Susana de Moraes – Produtora
Produtora, diretora e atriz, exerce várias atividades na área cinematográfica e cultural. Dirigiu seu primeiro curta, Carlos Leão, em 1974, seguido de Museu Paulista, em 1975. Foi assistente de direção de Joaquim Pedro de Andrade em O Homem do Pau Brasil e de Miguel Faria Jr. em Para Viver um Grande Amor e Stelinha. Em 1996, dirigiu o longa-metragem Mil e Uma, em que promovia o inusitado encontro imaginário entre o artista francês Marc Duchamps e uma jovem carioca chamada Alice, inspirada na célebre personagem criada por Lewis Carrol.
“Vinicius viveu a vida sem pudor”
Como surgiu a idéia de fazer um filme sobre Vinicius?
Começou com a demanda de um filme biográfico recebida por minha irmã Luciana de Moraes. Aos poucos, percebi que um formato documental deixaria muita coisa de fora. Vinicius tem uma vida e uma obra tão ricas que decidi batalhar por uma produção maior, na qual coubessem suas mil faces e muito do que se falou sobre ele: o rapaz que seguiu a diplomacia e depois se aventurou por tantas áreas – poesia, cinema, teatro, crítica – até chegar à música popular; passando pela sua fama de vagabundo e, ao mesmo tempo, de trabalhador incansável. Queria somar o criador genial, sua vida conturbada, seus vários casamentos. Conversei com o Miguel, com quem tenho uma longa relação de trabalho e amizade. O filme surgiu a partir desse encontro de idéias.
Você já havia dirigido “Vinicius de Moraes, um Rapaz de Família”. Não pensou em dirigir esse novo projeto?
De forma nenhuma. Justamente por ter feito “Um Rapaz de Família”, um registro que considero muito pessoal, eu já estava satisfeita – tinha feito o filme da intimidade de Vinicius, no qual ele se expôs com tanta generosidade. Achei que Miguel, pelo seu conhecimento da obra e do próprio Vinicius, seria a pessoa indicada para assumir o projeto. A produção ganhou uma dimensão maior com a participação da produtora espanhola Iberautor, que detém os direitos de distribuição na Europa. Conversamos muito, Miguel passou por muitas escolhas, acompanhei o processo de perto, mas achei importante que o filme tivesse uma marca autoral. Estou muito contente com o resultado, assim como minhas irmãs.
Como foram as conversas a respeito do formato do filme?
De inicio, eu defini que não queria um documentário e Miguel, por outros caminhos, optou por fazer uma ficção. Chegou a trabalhar nesse sentido, mas depois de um período concluiu que este caminho não seria viável. Não poderíamos e nem queríamos adotar um modelo de biografias hollywoodianas e chamar um Brad Pitt para o papel. Em um filme ficcional, quem interpretaria Vinicius, Tom? Durante dois anos, Miguel desenvolveu infinitas versões, possibilidades, narrativas e parcerias. Ao mesmo tempo, Miguel é amigo de Chico Buarque, Edu Lobo, entre outros parceiros de Vinicius. E foi graças a essa cumplicidade que pessoas habitualmente retraídas deram depoimentos tão amorosos, sinceros e relaxados. Miguel peneirou os depoimentos sobretudo pela emoção. O resultado é muito mais emocional do que racional.
Como você lidou com a necessidade de deixar tanta coisa de fora – músicas, poemas, depoimentos?
Sabíamos que, a não ser que fizéssemos um filme de nove horas ou uma minissérie, seria impossível contar todas as histórias, músicas e poesias de Vinicius. Optamos pela busca do essencial e por isso o filme apresenta um viés mais poético do que factual. A vida e obra de Vinicius representam um material enorme, sem falar nos depoimentos, que oferecem momentos iluminados. A fala de Ferreira Gullar sobre a vida que a gente inventa é lindíssimo. O maior desafio do filme foi justamente mostrar a complexidade de sua obra e personalidade e não deixar o folclore prevalecer sobre a sua criação. Por ser uma pessoa extremamente sedutora e fascinante, houve uma tendência a valorizar o folclore em detrimento da sua qualidade artística, apesar de seu imenso legado.
O filme expõe de forma muito natural a relação dele com as mulheres, com a bebida.
Vinicius sempre foi verdadeiro e honesto em suas decisões. Ele viveu a vida sem pudor e não cabia a nós tentar disfarçar aspectos que talvez pudessem ser considerados vexatórios, mas que também foram libertários, abriram caminhos, embora contraditórios e até dolorosos para as pessoas mais próximas. Mas foi justamente a soma de todos esses aspectos que construiu a sua trajetória e obra. E essa soma está no filme. Imagine se ele gostaria de ser embelezado, maquiado ou apresentado pelo bom comportamento?
Como você lidou com a sua inclusão no filme?
Não fico à vontade na hora de filmar, detesto me ver, mas fiquei à vontade com o resultado do filme que tem em Vinicius a sua causa maior. Também nos preocupamos em mostrar o contexto em que ele viveu, falar de transformações culturais extremamente ricas. Por mais que fosse um talento individual, as pessoas precisam de um campo para florir. Acho que o filme é muito feliz na apresentação de sua importância musical para o país, na sua evolução como letrista, e na relação ímpar que desenvolveu com tantos parceiros ao longo de sua vida.
No filme, Chico Buarque indaga qual seria o lugar de Vinicius no mundo de hoje. Como você avalia que as novas gerações receberão um filme sobre Vinicius?
De braços abertos – que foi aliás como Vinicius sempre recebeu as novas gerações – e ele abraçou muitas. O filme possibilitará que pessoas mais jovens juntem na mesma pessoa um dos maiores sonetistas da língua portuguesa, o autor da peça Orfeu da Conceição, inspiradora de um dos filmes mais famosos da história do cinema, o criador da letra de “Garota de Ipanema”, e sua evolução musical através dos movimentos mais importantes da MPB dos anos 50 aos 80, sem esquecer seu lado sacana. O filme é impregnado de emoção e humor e até de nonsense, como as conversas que teve com Baden sobre assombração.
Como filha, qual a sua explicação para o percurso tão original de Vinicius?
Ele foi um grande inventor de si mesmo. Nascido em família de pequena classe média, desenvolveu um percurso extraordinário e nunca se traiu. Alguns amigos que talvez pararam no tempo podem ter se sentido traídos quando ele abandonou a poesia canônica. É um poeta erudito, com profundo conhecimento de técnica e forma, e sua ruptura não foi um gesto impulsivo ou instintivo, mas uma evolução. Ele foi um transgressor e sua marca foi sempre dar liberdade às pessoas à sua volta. Para a família, como diz minha irmã Luciana, não foi fácil. Mas, como diz Ferreira Gullar, o que fica é a obra. O filme confirma, de inúmeras maneiras, que a obra de Vinicius ficou e ficará.
Vinicius deixou tantas frases maravilhosas. Você escolheria uma?
“A vida é uma ratoeira. Eu enfeito a ratoeira – tem que comer o queijo”. Esta frase está no meu filme Mil e Uma e a meu ver é a que mais sintetiza Vinicius.