Uma vontade de tocar violão, se mudar para o Rio de Janeiro, e dizer para os sobreviventes: Eu quero viver toda essa época, me dêem essa chance! É o que o documentário "Coisa mais linda- História e casos da Bossa Nova", com direção de Paulo Thiago, é capaz de provocar em quem o assiste.
Conduzido, preponderantemente, por Roberto Menescal e Carlos Lyra, que participaram desse movimento musical, o documentário tem um tom de naturalidade refrescante. Parece que foi uma conversa gravada sem direção, sem diálogos pré-determinados (pois não pensem que por ser um domentário não existem ensaios, seleção de diálogos, etc).
Eles perpassam toda a história da Bossa Nova, com depoimentos de várias pessoas envolvidas, e contando a biografia dos que já se foram. Como Vinicius, Tom, Nara Leão. Dos vivos, que eu lembre, só o João Gilberto não participou dando nenhum depoimento. Não poderia ser diferente, né.
Uma parte hilária, que vale a pena registrar, é de quando Vinicius conhece Tom, no início da década de 50, quando havia uma boemia vespertina
nos bares da cidade. Em um deles, no centro da cidade, estava Vinicius de Moraes e outros intelectuais. Tom Jobim freqüentava o mesmo bar, no fim do expediente, que Vinicius, mas não o conhecia pessoalmente. Tomava cerveja, pois não tinha dinheiro para tomar uísque. Um dia, Lúcio Rangel, que conhecia os dois, resolveu apresentar Tom ao poeta, pois sabia que Vinicius estava procurando um parceiro para fazer as músicas do espetáculo "Orfeu da Conceição". Quando se conheceram, Vinicius começou a explicar para Tom o que ele queria, que ia adaptar a tragédia grega para os morros cariocas, que seria no Teatro Municipal, algo suntuoso, e blá, blá, blá. Tom ouviu Vinicius durante um certo tempo, e ao fim daquilo Vinicius perguntou se ele tinha algo a falar. E ele disse: "Tem algum dinheirinho nisso?". Vinicius caiu na gargalhada, e Lúcio Rangel, constrangido disse: "T-t-tom Jobim!Como você fala isso pro poeta? Você está diante do poeta Vinicius de Moraes!", no que Tom respondeu: "Eu sei, mas sabe como é, eu vivo correndo atrás do aluguel...".
Por fim, sobre aquela vontade de viver tudo isso, que o documentário provoca, ao mesmo tempo, ao cair na realidade, você percebe que é impossível. Só resta apreciar. E sentir saudade. Saudade é importante, em se tratando de Bossa Nova, mesmo nascendo na época errada, e não tendo vivido nada disso.
Chega de Saudade
(Tom Jobim & Vinícius de Moraes - 1956)
Chega de Saudade foi gravada pela primeira vez somente em abril de 1958 por Elisete Cardoso no LP "Canção do Amor Demais", para o selo não comercial "Festa". João Gilberto acompanhou no violão fazendo pela primeira vez o que depois seria chamado de "batida de Bossa Nova". Em agosto de 1958 foi lançado o 78 rotações de João Gilberto com Chega de Saudade de um lado e Bim Bom do outro.
Letra:
Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas, se ela voltar
Se ela voltar que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calada assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Não quero mais esse negócio
De você viver assim
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim...


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