Pensamentos mais-que-imperfeitos!


25/05/2005


Lotte no túmulo de Werther e poesia de Álvares de Azevedo

   Lembrança de Morrer 

   Quando em meu peito rebentar-se a fibra

   Que o espírito enlaça à dor vivente,

   Não derramem por mim nenhuma lágrima

   Em pálpebra demente.

   E nem desfolhem na matéria impura

   A flor do vale que adormece ao vento:

   Não quero que uma gota de alegria

   Se cale por meu triste passamento.

   Eu deixo a vida como deixa o tédio

   Do deserto, o poento caminheiro

   - Como as horas de um longo pesadelo

   Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

 

   Como o desterro de minh'alma errante,

   Onde o fogo insensato a consumia:

   Só levo uma saudade - é desses tempos

   Que amorosa ilusão embelecia.

   Se só levo uma saudade - é dessas sombras

    Que se sentia velar nas noites minhas...

    De ti, ó minha mãe, pobre coitada

    Que por minha tristeza te definhas!

 

    De meu pai... de meus únicos amigos,

    Poucos - bem poucos - e que não zombavam

    Quando, em noites as pálpebras me inunda,

    Se um suspiro nos seios treme ainda

    É pela virgem que sonhei... que nunca

    Ao lábios me encostou a face linda!

 

    Só tu à mocidade sonhadora

    Do pálido poeta deste flores...

    Se viveu, foi por ti! e de esperança

    De na vida gozar de teus amores.

    Beijarei a verdade santa e nua,

    Verei cristalizar-se o sonho amigo...

    Ó minha virgem dos errantes sonhos,

    Filha do céu, eu vou amar contigo!

 

    Descansem o meu leito solitário

    Na floresta dos homens esquecida,

    À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

    - Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

    Sombras do vale, noites da montanha

    Que minha alma cantou e amava tanto,

    Protegei o meu corpo abandonado,

    E no silêncio derramai-lhe canto!

   

    Mas quando preludia ave d'aurora

    E quando à meia-noite o céu repousa,

    Arvoredos do bosque, abri os ramos.

    Deixai a lua prantear-me a lousa!

 

Comentário: Quem é mal-do-século entende essa pintura e essa poesia, e chora mais que ninguém...

Escrito por Dostuc às 01h40
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