Quando me deparo com alguma mulher de vida sexualmente ativa, por diversas vezes já ouvi comentários tanto de homens quanto de mulheres: "Você está vendo aquela mulher ali, cara? Ela não vale nada! Já transou com uns 12!". Nunca entendi a questão do valor da pessoa com a sua vida sexual. Aliás, essa associação é difícil de entrar na minha cabeça. Assim como é difícil entender quando ouço uma mulher falar: "O meu namorado me respeita muito". No caso a mulher está querendo dizer duas coisas: ou que ela é virgem e o namorado não está "avançando o sinal", ou que o namorado durante o ato propriamente dito não pratica coisas mais radicais, como bater, chamar de nomes insinuantes, etc. Aí o namorado está "respeitando". Pois não está tratando a namorada como uma "vagabunda". Novamente, uma virtude relacionada ao ato sexual. Eu não sei se o Marquês de Sade fez mal para minha mente, mas tem certas coisas que eu não consigo entender, como essas equações de valor e respeito correlacionadas com o sexo. Mas hoje eu vou procurar pensar do modo que o senso comum pensa e avaliar uma pessoa pela vida sexual. Vejamos essa reportagem publicada no meio desse mês no site do Terra:
"Klaudia Figura é a nova 'campeã' mundial do sexo. A atriz pornô polonesa transou com 646 homens em apenas sete horas! O recorde foi batido em um Festival Erótico em Varsóvia, capital da Polônia. Na competição, Klaudia Figura venceu a brasileira Mayara Rodrigues e Claire Brown, da Grã-Bretanha. A recordista anterior era a atriz norte-americana Houston, que fez sexo com 620 homens em 1999. O campeonato começou às 10h da manhã e o regulamento previa que cada ato sexual deveria durar entre 30 e 60 segundos. O recorde foi quebrado às 16h54, mas Klaudia continuou transando até às 17h46, até atingir a marca de 646 'atos sexuais'. A brasileira Mayara Rodrigues transou com 633 homens e ficou com a 'honrosa' segunda colocação. Claire Brown abandonou a competição após transar com 466 homens."
646 homens! Bom, se com doze a mulher já não vale nada, imagina com 646? Deixou de ser da espécie humana e involuiu para alguma espécie inferior à do gado. Será que pela concepção atual, alguém namoraria com uma mulher assim, mesmo que ela assegurasse fidelidade? Lógico que não, afinal ela não vale nada.
Nesse contexto, existe um detalhe interessante: ela não fez nada sozinha. 646 homens foram coniventes! Fora os interessados, que viram as fotos e os vídeos do concurso...Se ela não presta, sozinha ela não está...
Agora, em um pequeno esforço basta trazer esse modelo para a sociedade longe dos concursos de sexo. Até porque no concurso, coitadas, as mulheres nem podiam escolher com quem transariam. Voltemos à mulher "vagabunda", que transou com meros 12. Ela só foi porque os doze aceitaram. Afinal, é difícil ter um estupro em que o agente é uma mulher. Multipliquemos esse número por todos os que quiseram alguma coisa com a mulher "vagabunda" e não conseguiram. Quanta gente não presta hein!
Aí as mulheres "virtuosas" podem dizer: "Ah, mas que todo homem não presta eu já sei. E essas mulheres são minoria, não têm nada a ver comigo". Todavia, essas mulheres "virtuosas" namoram com os homens que outrora se comunicaram por uns momentos com as mulheres que não prestam. E a falta de virtude se torna contagiosa.
Me lembra muito o caso de Severino Cavalcanti, em entrevista à folha de São Paulo. Ele disse que toda a mulher deveria se casar virgem. E que o homem tinha que ter uma experiência anterior. Mas, peraí, se toda a mulher tem que casar virgem, e o homem tem que ter uma experiência anterior, com quem o homem vai experimentar? O pensamento machista é assim mesmo: tem equações que não fecham. Por isso que é ridículo.
E o senso comum, esse male tão presente e nunca questionado, entra em uma contradição insanável, pois atribuir valor a uma pessoa(principalmente mulher) pela sua vida sexual, é ir contra o próprio ser humano. Restam duas opções: colocar os pouquíssimos virtuosos em uma redoma e castrá-los, colocando os seres humanos "sujos" em um ônibus espacial para jogá-los no na Lua; ou admitir que essa atribuição é muito equívoca e estapafúrdia, e passar a mudar o pensamento, sem moralismos hipócritas, reconhecendo assim, que o sexo não é paradigma para sabermos como a pessoa realmente é. De uma certa forma, parafraseando o Marquês, todos buscam colher flores sobre os espinhos da vida. Então, chega de patrulha!
PS: Falei em defesa mulheres, mas o mesmo raciocínio vale para os homossexuais, e para todos aqueles que são julgados por assuntos concernentes ao sexo. Vivam!