Pensamentos mais-que-imperfeitos!


20/10/2005


Poesia de Vinicius

Conheci essa poesia de Vinícius essa semana, graças a uma querida amiga (existem amizades que valem muito a pena...). Não poderia ter poesia mais bela para homenagear o poeta...

 

O Haver


 

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.

Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.


Escrito por Dostuc às 00h41
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19 de outubro- Aniversário de Vinicius de Moraes

 

Em uma madrugada, agredida por um forte temporal, rua Lopes Quintas, na Gávea, um milagre aconteceu. O dia era 19 de outubro de 1913. Lydia Cruz de Moraes já sentia as fortes dores do parto, e dava a luz a um menino de olhos azuis fulgurantes. A criança passava a se chamar Marcus Vinicius.

O menino católico (que depois seria ateu), ordenado na maçonaria, formado em Letras, depois em Direito, integrante dos oficiais da reserva, sempre mostrou uma vocação para a poesia. Tanto que em seu nascimento como poeta, aos 25 anos já era agraciado com uma bolsa em Oxford, para estudar língua e literatura inglesas. Após essa experiência, não foi difícil ingressar na carreira diplomática, quando tinha 30 anos. Já estava conhecido: colaborava com jornais em suas crônicas, e o seu trabalho poético ganhava cada vez mais admiração e prestígio. Todos já sabiam quem era Vinicius de Moraes.

            Antônio Carlos Jobim, quando era um desconhecido pianista de bar, olhava admirado para aquele contador de histórias, cercado de amigos, querendo estar no meio desses privilegiados próximos ao poeta-diplomata. A oportunidade veio quando Vinicius estava precisando de um músico para compor com ele as canções da peça "Orfeu da Conceição". Lúcio Rangel, amigo do poeta, disse que tinha um garoto bom, que tocava na noite, que poderia ajudá-lo na empreitada. Deu-se então o encontro entre os dois. O encontro entre a música e a poesia. Uma amizade que duraria para sempre, e se refletiria, no violão de João Gilberto, no movimento de renovação da música popular brasileira: a Bossa Nova.

            A história é de conhecimento público nesse ponto. Muitos parceiros como Banden Powell, Edu Lobo, Carlos Lyra, Dorival Caymmi, Chico Buarque. Vinícius tinha tomado gosto de ver a sua poesia enfeitada por belos acordes. Agora, os seus versos já eram onipresentes tanto nos centros eruditos, quanto nos centros populares. As universidades, o cinema, as rádios, respiravam Vinícius de Moraes.

Dois convites, dentre vários, ilustram isso: o convite que foi feito a ele para participar do júri no festival de Cannes e o convite para sua leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, a convite do líder sindical, Luís Inácio Lula da Silva. Na época em que Lula era Lula.

            Vinícius nunca negou nada à vida, como já disseram muitos. Mas, a vida provou ser muito limitada para sua boemia, seus amores, sua poesia. A vida mostrou ingratidão com o poeta quando em 1979, voltando de viagem à Europa, Vinicius sofria um derrame cerebral no avião. Em 17 de abril, (dois dias antes do meu aniversário), de 1980, foi operado para a instalação de um dreno cerebral. Mais complicações vieram à sua saúde, e Vinicius morreu na manhã de 9 de julho de 1980, vítima de um edema pulmonar. Em sua companhia, a sua última das inúmeras mulheres que teve, e o seu parceiro querido, Toquinho.

            O seu corpo apodrecia, como tudo na vida, pois a vida borbulha em cada canto, mas sempre vem acompanhada da morte. Contudo, nenhum verme poderia corroê-lo. Nenhum caixão poderia sobrepô-lo. A poesia de Vinícius de Moraes fez todos os que o admiram, senti-lo vivo, até hoje. Nessas datas, a saudade de não tê-lo conhecido pode ferir, pode trazer lamentações de não ter surgido outro como ele. A forma de aliviá-la  é ouvir suas músicas, e ler suas poesias. É assim que se dá o eterno encontro, com esse poeta que nunca se desencontrou de quem soube procurá-lo.

 

 


Escrito por Dostuc às 00h36
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