Pensamentos mais-que-imperfeitos!


18/08/2005


O que Shakespeare fez, pra ser tão seviciado assim?

 

Um dos episódios mais engraçados de minha vida, foi quando eu conheci uma menina, e em uma conversa daquelas habituais, no processo de conhecimento (sem querer, nem de longe, lembrar da matéria Processo Civil, estou de férias!), perguntei à ela do que ela gostava. "Amo tudo o que vem de Willian Shakespeare". Confesso que fiquei surpreso quando ela disse que amava tudo de Willian Shakespeare. Afinal de contas, por mais que Shakespeare seja pop, é difícil ter alguém que o aprecie. Apreciar eu digo no sentido de ler, pois respeitar todo mundo respeita. É aquela coisa: "Shakespeare? Óóó..." sendo que ninguém nunca leu nada, no máximo assistiu um filme adaptado no cinema. Toscamente, diga-se.
Mas voltando à menina, admirado após essa resposta, eu fiz outra pergunta: "Poxa, que raro alguém que lê Shakespeare...Você gostou de Otelo?". E a menina sorridente: "Não, eu só gosto de Shakespeare". Desconcertado, eu comentei "Mas, querida, Otelo é uma das peças de Shakespeare...". "Ah, é? Eu não sabia...", disse ela. Tentando fazer algo para que ela se recuperasse do constrangimento, eu disse: "Então, você já leu "Hamlet", "Rei Lear", "Macbeth", "Sonho de uma noite de verão"?, ela desconcertada, e sendo até sincera (pois tem muitos mentirosos por aí) disse: "Olha, pra te falar a verdade nunca li nada de Shakespeare... eu gosto da pessoa dele...". Intrigado, perguntei: "Da pessoa? Como assim?". E ela: "Ah, ele era um conquistador. Satisfazia todas as mulheres, tinha várias, amava todas intensamente...Inclusive teve uma que ele dedicou todo o amor da sua vida...". Eu, pacientemente e estupefato, disse: "Meu bem, preste atenção... Shakespeare não gostava de mulher... Shakespeare era gay..apesar de ele ter tido filhos...mas ele era apaixonado por um rapaz. Tanto é que quando o namorado dele morreu, ele morreu de depressão uma semana depois.". Desiludida, ela disse: "Mas eu vi o filme 'Shakespeare Apaixonado'...ele gostava de uma mulher". E lá se foi minha paciência.
Shakespeare, coitado, é muito fustigado por embusteiros. Canso de receber, no e-mail, correntes amorosas com frases e textos atribuídos à Will, que ele nunca teria escrito. A não ser que os navegadores da WEB tenham conseguido achar textos apócrifos, mas bem apócrifos mesmo, lá quando Shakespeare tinha uns 10 anos.
 As obras de Will, já são domínio público há séculos. Então não há porque mentir, inventando textos e frases. É só ir em qualquer site e fazer o download grátis, ou ir em qualquer livraria e comprar por 5 reais. Cada obra dá pra ler em um dia, até pro mais lerdo dos leitores. E pronto! Em duas semanas, temos uma pessoa nova! Coisa que academia e nem salão nenhum faz em tão pouco tempo...
 Mesmo para os que não gostam de literatura, se só lerem Shakespeare na vida, já está de bom tamanho. Com certeza, já estarão à frente de milhões. Dostoiévski, por exemplo, certa vez quando foi passar férias, levou toda a obra de Shakespeare com ele. Saiu das férias escritor. Um dos maiores da história.
 É tão simples. Só é triste ver absurdos imputados a Shakespeare. Não fustiguem quem não merece. Eu sei que o nome dele impõe respeito, mas um conselho aos navegantes que não conhecem bem Shakespeare: toda a vez que receberem uma frase solta, com o nome dele escrito, risquem, e coloquem: "Paulo Coelho", "Lair Ribeiro", "Dan Brown" ou qualquer outra coisa. Esses têm mais a ganhar do que Shakespeare. Afinal, eles não têm nada a perder.

Abaixo, um soneto de Shakespeare. (É dele mesmo! Retirado do livro de sonetos de Will! Podem confiar! hahahah..):

 

 Devo te comparar a um dia de verão?
 Tens mais doçura e mais amenidade:
 Flores de maio, ao vento rude vão
 Como o estio se vai, com brevidade:


 O sol, às vezes, em calor se exalta
 ou tem a essência de ouro sem firmeza
 E o que é formoso, à formosura falta,
 Por sorte ou por mudar-te a natureza

 
 Mas teu verão eterno brilha a ver-te
 Guardando o belo que em ti permanece,
 Nem a morte rirá de emsombrecer-te

 
 Quando em verso imortal, no tempo cresces,
 Enquanto o homem respire, o olhara queça,
 viva o meu verso e vida te ofereça

Escrito por Dostuc às 16h32
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17/08/2005


Eu quero ir pra Luaaaa!!!

 

O Brasil atual, em fotos! Nossos intelectuais, nossas revistas, nossas emissoras, nossos partidos, nossos artistas! Meu Deus! Mamãe, me arranje uma passagem pra eu ir pra Lua! Eu quero morar lá!! Se não tiver, uma pra Alemanha ou pra Dinamarca, já dá pra aliviar...

 

EU VOU PRA LUA
(Luiz Boquinha & Ary Lobo)

 

Eu vou pra Lua,
eu vou morar lá
Sair no meu Sputnik
do campo do Jequiá

 

Já estou enjoado aqui da Terra
Onde o povo a pulso faz regime
A indústria do roubo, a fome, o crime
Onde os preços aumentam todo dia
O progresso daqui, a carestia
Não adianta mais se fazer crítica
Ninguém acredita na política
Onde o povo só vive em agonia

 

Eu vou pra Lua,
eu vou morar lá
Sair no meu Sputnik
do campo do Jequiá

 

Na Lua não tem nome abreviado
IPSEP, IPASE, nem CASEP
Nem IPEP, nem CPMF
Nem contrabando, nem mercadoria
Lá não falta água,
não falta energia
Não falta hospital, não falta escola
É fuzilado lá quem come "bola"
E morre na rua quem faz anarquia

 

Eu vou pra Lua,eu vou morar lá
Sair no meu Sputnik
do campo do Jequiá

Lá não tem juventude transviada
Os rapazes de lá não têm malícia
Quando há casamento é na polícia
A moça é quem é sentenciada
Porventura, se a mulher for casada
E enganar o marido, a coisa é feia
Ela pega dez anos de cadeia
E o conquistador não sofre nada

Eu vou pra Lua,
eu vou morar lá
Sair no meu Sputnik
do campo do Jequiá.

 

Escrito por Dostuc às 14h16
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16/08/2005


Foi poeta- sonhou- e amou na vida

Hoje vou deixar uma poesia do menino prodígio de nossa Literatura, patrono da cadeira número dois da ABL, Manuel Antônio Álvares de Azevedo. Quando ele tinha a minha idade já estava sentindo a pedra fria do túmulo, roçando a sua carne, para a infelicidade de nossa literatura. Apesar de ter morrido novo, Álvares foi, sem dúvidas, um dos nossos mais fecundos autores. Se bem quer morrer velho não quer dizer muita coisa. Tantos autores que fazem sua obra envelhecer com eles... Não é mesmo Rubem Fonseca? Que vergonha esse seu último livro, hein?

 

Meu desejo

Meu desejo? era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta:
A camélia que murcha no teu seio,
O anjo que por te ver do céu deserta....


 

Meu desejo? era ser o sapatinho
Que teu mimoso pé no baile encerra....
A esperança que sonhas no futuro,
As saudades que tens aqui na terra....


 

Meu desejo? era ser o cortinado
Que não conta os mistérios do teu leito;
Era de teu colar de negra seda
Ser a cruz com que dormes sobre o peito.

 

Meu desejo? era ser o teu espelho
Que mais bela te vê quando deslaças
Do baile as roupas de escomilha e flores
E mira-te amoroso as nuas graças!

 

Meu desejo? era ser desse teu leito
De cambraia o lençol, o travesseiro
Com que velas o seio, onde repousas,
Solto o cabelo, o rosto feiticeiro....

 

Meu desejo? era ser a voz da terra
Que da estrela do céu ouvisse amor!
Ser o amante que sonhas, que desejas
Nas cismas encantadas de languor!

Escrito por Dostuc às 23h27
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15/08/2005


Antônio Carlos Jobim ou, como diria Vina, Tomzinho!

A Biscoito Fino, lançou um CD do Tomzinho em dezembro passado (mês em que se completaram dez anos da morte do Maestro Soberano) simplesmente magistral. Esse CD foi a gravação de um show que Tomzinho fez em Minas Gerais, em 1981, um ano após a morte do seu parceiro, Vinicius de Moraes.

Tom lá, sozinho em seu piano, como raramente se pôde ver, dada a extrema timidez do Maestro, contando suas histórias, suas parcerias, como conheceu Vinicius, Carlinhos Lyra, Chico Buarque. Só um exemplo das muitas histórias que o proseador Tom conta no show, presentes no CD: "Vinicius naturalmente me levou para o grande  mundo carioca, me levou à casas em lugares altos, que tinham piano de calda, com aquelas senhoras bonitas, bem lavadas, com dentes, muito bonitas!"

 Acima de tudo, não podemos esquecer das músicas, que o show consegue de maneira sucinta, reunir o que de melhor Tomzinho já gravou. É claro que os fãs sentirão Falta de "Luiza", "Esquecendo Você", "Chovendo na Roseira", "Gabriela", "Wave", "Felicidade, mas convenhamos:  seriam necessários 500 shows para compilarmos toda a obra soberana de Tom Jobim. É o nosso maior nome.

"Antônio Carlos Jobim ao vivo em Minas", nos faz sentir saudade, e também agradecer por um dia o padrasto de Tom ter comprado um piano para Helena Jobim tocar, e ela não se interessar, deixando-o parado em casa. Até que um dia, Tomzinho sentou no piano empoeirado, e começou a fazer alguns acordes. Foi onde tudo começou.

 

 

Samba do Avião

(Tom Jobim)

Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar
Praia sem fim
Rio, você foi feito pra mim
Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar
Rio de sol, de céu, de mar
Dentro de um minuto estaremos no Galeão
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar
Aperte o cinto, vamos chegar
Água brilhando, olha a pista chegando
E vamos nós
Aterrar...

Escrito por Dostuc às 16h21
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14/08/2005


79 anos!

Hoje é o aniversário de Fidel Castro. Deixo aqui minha homenagem, ao 79 anos do comandante! Ele que um dia liderou o resgate da dignidade de Cuba, que era um mero prostíbulo corrupto dos EUA. Cuba resiste hoje ainda, mesmo com o embargo econômico, covardemente imposto, e toda a pressão ideológica estadunidense.
A única coisa que me admira, é os críticos de Fidel dizerem que em Cuba não existe democracia, como no Brasil, por exemplo. O que o Brasil pode falar de democracia? Votar em quem quiser? Urna eletrônica? A verdadeira democracia é a democracia social. Não adianta o voto de um analfabeto ter a mesma validade que o voto de Silvio Santos, enquanto a conta bancária de Silvio Santos é infinitamente superior à de qualquer desvalido. E é com a força dessa conta bancária que as leis são formuladas.
Cuidemos da educação, da saúde, e de nossas crianças, e depois falemos da democracia dos outros. Em nada somos superiores. Apenas somos covardes sem história e embevecidos em ilusão.

 

"Em vez de nos agredirem como nos agridem, por que é que não fazem simplesmente uma pergunta: Como é possível que Cuba em trinta anos tenha feito o que a América Latina não fez em 500 anos?".
Fidel Castro.

 

Escrito por Dostuc às 00h16
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13/08/2005


Sonhos nunca são corrompidos


 Quando viram aquele corpo raquítico, com os olhos abertos, ferido, sem vida, não acreditaram que era ele. Mas era. O mesmo guerrilheiro que percorreu de moto a América Latina, o mesmo que participou da Revolução Cubana de 1959, o mesmo que abandonou tudo, para espalhar o comunismo pelo mundo. Era o Ernesto. Uma tristeza abateu todos os que acreditavam em um mundo mais justo, um mundo livre.
 Quando viram aquele homem barbudo, de terno Armani, gravata elegante, com o rosto abatido, entre os seus erros de português, pedindo desculpas à nação pela corrupção avassaladora em seu governo, não queriam acreditar que era ele. O mesmo operário do ABC, que usava roupas sujas, humildes, que lutava outrora pela igualdade social, que vinha da camada dos excluídos desse país tão cheio de excluídos,  definhava perante a opinião pública. Era o Lula. Uma desilusão abateu todos os que acreditaram que o país poderia mudar, que a desigualdade não subsistiria.
 A desilusão abateu a todos os que sonharam, nesses dois momentos. Os donos do poder, no sentido estrito de Faoro no segundo caso, sentiram que nunca iam ser abalados. No entanto, os que lutam sabem que ainda podem sonhar. Assim como com a morte de Che, a luta continuou, com o fim do governo Lula, a luta sempre continuará. As circunstâncias jamais destruirão os ideais, enquanto eles não forem efetivados.Nós ainda não temos nada a perder, senão os nossos grilhões. Ainda temos um mundo a ganhar.

 

 

"Mas sejam quais forem as circunstâncias da minha morte, morrerei com fé inabalável no futuro comunista da humanidade. Esta fé no homem e no futuro me dá, mesmo agora, uma força que religião nenhuma me poderia dar".
(Trotsky)

Escrito por Dostuc às 23h48
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Poeta, meu poeta camarada!

Vinicius de Moraes! Ah, poetinha, que falta você faz. Eu que nasci três anos após sua morte, já nasci sentindo saudade dos seus versos. Ninguém, como você, soube conciliar o amor com a boemia. A coloquialidade, nas músicas populares, com a forma poética. Só você mesmo, Vina.
Poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil, como diria você. Pois é Vinicius, nesses tempos ocos, perfunctórios, só sua poesia para aliviar as dores das almas sensatas: as almas que sentem falta de ver pesoas assim como você, na televisão, no rádio, nas bancas. Ah, se todos fossem no mundo iguais a você... Daria até alegria em viver!
E lhe digo, meu caro, a mesma coisa que você disse pro Tom, outrora: É meu amigo, só resta uma certeza, é preciso acabar com essa tristeza, é preciso inventar, de novo, o amor. Onde está você para inventá-lo, Vina?
Um abraço,

Do seu eterno discípulo.

Abaixo, uma poesia sua, que achei entre minhas coisas. Como você adivinhou que, um dia, eu sentiria tudo isso, ipisis literis, por uma mulher?


 

 

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

 


Rio de Janeiro, 1935

 


 

 

Escrito por Dostuc às 23h07
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