Pensamentos mais-que-imperfeitos!


03/06/2006


Você lê Quintana ou Quitanda?

 

Tenho notado que várias pessoas, nos últimos dias, têm citado muito Mário Quintana. Várias correntes de e-mails com seus textos, várias citações em blog's, várias comunidades no orkut.

 

Confesso que não conheço muito este poeta gaúcho, só tenho um livro dele, chamado "Nova Antologia Poética" (quem quiser comprar,eis o link:http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/produto.dll/detalhe?pro_id=351600&ID=C93A91187D606011628210160).
Tampouco, quero dizer a priori, acho ruim as pessoas gostarem. Não tenho nada contra a "cultura" se difundir. Eu acho bom! Como seria bom entrar no ônibus, dizer "Bom dia" ao trocador e ele responder: "Bom dia, você viu como o novo filme do Almodóvar está fantástico?". Como seria bom ter discussões acaloradas em bares sobre quem foi maior, Tolstói ou Dostoiévski. Como seria bom se fossem feitas passaeatas, requisitando a presença de João Gilberto no Espírito Santo. Como seria bom!

 

No entanto, acredito que até que eu morra, no país onde eu vivo, isso nunca acontecerá. E é por isso mesmo que comecei a desconfiar deste gosto súbito da população por Mário Quintana.

 

A promiscuidade com o nome de Quintana beira os tempos de Sodoma e Gomorra. O que mais tem ocorrido, são falsificações grosseiras, textos piegas, assinados por Mário Quintana. Vejamos alguns exemplos.

 

O texto "Felicidade realista" atribuído ao gaúcho. Na verdade é de Martha Medeiros, que faz colunas no Terra. Vejam o link: http://almas.terra.com.br/martha/martha_08_01.htm. O texto "Promessas matrimoniais", também é mais um texto que circula, atribuído a Quintana, e também é de Martha Medeiros: http://almas.terra.com.br/martha/martha_17_02_2003.htm. A"Impontualidade do amor", também não é do Mário. É de... Martha Medeiros! http://almas.terra.com.br/martha/martha_12_05.htm.

 

Agora, vamos aos mais top's. Quem nunca ouviu a poesia, atribuída a Quintana, que tem os seguintes versos: "O segredo é não correr atrás das borboletas.É cuidar do jardim para que elas venham até você." ? Preciso dizer que não é de Mário Quintana? Ela é atribuída a Kátia Cruz. Mas, na verdade, é de D.Elhers. Ou seja, é uma falsificação da falsificação. O segredo é correr dessas borboletas.

 

Por fim, um famigerado texto. A maior farsa já criada por um(a) cretino(a) virtual anônimo, que deveria estar preso(a) na mesma cela do Mc Colibri. O texto começa dizendo: "Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra é bobagem...". Para vê-lo na íntegra, é só ir em qualquer blog fuleiro, com exceção do meu, como este aqui: http://www.paulosystemas.com/blog/?p=79. Detalhe, o camarada ainda diz "Que texto lindo do NOSSO Quintana, não?". Diz "Nosso" Como se tivesse intimidade com o poeta, ao publicar uma grosseria dessas! Sem contar os comentários que dizem coisas piores ainda como: "e este texto é muito lindo, acho que vou roubá-lo"; "Essas palavras do mestre são tudo de espetáculo, adoro-as"; "Mario Quintana sempre tem as palavras certas,para as horas exatas". Comentam com um ar doutoral, como se conversassem com Quintana no café todos os dias!

 

Isso é só um exemplo, diante de vários. Mas vamos ao texto. A frase que diz: "Você se torna eternamente responsável por tudo aquilo que cativa", é de Saint-Exupery, autor do livro "O Pequeno Príncipe", inclusive esta frase é dita neste livro.  A outra frase que diz "Quem não entende um olhar jamais entenderá uma longa explicação" é um provérbio árabe, longe de ser Quintana. Na verdade, o que fizeram neste texto foi uma Quitanda de frases esparsas e atribuíram ao pobre do Quintana, que nem está vivo para se defender.

 

É o que eu já disse em um texto que escrevi sobre Shakespeare, e se aplica também a Mário Quintana. Deixem ele em paz, coitado. É melhor, bem melhor, gostar de "Chiclete com Banana" e ler "Contigo", do que ficar distribuindo estes textos nefastos pela internet, para passar uma imagem "cult". Que mal ele fez, para ser tão chicoteado assim? Às vezes, a população parece não ter coração.

 

Abaixo, deixarei um texto de Quintana, legítimo. Podem confiar, tirarei do meu livro supracitado. A não ser que as editoras tenham entrado na "Operação Quitanda", também.

 

Por fim, para não dizer que nem só existem fãs de Quitanda e sim que existem os de Quintana, deixo aqui o agradecimento à minha querida amiga Adriana, esta sim, fanática por Quintana, e que me deu os links dos textos de Martha Medeiros atribuídos a ele. Nem tudo está perdido, afinal.


 

 

Se eu fosse um padre
(Mário Quintana)

 

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

 

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

 

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

 

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!

Escrito por Dostuc às 00h33
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28/05/2006


Guilherme de Almeida

Uma poesia de Guilherme de Almeida é alimento suficiente para o dia. Quem sabe até para a vida.

 

Esta vida


Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.


Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.


Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida


Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.


Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.


Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.


Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!


Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.

Escrito por Dostuc às 18h14
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