Pensamentos mais-que-imperfeitos!


02/11/2005


Manuel Bandeira- O poeta em Botafogo

 

Álbum produzido pelo diplomata Lauro Moreira traz a voz do escritor recitando 26 criações, como "Neologismo"

DA SUCURSAL DO RIO

   Durante 38 anos, a voz de Manuel Bandeira andou por Brasília, Buenos Aires, Genebra, Washington, Barcelona e Rabat. Estava em uma fita de rolo que acompanhava as mudanças profissionais do diplomata Lauro Moreira. Agora, com o lançamento do CD "Manuel Bandeira -O Poeta em Botafogo", pode-se ouvir essa voz recitando 26 poemas.

   "Em 2003, eu era embaixador no Marrocos e resolvi pedir para uma rádio me deixar ouvir a fita. Mas estava sem esperança, porque ela tinha ficado todo esse tempo em caixas, sem um cuidado especial. Quando o técnico pôs para rodar, a voz estava lá, da mesma maneira como foi gravada em 1967", conta Moreira, 65.

   Apesar da diferença de idade, Bandeira (1886-1968) era muito amigo de Moreira e da poeta Marly de Oliveira, com quem o diplomata se casou em 1964, tendo como um dos pares de padrinhos Clarice Lispector e ele, Bandeira. Mais tarde, Marly se casaria com João Cabral de Melo Neto.

   Em uma noite de meados de 1967, depois de um jantar no apartamento de Moreira -na praia de Botafogo, no Rio, daí o título do CD-, o poeta disse que gostaria de gravar alguns poemas.

   "Ele disse que lia muito bem, e era verdade. Eu peguei na estante as "Obras Completas", e ele começou a escolher alguns poemas. E, para o CD, eu não toquei no que foi gravado. Está na ordem em que ele leu e até com alguns ruídos, como um som de buzina ao fundo, porque quis preservar a emoção daquele momento."

   Na seleção de Bandeira entraram poemas seus muito conhecidos, como "Porquinho da Índia", "Rondó do Capitão", "Última Canção do Beco", "Neologismo" e "Vou-me Embora pra Pasárgada". Também há poemas não tão famosos, como "Noturno da Mozela". Embora já estivesse com mais de 80 anos e enfraquecido por tanta luta contra problemas de saúde, como a tuberculose, Bandeira lê seus versos com vigor e clareza. Em uma espécie de lado B do CD, Moreira recita outras 25 criações de Bandeira, como "Pneumotórax", "Testamento" e "Evocação do Recife".

   "Só as gravações de Bandeira não dariam um CD. Resolvi, então, fazer uma homenagem a ele e gravar poemas que gosto", diz o diplomata, que lançou em 1998 "Poetas da Língua Portuguesa".

   Embora diga preferir não misturar música com poesia, Moreira selecionou temas de Camargo Guarnieri (1907-1993), interpretados pela pianista Belkiss Carneiro de Mendonça. Mas as músicas têm faixas próprias. "Guarnieri era amigo de Bandeira e chegou a musicar poemas dele. E a música faz no CD um diálogo com os versos, não é um fundo", explica ele.

   Moreira financiou com recursos próprios a prensagem do CD, que tem uma tiragem inicial de 3.000 cópias, mas ganhará mais 2.000 ainda neste ano. Em São Paulo, uma distribuidora de discos está pondo os CDs nas lojas. No Rio, encontra-se na ABL e na Livraria da Travessa.

Manuel Bandeira -O Poeta em Botafogo
Lançamento:
Independente
Quanto: R$ 35, em média

(© Folha de S. Paulo)

 

 

POEMA

"O Martelo"

As rodas rangem na curva
dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu
naufrágio
Os elementos mais
cotidianos.
O meu quarto resume o
passado em todas as casas
que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de
pomba.
Sei que amanhã quando
acordar
Ouvirei o martelo do
ferreiro
Bater corajoso o seu
cântico de certezas.

 

Escrito por Dostuc às 13h08
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01/11/2005


Cordel do Fogo Encantado

Uma música desse grupo espetacular (em todos os sentidos) intitulado Cordel do Fogo Encantado. Ouçam, ouçam!

 

Música:Vou Saquear a Tua Feira (álbum: O Palhaço do Circo Sem Futuro)

 

Vou saquear a tua feira
Rasgar a capa do teu peito
Cercar de arame a tua boca
Botar garrancho no teu pé
Ah Sertão
Sesmaria sem dono
Bandeira vereda calor
Mar
A terra quente mergulhou nas águas
Salvação
Ave-bala sem dono
Bandeira vereda calor
Queima
As cercas velhas de arame novo

Escrito por Dostuc às 15h07
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31/10/2005


A Pequena Sereia, e uma música para acompanhá-la

 Nada como observar a estátua solitária da "Pequena Sereia" que fica em Copenhague, Dinamarca... A Dinamarca é o meu país querido, onde eu queria ter nascido. Por ela eu suportaria viver até em uma monarquia, regime que eu detesto, mesmo a parlamentarista. Mas, sem acidez, só serenidade. Uma curiosidade: A "Pequena Sereia" é o Cartão Postal da Dinamarca, como o Redentor é o do Brasil, e foi feita em homenagem à personagem da fábula famigerada de Hans Cristian Andersen. O olhar apaixonado da Sereia, faz uma combinação perfeita com uma versão que Gilberto Gil fez de uma música do Stevie Wonder. Que é a que embeleza a semana.

 

SÓ CHAMEI PORQUE TE AMO
(I Just Called to Say I Love You, de Stevie Wonder)
Versão de Gilberto Gil 1985


Não é natal
Nem ano bom
Nenhum sinal no céu
Nenhum Armagedom
Nenhuma data especial
Nenhum ET brincando aqui no meu quintal

Nada de mais, nada de mal
Ninguém comigo além da solidão
Nem mesmo um verso original
Pra te dizer e começar uma canção

Só chamei porque te amo
Só chamei porque é grande a paixão
Só chamei porque te amo
Lá bem fundo, fundo do meu coração

Nem carnaval
Nem São João
Nenhum balão no céu
Nem luar do sertão
Nenhuma foto no jornal
Nenhuma nota na coluna social

Nenhuma múmia se mexeu
Nenhum milagre na ciência aconteceu
Nenhum motivo, nem carnaxe, nem razão
Quando a saudade vem não tem explicação

Só chamei porque te amo
Só chamei porque é grande a paixão
Só chamei porque te amo
Lá bem fundo, fundo do meu coração


Escrito por Dostuc às 20h59
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O Inferno (parte 3)

“Será da humilde Itália amparo forte,
Por quem Camila a virgem dera a vida,
Turno Eurialo, Niso acharam morte.

 

“Por ele, em toda parte, repelida
Irá lançar-se no infernal assento,
Donde foi pela Inveja conduzida.

 

“Agora, por teu prol, eu tenho o intento
De levar-te comigo; ir-te-ei guiando
Pela estância do eterno sofrimento,

 

“Onde, estridentes gritos escutando,
Verás almas antigas em tortura
Segunda morte a brados suplicando.

 

“Outros ledos verás, que, em prova dura
Das chamas, inda esperam ter o gozo
De Deus no prêmio da imortal ventura.

 

“Se lá subir quiseres, um ditoso
Espírito, melhor te será guia,
Quando eu deixar-te, ao reino glorioso.

 

“Do céu o Imperador, a rebeldia
Minha à lei castigando, não consente
Que eu da cidade sua haja a alegria.

 

“Em toda parte impera onipotente,
Mas tem no Empíreo sua augusta sede:
Feliz, por ele, o eleito à glória ingente!”

 

— “Vate, rogo-te” — eu disse — “me concede,
Por esse Deus, que nunca hás conhecido,
Porque este e maior mal de mim se arrede.

 

“Que, até onde disseste conduzido,
À porta de São Pedro eu vá contigo
E veja os maus que houveste referido”.

Move-se o Vate então, após o sigo.

Escrito por Dostuc às 03h28
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O Inferno (parte 2)

Tendo já repousado o corpo lasso,
Segui pela deserta falda avante;
Mais baixo sendo o pé firme no passo.

 

Eis da subida quase ao mesmo instante
Assoma ágil e rápida pantera
Tendo a pele por malhas cambiante.

 

Não se afastava de ante mim a fera;
E em modo tal meu caminhar tolhia,
Que atrás por vezes eu tornar quisera.

 

No céu a aurora já resplandecia,
Subia o sol, dos astros rodeado,
Seus sócios, quando o Amor divino um dia

 

A tais primores movimento há dado.
Me infundiam desta arte alma esperança
Da fera o dorso alegre e mosqueado,

 

A hora amena e a quadra doce e mansa.
De um leão de repente surge o aspecto,
Que ao meu peito o pavor de novo lança.

 

Que me investisse então cuido inquieto;
Com fome e raiva atroz fronte levanta;
Tremer parece o ar ao seu conspeto.

 

Eis surge loba, que de magra espanta;
De ambições todas parecia cheia;
Foi causa a muitos de miséria tanta!

 

Com tanta intensa torvação me enleia
Pelo terror, que o cenho seu movia,
Que a mente à altura não subir receia.

 

Como quem lucro anela noite e dia,
Se acaso o tempo de perder lhe chega,
Rebenta em pranto e triste se excrucia,

 

A fera assim me fez, que não sossega;
Pouco a pouco me investe até lançar-me
Lá onde o sol se cala e a luz me nega.

 

Quando ao vale eu já ia baquear-me
Alguém fraco de voz diviso perto,
Que após largo silêncio quer falar-me.

 

Tanto que o vejo nesse grão deserto,
— “Tem compaixão de mim” — bradei transido —
“Quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”


 

“Homem não sou” tornou-me — “mas hei sido,
Pais lombardos eu tive; sempre amada
Mântua lhes foi; haviam lá nascido.

 

“Nasci de Júlio em era retardada,
Vivi em Roma sob o bom Augusto,
Quando em deuses havia a crença errada.

 

“Poeta, decantei feitos do justo
Filho de Anquíses, que de Tróia veio,
Depois que Ílion soberbo foi combusto.

 

“Mas por que tornas da tristeza ao meio?
Por que não vais ao deleitoso monte,
Que o prazer todo encerra no seu seio?”

 

“— Oh! Virgílio, tu és aquela fonte
Donde em rio caudal brota a eloqüência?”
Falei, curvando vergonhoso a fronte. —

 

“Ó dos poetas lustre, honra, eminência!
Valham-me o longo estudo, o amor profundo
Com que em teu livro procurei ciência!

 

“És meu mestre, o modelo sem segundo;
Unicamente és tu que hás-me ensinado;
O belo estilo que honra-me no mundo.

 

“A fera vês que o passo me há vedado;
Sábio famoso, acude ao perseguido!
Tremo no pulso e veias, transtornado!”

 

Respondeu, do meu pranto condoído;
“Te convém outra rota de ora avante
Para o lugar selvagem ser vencido.

 

“A fera, que te faz bradar tremante,
Aqui passar não deixa impunemente;
Tanto se opõe, que mata o caminhante.

 

“Tem tão má natureza, é tão furente,
Que os apetites seus jamais sacia,
E fome, impando, mais que de antes sente.

 

“Com muitos animais se consorcia,
Há-de a outros se unir té ser chegado
Lebréu, que a leve à hórrida agonia.

 

“Por ouro ou por poder nunca tentado
Saber, virtude, amor terá por norte,
Sendo entre Feltro e Feltro potentado.

 

Escrito por Dostuc às 03h21
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O Inferno

Colocarei um trecho, do mestre Dante Alighieri, de sua obra "A Divina Comédia": o primeiro canto no "Inferno". Antes de entrarmos nessa parte da "Divina Comédia", vejamos um comentário genial de uma artista, cujo talento reside basicamente em copular com jogadores de futebol:

“O gênero que mais curto é comédia. Eu estava lendo o livro do Jô, mas parei e agora vou começar A Divina Comédia.” (Susana Werner, artista.)

São essas asneiras que o brasileiro ouve ao ligar a TV, ou ao ler revistas. Até quando mente, fala estultices. Afinal, quem acredita que Susaninha tem alguma capacidade de discernimento intelectual para ler Dante? Daqui a pouco, Carla Perez aparece na TV comentando John Milton. Que instinto incontrolável, que vontade de jogar umas figuras dessas no sofrimento eterno. Ah, eu não precisava ser Deus não. Só ser um Dante, assim, para jogar uma meia dúzia no sétimo inferno: Um Latino, um Mc Colibri, um Paulo Coelho, uns ex-BBB's, e umas "modelos" que tentam mostrar que existe vida além da bunda grande (Sabe quando elas vão em programas de auditório e dão tel de contato, sendo que elas não sabem cantar, tocar, não sabem fazer nada? Então, pra quê você acha que é isso? O nome disso é prostituição subliminar. Como você acha que o Ronaldinho acha essas mulheres?) , e jogaria o Jô Soares, porque aí, a classe média ficaria sem intelectuais (É sério! Tem gente que diz que o Jô, aquele do beijo do gordo, é intelectual).... Aí sim, concordo com Susana: seria uma DIVINA COMÉDIA. Só se eu fosse o Dante.

Mas, vamos rir agora. Afinal, é uma obra de comédia. Nem João Kléber conseguiu ser tão engraçado como Dante, sério mesmo.

 

Inferno- Canto 1

Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

 

Dizer qual era é cousa tão penosa,
Desta brava espessura a asperidade,
Que a memória a relembra inda cuidosa.

 

Na morte há pouco mais de acerbidade;
Mas para o bem narrar lá deparado
De outras cousas que vi, direi verdade.

 

Contar não posso como tinha entrado;
Tanto o sono os sentidos me tomara,
Quando hei o bom caminho abandonado.

 

Depois que a uma colina me cercara,
Onde ia o vale escuro terminando,
Que pavor tão profundo me causara.

 

Ao alto olhei, e já, de luz banhando,
Vi-lhe estar às espaldas o planeta,
Que, certo, em toda parte vai guiando.

 

Então o assombro um tanto se aquieta,
Que do peito no lago perdurava,
Naquela noite atribulada, inquieta.

 

E como quem o anélito esgotava
Sobre as ondas, já salvo, inda medroso
Olha o mar perigoso em que lutava,

 

O meu ânimo assim, que treme ansioso,
Volveu-se a remirar vencido o espaço
Que homem vivo jamais passou ditoso

 

Escrito por Dostuc às 03h20
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30/10/2005


Recorda, recorda...(continuação)

Aplica o ouvido a correnteza fria
         Dos golfões da matéria
E recorda de que lama sombria
         E composta a miséria.
 

 

Recorda! Sonha! Nas estrelas erra,
         Beduíno do Espaço
Aos sonhos brancos, que não são da Terra,
         Dá, sorrindo, o teu braço...
 

 

Dá o teu braço, pelos céus sorrindo
         E recordando parte
E hás de entender os claros céus, sentindo
         Que andas a recordar-te.
 

 

 Bate a porta dos Astros solitários
         Dos eternos Fulgores,
Em busca desses mortos visionários,
         Almas de sonhadores.
 

 

Ah! volta a infância dos primeiros beijos,
         Dos momentos sidéreos,
Volta a sede dos últimos desejos,
         Dos primeiros mistérios!
 

 

Ah! volta aos desenganos primitivos,
         Volta a essência dos anos,
Volta aos espectros tristemente vivos,
         Ah! volta aos desenganos!
 

 

Volta aos serenos, flóridos oásis,
         Volta aos hinos profundos,
Volta as eflorescências dos Lilazes,
         Volta, volta a esses mundos!
 

 

Fique na Sombra e no Silêncio d'alma
         Todo o teu ser dolente,
Para tranqüilo, com ternura e calma,
         Recordar docemente...
 

 

Na Sombra então e no Silêncio denso,
         Como em mágicas plagas,
Faz acender o alampadário imenso
         Das recordações vagas...
 

 

Pousa a cabeça, meigamente pousa
         Nesse augusto Quebranto
E nem da Terra a mais ligeira cousa
         Te desperte do Encanto.
 

Para o Amor, para a Dor e para o Sonho
         Nas Esferas transborda...
E entre um soluço e um segredo risonho
         Recorda-te, recorda...

Escrito por Dostuc às 01h09
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Recorda, recorda...

RECORDA! 
(Cruz e Sousa)

 

 

Quando a onda dos desejos inquietantes,
         Que do peito transborda,
Morrer, enfim, nas amplidões distantes,
         Recorda-te, recorda...
 

 

Revive dessa música já finda
         Que nas estrelas dorme.
Volta-te ao mundo sedutor ainda
         Da ilusão multiforme!
 

 

Volta, recorda eternamente, volta
         Aos faróis da Esperança,
Do Sonho estranho as grandes asas solta
         À celeste Bonança.
 

 

Recorda mágoas, lágrimas e risos
         E soluços e anseios...
Revive dos nevoeiros indecisos
         E dos vãos devaneios.
 

 

Revive! Goza! Desolado, embora,
         Sorrindo e soluçando,
Erguendo os véus de já passada aurora,
         Recordando e sonhando...
 

 

Cada alma tem seu íntimo recato
         Numa estrela perdida
E cada coração intemerato
         Tem na estrela uma vida.
 

 

Escrito por Dostuc às 01h08
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