as agruras do inferno por pensar diferente, obedece e, de tabela, coopta outros eleitores da congregação que porventura tenham divergência na igreja a também votarem em comunhão. A violência aplicada às pessoas divergentes é psíquica. Assim, como ilustração, ao contrário de um curral, temos um pasto eleitoral, em que as ovelhas jamais podem divergir de seu pastor. Simplesmente não possuem individualidade. É o que eu denomino "cabresto religioso".

 

A "máfia das sanguessugas" mostra a verdadeira face destes que são os novos coronéis. Agora, com bíblias a tiracolo, abusando da boa-fé de pessoas desesperadas em busca de algo para se apegarem. É claro que vários e vários assaltantes de cofres públicos sequer professam alguma confissão religiosa. Mas o assustador é a falta de ética destes que vivem a falar de Deus, da moral, dos bons costumes, do sexo dentro do casamento. Quando se embrenham em tais esquemas, mostram que na verdade são cretinos que não possuem nenhum objetivo espiritual, e sim um materialismo ateísta e amoral a ponto de quererem montar os seus paraísos particulares na terra, com o dinheiro de seus fiéis e agora, com o dinheiro público.

 

Não contentes em sugar o sangue das finanças de seus fiéis,com uma sanha expansionista, buscam sugar o sangue das finanças de todo o país, ou eles mesmos locupletando o Estado pessoalmente, ou enviando seus "candidatos" para usarem a política como instrumento de privilégios particulares.

 

É claro que não responsabilizo todos os evangélicos por isto, afinal conheço vários honestos e íntegros. Condeno sim, aqueles que insistem em achar que existe alguma relação entre Religião e Política, não atentando que são dois grupos de naturezas incompatíveis.

 

Talvez, não seria má-idéia que fosse obrigatória uma disciplina no ensino fundamental, no ensino médio e no ensino superior, intitulada "Nicolau Maquiavel". Só assim, estudando os escritos do florentino desde a meninice, alguns párias entenderiam que Religião e Política não devem dividir o mesmo espaço.

 

Mas, não há esperanças. Eu não creio em melhoras. Para os que não tem estômago para isso, terão que presenciar este fenômeno se avolumando como um tumor maligno nas entranhas da República Brasileira. É apenas o princípio. Ou pensaram que o pesadelo acabou quando Garotinho morreu politicamente afogado em seus negócios ilícitos? A cada dia, ficaremos mais e mais próximos do inferno do que do céu.

 

Diante de uma conjuntura tão "aprazível", só Raul & Marcelo Nova, mesmo, para nos fazer rir desta situação.

 

 

Pastor João E A Igreja Invisivel

Composição: Raul Seixas e Marcelo Nova

 

Eu não sei se o céu ou o inferno
Qual dos dois você vai ter que encarar
E foi pra não lhe deixar no horror
Que eu vim para lhe acalmar
Se o pecado anda sempre ao seu lado
Se o demônio vive a lhe tentar
Chegou a luz no fim do seu tunel, minha filha
O meu cajado vai lhe purificar


 

Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossivel
Pastor João e a igreja invisível


 

Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossivel
Pastor João e a igreja invisível


 

Para os pobres e deseperados
E todas as almas sem lar
Vendo barato a minha nova água benta
Três prestações, qualquer um pode pagar
O sucesso da minha existência
Está ligado ao exercício da fé
Pois se ela remove montanhas
Também traz grana e um monte de mulher.


 

Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não existe impossível
Pastor João e a igreja invisível

Escrito por Dostuc às 23h53
[ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Histórico